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    Arquivo: Edição de 10-12-2007

    SECÇÃO: Crónicas


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    Andar ao respigo

    Lembrar a infância é infalível. Costumo afirmar: as acções praticadas nos primeiros anos ficam gravadas a fogo. Ao recordarmos o passado, logo vem:

    – Quando andava na escola...

    Apesar da aquisição de conhecimentos começar ao nascer (iria dizer: e na vida intra-uterina) e crescer até adulto, tendo o pico maior aos seis, sete anos (idade das perguntas e dos porquês), é bom sabermos isso.

    Não fiquei surpreendido. Nos últimos escritos de Miguel Torga – Diário XVI – presta homenagem ao Sr. Botelho, o Professor que lhe ensinou as primeiras letras, e ao livrinho de sua Mãe das leituras à lareira! Não o diz, mas estou convicto que o livro era uma edição da Bíblia, própria para o ensino religioso. A Mãe do poeta era catequista e zeladora da igreja de S. Martinho de Anta e o Pai organizava as procissões da Senhora da Azinheira e deitava os foguetes, à passagem dos andores e anjinhos! A Maria Ventura, em Roalde, era semelhante, lia e fazia a via-sacra e juntava a miudagem em sessões de leitura dos Santos. Tive o privilégio de assistir, tanto às rezas como à encomenda das almas. Foi a professora da oralidade até entrar para a Escola Masculina de S. Martinho de Anta.

    Fiquei contente ao saber que o edifício escolar, frequentado por Torga, vai ser transformado em monumento evocativo do escritor.

    É muito bom constatar que, em tantas e merecidas festividades, comemorativas dos cem anos do nascimento do Dr. Adolfo Correia da Rocha, se recorde o seu Professor da Primária e o livro das leituras da Mãe!

    Ilustração RUI LAIGINHA
    Ilustração RUI LAIGINHA
    Num dia de S. Martinho, solarengo e frio, fui visitar as vinhas de Soutelo do Douro. As tonalidades das folhas das videiras deslumbravam! O espectáculo não devia ser dado a conhecer apenas aos nascidos ou residentes em Trás-os-Montes e Alto-Douro, mas a todos os amantes da natureza.

    Foi preciso nova observação para ficar a saber que, apesar dos variegados tons das folhas das videiras, tendo a ver com a época, são diferentes nos plantios novos. Dirão, claro!, nos anos idos as videiras eram caldeadas no terreno, agora temos os vinhedos de monocastas! Os socalcos de touriga nacional não têm as cores da malvasia fina (!), e se for de moscatel de Favaios? Mais bonito é!

    Podemos ver um filme de banda desenhada de vários tons, e o duriense, de imagens virtuais, é o agente telúrico da beleza!

    Recordando a meninice, lembrei-me de ir ao respigo, com a convicção de que “gachos” não deviam faltar, escondidos na colorida espessa folhagem, pois já não há miúdos para despejar as cestas das vindimadoras, quanto mais apanhar os bagos ou respigar!?

    Os trabalhos das rogas só no romance, a “Vindima” de Miguel Torga, os podemos saber, descritos na quinta da Cavadinha, à estrada do Pinhão a Sabrosa, antes da ermida do Senhor Jesus de Provesende – os rapazotes apanhavam os respigos esquecidos nos valados vindimados.

    Não foi preciso procurar muito para encher as mãos de cachos de uvas super doces. Se a qualidade não era a melhor, tinham perfume e sabores celestiais. Alguns fizeram a viagem para o Porto!

    Por: Gil Monteiro

     

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