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    Arquivo: Edição de 30-06-2008

    SECÇÃO: Crónicas


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    “Guerras do Alecrim e da Manjerona”

    Há por aí uns senhores, que adoram posar de doutos, realizam profundos estudos académicos que, como nós sabemos, na sua grande maioria não servem para nada a não ser alimentar-lhes o narcisismo, que já vem sendo hábito nosso, desde que nos assumimos como nação. É preciso publicar, enriquecer o currículo, justificar o próprio mérito e ascender na carreira. Que mais não seja, trabalhos semeados de uma gíria científica ou algo que se lhe assemelha e que pretendem impor aos estudantes como derradeira palavra no mundo do saber. Os mestres odeiam-se, nem sempre cordialmente, e jamais fazem segredo das suas desavenças, não se coibindo de dar mau exemplo aos discípulos, alguns dos quais podem seguir-lhes as pisadas. Pior ainda, o labor que desenvolvem não é, geralmente, posto em comum, fazem “caixinha” com os seus pares do que resulta uma perda para a evolução do conhecimento.

    Não conheço bem a realidade doutros países, mas suponho que serão mais práticos e menos pedantes do que nós. Nada devemos a outros em capacidades intelectuais e de realização. Temos é comportamentos diferentes perante a vida. Trabalhei numa empresa-instituição de apoio ao desenvolvimento económico e social, sediada no Rio de Janeiro, patrocinada pela Igreja Católica norte-americana. Havia médicos, enfermeiras, engenheiros de várias especialidades, advogados, sociólogos, assistentes sociais, economistas. Foi um trabalho que durou seis meses, pouco antes do meu regresso a Portugal. Os sociólogos íamos na dianteira, estudávamos in loco a situação que nos era apresentada, discutíamos entre nós, enviávamos relatórios à Direcção. O projecto analisava-se nessa instância segundo a estrutura sociológica definida por Rubbo Miller, um ilustre cientista social docente na Universidade Católica de S.Paulo. Era então submetido à apreciação dos departamentos intervenientes. Uma vez aprovado nessas instâncias, passava à fase de execução. Havia, entre nós, alguns estagiários norte-americanos que passavam algum tempo em países centro e sul-americanos antes de concluírem as respectivas licenciaturas. Espantava-me a sua forma de trabalhar. Sempre que uma dificuldade ou um imprevisto acontecia, diziam:

    – Vamos sentar!

    E dali era garantido que dali sairia o problema resolvido. Nada se fazia ao acaso, prevaleciam o bom-senso e o interesse geral contra a mesquinhez das teorias da conspiração e de interesses particulares ou corporativos.

    Vem isto a propósito de duas questões de enorme alcance no domínio da Língua Portuguesa e da sua salvaguarda e valorização: a chamada TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) e o inicialmente denominado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

    Acerca da primeira, glosada “em prosa e verso” pelo ridículo das novas designações das disciplinas e categorias da Língua, já foi aprovada e vai ser aplicada nas escolas nos próximos tempos. É uma confusão de nomes “complicados” para coisas antigas que não faz sentido nem melhora o conhecimento da Língua da parte dos alunos e cujo alcance a maioria dos professores não entende. A descrição da Língua continua a ser a mesma que sempre foi. Contra ela têm-se manifestado muitas pessoas consideradas autoridades na matéria. Em vão. Resulta, segundo parece, da guerrinha que entre si mantêm linguistas e homens e mulheres da Literatura. Os linguistas entenderam que já era tempo de mostrarem o fruto das suas elucubrações; os “literatos” revoltam--se contra o que entendem ser apenas “vinho velho em odres modernizados”. No fundo, fica tudo na mesma. Durante anos Noam Chomski lutou pela introdução de nova maneira de encarar e descrever a língua. Depois de ter sido recebida com enorme aplauso, a Gramática Generativo-Transformacional foi atirada para o cesto dos papéis, deixando apenas restos da velha pele que alguns mestres teimam em ensinar aos seus alunos. O mesmo sucedeu aos próceres da Gramática Tagmémica e de outras. O ensino da Língua tem problemas urgentes por resolver, que vêm sendo ensinados de maneiras diferentes segundo os autores das gramáticas que estão no mercado: é o caso do predicado da frase, que uns dizem ser apenas o verbo, enquanto outros entendem que ele inclui também os complementos directo e/ou indirecto; há também a elucidação de fenómenos na formação das palavras que aparecem explicados de maneira diversa.

    Quanto ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, ratificado já por Portugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, levantou uma polémica tremenda, desde que foi aprovado na década de 90 do século findo, e dura até aos nossos dias. Os linguistas chefiados pelo Professor Malaca Casteleiro aprovaram o Acordo em nome de Portugal nesses anos distantes. Desde o início, tem sido contestado por muitos intelectuais e intelectualóides da nossa praça não tanto por erros ou demérito próprio, mas sob o argumento de que foi uma cedência vergonhosa ao Brasil. Fizeram circular na Internet um Manifesto contra a ratificação do dito Acordo que reuniu perto de 40 000 assinaturas. Para começo de conversa, a Língua Portuguesa deixou de ser propriedade exclusiva dos portugueses para se tornar um veículo de comunicação e transmissão de conhecimentos entre todos os seus usuários e que nos representa nos mais diversos areópagos internacionais! Em segundo lugar, o Brasil tem quase duzentos mil falantes contra os nossos ridículos dez mil (?) a que poderemos acrescentar mais umas quantas dezenas de milhar de vozes dos países africanos, incluindo os timorenses. O Brasil é uma potência emergente de grande audiência internacional. Ingleses, franceses, espanhóis, têm acordos semelhantes com os países que usam as respectivas línguas. A unificação da quinta língua mais falada do mundo é indispensável num mundo em rápida transformação. É melhor deixarmos que seja o Brasil a representar-nos, teimando nós em preservar a “pureza” do vernáculo? Que cegueira acometeu essa gente? Em 1911 houve um Acordo Ortográfico entre Brasil e Portugal, imposto por decreto, e que nem por isso deixou de funcionar e de ser respeitado nos dois países. Não consta que tivesse havido terramotos, tsunamis, erupções vulcânicas, pandemias ou qualquer outro mal terrífico dele resultante. Celebrou-se novo Acordo nos anos 30 do século XX que não teve efeitos práticos em Portugal. Esta é a grande e necessária oportunidade. Importa aproveitá-la.

    Por: Nuno Afonso

     

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