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Edição de 20-07-2022
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    Arquivo: Edição de 30-06-2008

    SECÇÃO: Opinião


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    Sentido descendente

    Há tempos, um comentador-político ou político-comentador, para manifestar o seu desagrado relativamente à equipa gestionária do seu partido, inverteu a orientação da seta caracterizadora do respectivo símbolo colocando-a no sentido descendente, com o que desejou manifestar a convicção que tinha de que o prestígio e a influência do partido na sociedade portuguesa continuariam a descer, como as sondagens já o demonstravam.

    Metaforizando um pouco, poderemos aplicar a “imagem” à acção governativa dos nossos dias, não faltando exemplos demonstrativos de que o país e as pessoas são arrastados para patamares inferiores dos níveis de desenvolvimento ou de qualidade de vida que conheceram, consequência de políticas apresentadas como as melhores para tornar Portugal um país moderno e competitivo, mas que, infelizmente, a maioria dos portugueses não encontra tradução no dia-a-dia das suas vidas.

    Embora o discurso do sofre hoje para rejubilares amanhã tenha alguns anos, a verdade é que os sacrifícios continuam, cada vez com maior intensidade, sem que alguém enxergue a luz ao fundo do túnel de um nível de vida melhor. Bem pelo contrário. E os sinais mais recentes não fazem augurar nada de bom, quer socialmente falando, quer no que toca à aplicação dos recursos financeiros públicos, ou ainda quando se confronte o discurso político com a acção governativa. As contradições são permanentes.

    Quando surge a necessidade dos políticos se defenderem da falta de competitividade da nossa economia, logo aparecem dois “chavões”: baixo nível de formação escolar e leis laborais impeditivas das nossas empresas se adaptarem às exigências da globalização. E o que fazem os governantes? Elaboram provas de aferição de conhecimentos que os especialistas das respectivas matérias se declaram envergonhados com tão descarado facilitismo. Perante tão degradante espectáculo o que se deve esperar? Que os nossos jovens se apresentem no mercado do trabalho tão bem preparados quanto os seus colegas europeus? Naturalmente que não. Apenas o ministério exibirá como sucesso da sua acção governativa uma quebra acentuada de “chumbos” nos exames nacionais. É tudo ao faz de conta.

    Quando se abordam questões da família, não há político que não defenda a necessidade e disponibilidade de legislar no sentido de proporcionar aos casais condições para contribuírem para o aumento demográfico. Mas na prática o que é que acontece? Dando de barato tantas “agressões” ao desenvolvimento harmonioso das famílias, tomemos o que acaba de ser aprovado em Conselho de Ministros para ser presente à Assembleia da República, onde a existência de uma maioria é garantia de vir a ser lei: entrada em vigor de nova versão do Código do Trabalho sujeitando os trabalhadores a prestar trabalho extraordinário quando a entidade patronal o exija até ao limite de 200 horas anuais, podendo a semana de trabalho passar das actuais quarenta horas para sessenta ou sessenta e cinco horas. Num quadro destes, como poderá haver desejável ambiente familiar? E pior será se adicionarmos outras inevitáveis consequências desta medida: aumento do desemprego, menor retribuição do trabalho prestado, por deixar de haver pagamento de horas extraordinárias; condições objectivas para a entidade patronal sujeitar impunemente os trabalhadores a maior carga horária sem remuneração, que lhes será proporcionada por ausência de fiscalização e de meios para esta detectar eventuais abusos, e a natural impossibilidade dos trabalhadores reclamarem os seus direitos sem correrem o efectivo risco de serem despedidos. Poderão apenas esperar mais propensão ao risco de acidentes de devido à fadiga do trabalho, donde resultará sempre sofrimento e perda de salários, quando a morte não seja a contrapartida da ganância do lucro e da sujeição do político ao económico.

    Relativamente à afectação dos recursos financeiros públicos, abundam os exemplos de uma gestão ruinosa e irresponsável. Não faltam instalações de serviços públicos sem o mínimo de condições de funcionalidade e dignidade, de que os acontecimentos recentes registados no Tribunal de Santa Maria da Feira são um triste mas significativo exemplo do que se poderá encontrar por esse país fora. Perguntar-se-á! Qual a razão normalmente avançada para a degradação dos equipamentos? Falta de dinheiro. Mas se assim é, que verdadeiras razões imporão a um país carecido de tantos investimentos na recuperação dos seus equipamentos, que de forma obstinada sujeitam as populações, actuais e vindouras, a suportarem custos de muitos e muitos milhões de euros em obras faraónicas? Quanto ao aeroporto, não falta quem afirme que o actual serve para muitos e bons anos. No que ao TGV diz respeito, o “desastre” não será apenas o custo da infra-estrutura mas, e talvez bem mais gravoso, os défices da sua exploração. Os espanhóis perante a “crise”, anunciaram suspender a ligação Badajoz/Madrid. Os portugueses teimam em construir o trajecto Lisboa/Badajoz, numa afirmação bacoca perante os nossos “hermanos”, de que nos sobeja o que a eles falta: mediocridade, irresponsabilidade política e recursos financeiros para desbaratar.

    Pressentimos os estimados leitores de “A Voz de Ermesinde” a interrogarem-se: mas não haverá solução para os políticos deixarem de agredir os trabalhadores, abandonarem a prática de agravar as condições de vida dos portugueses e de passarem a gastar os dinheiros públicos em projectos que contribuam para o bem-estar das populações, em vez de aumentarem a dívida pública e de reduzirem os financiamentos às instituições sociais? Certamente que haverá, mas não a esperem dos políticos que actualmente detêm o poder, nem dos que já o exerceram. A nossa convicção é que se as próximas eleições legislativas forem ganhas pelos socialistas, assistiremos a uma legislatura marcada por repetidas afirmações de que os eleitores aprovaram a sua governação e, consequentemente, só terão de continuar as políticas de puxar para baixo o País nas estatísticas que medem o nível de prosperidade dos povos. Se o resultado conduzir a um governo social-democrata, voltaremos a ouvir a “cassette” tipo: procedemos como os “senhores” faziam, ou, quando forem censurados por não fazer, escutaremos a não menos recorrente resposta: por que não o fizeram quando foram governo? É dramático, mas não vemos como sair do “cerco” em que estamos metidos. E, ao contrário do que pode dizer-se, não estamos convencidos da assertividade da expressão: nada que a democracia não resolva. Cepticismo? Não! Pragmatismo.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

     

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