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    Arquivo: Edição de 15-02-2008

    SECÇÃO: Editorial


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    O Inferno são os Outros!...

    É comum entre nós, especialmente nos meios rurais, falar do Diabo em relação a pessoas, ou situações – há coisas do Diabo!

    Nos últimos tempos a questão da existência do Inferno levantou alguma polémica a propósito da posição assumida por Bento XVI numa reunião de padres em Roma, ao afirmar: «O Inferno existe».

    João Paulo II pensava de modo diferente: «O Céu não é um lugar físico entre nuvens.

    E o Inferno não é um lugar, mas a situação de quem se afasta de Deus».

    Não vou entrar na polémica, nem é essa a minha intenção, mas devo dizer que me apeteceu saber mais alguma coisa e revisitar imagens que me marcaram profundamente quando eu era ainda muito pequena.

    Frequentava nessa altura um colégio onde, durante o tempo da Quaresma, se realizavam retiros e palestras para as mais pequeninas sobre o pecado e o Inferno. Na ausência dos actuais meios audiovisuais, mostravam--nos umas imagens em rolos, que faziam deslizar à nossa frente, rodavam-nos calmamente e assistíamos em silêncio, como que via cinema, àquele desfilar de situações de diabos, almas penadas, caldeirões, e sempre fogo, muito fogo, chamas por todos os lados. Aquelas imagens perseguiam-me, não entendia semelhante crueldade, tinha sonhos e pesadelos, não aceitava que um Deus justo fosse capaz de castigar os não crentes daquela maneira, e eu revia a minha família e tinha a maior das admirações por alguns que não eram crentes. Preocupados comigo, tentavam explicar-me que muitas das histórias que me contavam também não eram reais. Mesmo assim eu andei com pedras dentro dos sapatos para fazer sacrifícios pela conversão dos meus familiares. Pelos vistos, não foram suficientes, mas eles continuaram a respeitar todos os meus actos, mesmo quando eles não foram coincidentes com a sua forma de pensar e, ao contrário do que eu pensava nessa altura, eles ainda estão bem presentes na minha vida e enquanto eu viver eles serão eternos para mim, e continuo a aprender com a vida deles.

    Mas volto às minhas pesquisas, sobre o Inferno e o Diabo, acompanhada de um belo livro que aconselho, com imagens lindíssimas, “A História do Feio” de Umberto Eco.

    Segundo Eco, «o feio, subforma de terrificante, de diabólico, entra no mundo cristão com o Apocalipse de João Evangelista».

    Há referências anteriores e alusões ao Demónio e ao Inferno, mas Eco considera que o Apocalipse é uma representação sagrada com todos os detalhes, não admira portanto que as suas representações artísticas sejam de um grande pormenor.

    Porém também os pagãos acreditavam num mundo subterrâneo onde vagueavam as sombras dos mortos.

    Na idade Média encontramos muitas descrições de Infernos, nomeadamente no “Livro da Escada”, do séc. VIII, em que se conta uma viagem de Maomé aos reinos do além-túmulo. Dante inspirar-se-á nessa descrição para o seu inferno.

    São imensas as representações pictóricas e escultóricas que encontramos nas abadias românicas, nas catedrais góticas, nas pequenas igrejas de aldeia, em frescos, miniaturas, por todo o lado o Inferno está presente, recordando aos pecadores o que os espera.

    E mais e mais Inferno como o de São Brandão, da autoria de Nicola Pisano, que se encontra no baptistério de Pisa.

    Também o Período Barroco foi rico em representações de diabos e tormentos, mas vejamos como Jean-Paul Sartre entende o inferno contemporâneo: «Um quarto de hotel com a luz sempre acesa e a porta fechada, em que três pessoas que nunca se tinham visto têm de conviver eternamente»… Uma das personagens grita «Abri, abri, peço-vos. Aceito tudo: a bota, as tenazes, o chumbo derretido, as pinças, o garrote, tudo o que queima, que dilacera. Quero sofrer a sério…». Mas em vão: «Não há necessidade de grelhas porque o inferno são os Outros».

    Por: Fernanda Lage

     

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