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    Arquivo: Edição de 31-03-2008

    SECÇÃO: Crónicas


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    Um susto enorme

    O Chico cresceu e madurou. Falei dele em criança, há tempos atrás, talvez já não se lembrem. Era irrequieto, impertinente com as mulheres que cirandavam na lida da casa e tudo faziam para lhe satisfazer as vontades. Na verdade, apesar de tantos paparicos, insistia nas provocações, alguma coisa o consumia, uma mágoa profunda que não ousava confiar a ninguém com medo de ouvir a confirmação da suspeita. A sua revolta vinha daí, era a sua forma de exprimir o desgosto que lhe enchia o peito. Nos dias que vão correndo, os motivos do Chico poderiam parecer de somenos, mas, no início do século XX, eram levados muito a sério e as pessoas envolvidas, ainda que involuntariamente, encontravam-se à mercê da bisbilhotice e maldizer dos auto-proclamados defensores da moral e dos bons costumes.

    Essa mágoa, epidérmica, acompanhou-o pelo resto da vida e o tempo não logrou cauterizá-la, permaneceu em carne viva, latente, sangrando ao mínimo toque, involuntário ou intencional. De resto, ele assimilou os valores que lhe foram incutidos e transparecia boa disposição no relacionamento social, tornou-se querido e respeitado. Possuía qualidades de liderança, nunca deixava mal os amigos, sabia como resolver situações melindrosas nas festas e romarias onde se juntava a rapaziada de aldeias vizinhas. Essas ocasiões eram propícias a desaguisados por causa das raparigas que lá os atraíam. Nada que uma voz sensata fosse incapaz de solucionar.

    Depois das festas, a rotina diária no campo, interrompida com os bailaricos domingueiros ao som de bandolins, guitarras e acordeões. Havia os deveres religiosos pela manhã, sem dúvida, mas o sétimo dia era para descanso e divertimento e, mal terminava o almoço, rapazes, raparigas e gente mais amadurecida e alegre dirigiam-se aos lugares do costume para dar o seu pezinho de dança. Outros dedicavam-se aos jogos tradicionais, por norma despique de força e habilidade, sem esquecer a taberna, estuário onde desaguavam desgostos e cada um velejava ao sabor da ambição assente num baralho de cartas.

    Ao longo da semana de trabalho, entretinham-se os fins de tarde, antes que o sino conclamasse às Trindades e ao obrigatório recolher caseiro, com o jogo do eixo, do peru-galo, ou das escondidas. Aqui, levava a melhor quem não se deixava impressionar com a escuridão e os medos instituídos. Esses corajosos escondiam-se em lugares onde ninguém se atrevia a procurá-los como o cemitério ou o interior da igreja, mesmo ao lado, de preferência atrás do altar-mor onde não chegava o mais ténue raio emanado da lâmpada do Santíssimo. O campeão deste jogo era, invariavelmente, o Manuel, irmão poucos anos mais velho do que o Chico, de quem todos conheciam o esconderijo, mas ninguém tinha coragem de localizar. O Manuel era conhecido pela sua impavidez face ao que a todos os demais causava brotoeja psicológica. O Chico, esse dizia sempre que a morte lhe inspirava uma grande impressão e rematava:

    – Quando estiver debaixo da terra, como é que eu vou respirar?

    Para acomodar os animais, lá pelas tantas da noite, não convidassem o Chico mais o lampião empunhado por qualquer miúdo da casa, arranjaria desculpa até ao limite do plausível. Mas nem sempre podia esquivar-se, veio um tempo em que os irmãos mais velhos já tinham saído da casa paterna ou tinham outras tarefas a executar assim como viajar até ao rio a saber como andava a moagem do cereal. O palheiro e os currais em que dormiam os bovinos ficavam em frente da igreja e do campo santo, apenas separados pelo caminho que atravessa a povoação. Aos poucos, lá se foi acostumando. Enchia a canastra de feno e, a ruminar os seus pensamentos, seguia em direcção aos currais para encher as manjedouras dos bichos. A essa hora não circulava por ali vivalma e o silêncio era tão denso que até os roedores deviam estar a dormir, nos seus esconderijos, apostando na complacência dos gatos, reinava um ambiente de paz que assim se desejaria para o mundo inteiro. O Chico não olhava para o outro lado do caminho nem se interrogava porquê. Fazia o percurso inverso, depositava a canastra no seu lugar e, aliviado, dirigia-se para casa. Tudo tão certinho que parecia assim estabelecido desde os confins do tempo. Quanto ao futuro, todos dizem que a Deus pertence, no entanto, nada parecia apontar para qualquer mudança.

    Mas um dia, aconteceu algo invulgar, relativamente à época e ao lugar. Precisamente no palheiro, em que se guardava a forragem para os animais, um homem enforcara-se, não havia muito. O Chico não chegou a vê-lo, mas era impossível deixar de pensar no caso, tanto mais que a pessoa em causa era, de certo modo, ligado à família. Mas já, de novo, se ia habituando à rotina quando, certa noite, ao abrir a porta, lhe chegou aos ouvidos um ronco profundíssimo, semelhante ao estertor de um moribundo.

    Desatou a correr como louco e só parou centenas de metros adiante ao atentar na irracionalidade da sua atitude. Num brevíssimo instante, questionou todos os receios que, até então, fora alimentando: «Afinal, estou a fugir de quê? Sempre quero ver o que se passa. O Joaquim morreu e está enterrado, não há que ter medo dele».

    Voltou atrás, empurrou a porta e gritou:

    – Quem está aí?

    – Sou eu… – respondeu--lhe uma voz humilde e ensonada.

    – Eu, quem?

    – Sou o Zé Quitério de Argozelo. Vim trazer azeite ao seu irmão e ele mandou-me dormir aqui.

    – Ó homem, vossemecê pregou-me um susto dos diabos. O Alfredo esqueceu-se de me avisar e eu fiquei atarantado ao ouvi-lo ressonar. Deite-se lá e que Deus lhe dê uma boa noite! Vou dar de comer à cria e, depois, pode dormir descansado que ninguém mais o vem incomodar.

    Se esta fosse uma daquelas histórias edificantes com final judiciosamente feliz, diríamos que o Chico tinha aprendido a lição e que os seus medos «foi um ar que lhes deu». Todavia, quem nasceu e foi criado em aldeia perdida nas faldas de uma serra coroada por florestas de carvalhos e sardões, condenado a noites de semi-escuridão, mitigada tão só pela débil luz de candeias e utensílios afins, sob a ameaça permanente de lobos e de raposas que dizimavam rebanhos e capoeiras, trazia o espírito incendido de fantasmas e almas errantes «que nem Deus quis no Céu nem o Diabo no Inferno». Contavam e ouviam narrativas destas, para entreter os longos serões de Outono e Inverno, na presença dos mais novos que, desta maneira, misturavam às crenças religiosas superstições aterradoras. Valiam, para contrabalançar, os juízos experientes dos mais idosos, a ternura e os exemplos de coragem dos pais. Foi com estas lições que o Chico aprendeu a relativizar o medo, opondo-lhe também o que a razão ditava.

    Por: Nuno Afonso

     

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