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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 30-09-2007

    SECÇÃO: Crónicas


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    Cucos e gaios

    Os cucos e os gaios são aves de arribação muito conhecidas dos transmontanos, agora, quase desaparecidos. As típicas andorinhas moram, durante a Primavera e Verão, preferencialmente, nos vales duriense. O clima áspero da montanha é próprio das rolas, enquanto os insectos das vinhas e olivais alimentam as andorinhas, andorinhões e zilros.

    Foi necessário ter havido uns anos de estiagem para serem abertos poços para rega dos campos, pois a água das nascentes não era suficiente. Os poços foram utilizados pelas andorinhas em Roalde (S. Martinho de Anta). Não seriam as casas próprias para nidificarem? Ou falta de insectos? Só as moscas e moscardos das lojas de bois eram milhentos! Ver e observar os ninhos de andorinhas, nas paredes xistosas do interior dos poços, era um divertimento de criança. Imóvel e deitado, nas tábuas da boca do poço, via entrar e sair as andorinhas na faina de alimentar os filhotes, sempre famintos. Receava, na ânsia da disputa dos bicos abertos, que caíssem à água!

    Os cucos anunciavam a chegada da Primavera. Ainda os montes da Tenaria se encontravam molhados das chuvas de Março - Abril, já o Manuel do Donio dizia:

    – Chegou a Primavera!

    – Sim!?, – repontava a Alice do Lapatão.

    – Ouvi cantar o Cuco! – Afirmava o Manuel, com ares de doutor!

    A Alice, ao tocar os bois para o pasto dos lados do Barbeito, passou a estar atenta ao cantar do Cuco, parasita dos ninhos de Chasco; quando ouviu o primeiro, rogou:

    – Cuco do Mar, Cuco da Beira, quantos anos me dás de solteira?!

    Ao ouvir só quatro cantos, pulou de contente! …

    Ilustração RUI LAIGINHA
    Ilustração RUI LAIGINHA
    Passados esses anos, estava casada, com o filho do Catalão, e a preparar a emigração para França.

    Os gaios são mesmo lindos! As penas da cauda eram adorno de chapéus de ir às feiras ou às romarias. Faziam companhia, na fita do chapéu, às pagelas da Virgem. Poucos tinham o privilégio de colocarem uma pena de pavão.

    O número de gaios era grande, e havia necessidade de afugentá-los do milho temporão, nos terrenos das encostas da Fonte da Barrosa. Para as espigas não serem danificadas, as crianças batiam em latas. Era frequente ouvir-se: “Vai guardar o milho dos pássaros”!

    O Silvino, rapazote crescido, tinha vergonha de bater em latas velhas, na leira do Cabo das Paredes, onde o pai cultivava milho do cedo; por isso, resolveu construir a primeira taramela em Roalde!

    Fiquei tão deslumbrado com o aparelho de enxotar pássaros que, com oito ou nove anos, construí uma! Tive a ajuda do Pelado de Fermentões, paquete lá de casa.

    As duas bolinhas de chumbo, que rodavam no eixo do pára-vento e batiam no fundo de uma lata de óleo, foram custosas de encontrar. O senhor Armindo, carpinteiro velhote retratado por Miguel Torga num conto, onde escreveu: “Que ninguém saiba, nem o Armindo de Roalde”!, arranjou as bolas. Esperem!?, a taramela era espetada numa vara alta e rodava conforme a orientação do vento, melhor que o galo metálico da chaminé do palacete do Zeca Moreira de S. Martinho de Anta!

    Foi preciso um assalto ao cultivo do milho transgénico, para recordar o trabalho do milho de sequeiro, o primeiro para as broas de novo ano agrícola, matando a fome de pão.

    Acabar com a caça das aves migratórias (gaios, rolas, tordos, patos) é urgente.

    Por: Gil Monteiro

     

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