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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 30-01-2008

    SECÇÃO: Crónicas


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    Um Natal no Porto

    Foi preciso chegar à idade de netos crescidos para passar a noite de Consoada na cidade do Porto. Não foi fácil, mas foi agradável.

    «Viver no Porto é um privilégio», como afirma o João Manuel, transmontano de Freixo de Espada à Cinta, enraizado numa vivenda, perto da Circunvalação e a ver o mar. Quando compara as ondas com as ondas da serra, lembra-se de Miguel Torga, e do “Reino Maravilhoso”! Vê-o de caçadeira ao tiracolo e de cinturão, guarnecido de coelhos e perdizes, entre montes. Há uns anos deixou de ir passar as férias do Natal à aldeia, mesmo quando os professores tinham mais dias de descanso.

    Excepto nas vindimas, e uns dias no Algarve, o João Manuel estava sempre no Porto. No Natal, enquanto os amigos iam para as aldeias serranas, os seus familiares vinham passar as Boas-Festas ao Porto. As temperaturas amenas, temperadas pela proximidade do mar, assim o habituaram.

    Ao receber os seus votos de Bom-Natal, pelo telefone, disse-lhe:

    – Não, não vou lá acima!, o fogo da lareira já não satisfaz. A Família é mais do Porto do que de Soutelo…

    Não foram tanto as condições climatéricas a influenciar a passagem do Natal na cidade, foram as disponibilidades dos filhos.

    A consoada teve de ser preparada à Porto. Como? Tudo o que é preciso existe, no momento, incluindo o polvo e a raia. O bolo-rei encomendado, as nozes dentro de figos, as avelãs, os pinhões, as amêndoas sem pele e as castanhas piladas podem enfeitar a mesa. Faltaram as ”orelhas de pêssego”, apesar de inquirir meio mundo para a compra.

    Se o bacalhau e a couve troncha tinham de estar presentes, e os filetes de polvo enfeitaram a travessa do arroz, a raia fresca marcou presença!

    Foi preciso ter ido à procura da raia a vários supermercados, mas só no Bolhão se encontrou. O desejo de comer raia, mesmo seca, em pequenito, foi satisfeito!

    Percorridas as bancas do peixe, só na terceira a encontramos, mas congelada. Vê-la serrar às postas não deu “gozo”. Por isso, continuamos a perguntar:

    – Tem raia fresca?!

    Quando ouvimos:

    “Ó meus amores! temos fresca… fresquinha!”, lembramos as saudações das vendedeiras do Bolhão, já esquecidas!

    No dia da Consoada, num 4º andar de Paranhos, observei a cidade na noite mágica: os prédios em frente, profusamente iluminados, lembravam as cascatas do monte do presépio de Belém, armado em musgo e montado na capela de Roalde, quando era aluno do liceu de Vila Real.

    O crepitar da lenha de oliveira, vinda de Soutelo do Douro, deu o húmus rural, e o britar de avelãs lembrou a quinta do Bouço, onde colhia os frutos, junto ao caminho de carros de bois, os vinhos do Douro estiveram nos brindes.

    Quando, ao comer uma fatia de bolo-rei, com um figo cristalizado rodeado de chila, saboriei um cálice de vinho fino, e disse alto:

    – É bom viver no Porto!

    Por: Gil Monteiro

     

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