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    Arquivo: Edição de 15-05-2007

    SECÇÃO: Crónicas


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    As Sagradas Leis do Mercado, um mito capitalista

    Estudos de opinião. Sondagens. Inquéritos. Comentadores de política e dos outros, gente que tem certezas e quer convencer-nos delas. É preciso entreter a população, manipulá-la consoante os ventos partidários dominantes e os apetites da classe política e respectivos satélites. Mesmo que os temas abordados pareçam inócuos e favoreçam uma certa cultura fugaz e inconsequente. É moda lidar com números, os sacrossantos ícones saídos do ventre da Matemática, autenticação para tudo quanto se queira. Cada qual pode interpretá-los como lhe der mais jeito, a seriedade dos números permite que várias pessoas os usem diversamente para se desentenderem e passarem a outros um atestado de estupidez. A Matemática é uma ciência exacta, sempre ouvi dizer, embora não corresponda inteiramente à verdade; a Estatística partilha o seu ADN.

    Estudei Estatística durante dois anos lectivos a nível superior. O nosso relacionamento decorreu em toada morna, não houve traição, mas o vínculo que estabelecemos andou longe de ser emocionante. Sempre me causou grande inquietação o facto de ela afirmar que eu papei meio frango só porque o meu vizinho do lado devorou um frango inteiro sem ao menos ter tido a gentileza de me chamar para lhe sentir o aroma. Ainda bem que se ficou pelo trivial galináceo, imaginem se lhe dava para referir o excêntrico hábito daqueloutro senhor, que habita a mansão do fim da minha rua, em consumir caviar do bom, ovas autênticas de esturjão do Volga, nas festas para as quais nunca imaginei ser convidado, e espalhar aos quatro ventos que petisquei uns míseros gramas do requintado acepipe. Não o fará para salvaguardar a minha reputação, antes porque o referido manjar não se consome ao quilo ou à peça, não dando assim nenhum jeito referi-lo como exemplo. Pior ainda é o hábito, que já se fez rotina, de me atribuírem uma obrigação de muitas centenas de euros que resultariam da parte que me toca na dívida externa nacional. Afirmo aqui, solenemente, por meu álibi, que não comi o dito meio frango, que não provei o caviar do marajá da minha rua e que me recuso a pagar uma dívida que não contraí, logo eu que sou um cidadão trabalhador e que obedece, com puritano escrúpulo, às suas obrigações fiscais. Quanto ao consumo alimentar, eu é que escolho a minha dieta e dela não dou conhecimento à Estatística.

    Ilustração RUI LAIGINHA
    Ilustração RUI LAIGINHA
    Veja o leitor se encontra ligação entre o que ficou escrito e um estudo recentemente divulgado na comunicação social acerca da estima que o euro merece às populações dos países que o adoptaram, preterindo as antigas moedas nacionais. Surpreendentemente, os portugueses estão entre aqueles que manifestaram, por maioria, dilecção relativamente ao seu velho símbolo financeiro, num grupo que inclui a Grécia e a Finlândia países com os quais gostamos de nos comparar, o primeiro porque frequenta os lugares da retaguarda onde somos encontrados, outro porque atingiu o nível económico-social que invejamos. Sempre julguei que os povos de alguns dos países mais sólidos da União Europeia manifestassem superior saudosismo em relação às suas antigas referências monetárias, tais como a Alemanha com o sólido marco ou da França com o polissémico franco, embaixadores das respectivas culturas e tradições, no entanto, a percentagem dos cidadãos alemães e franceses que se pronunciaram foi bastante menor do que a dos portugueses.

    A nossa gente, que sempre se tinham regozijado com a nova moeda única europeia, parece agora decepcionada, atribuindo-lhe culpas que são da responsabilidade do mau uso que lhe tem sido dado. É opinião quase unânime que os preços ao consumidor nacional subiram com a introdução do euro, registando-se enormes abusos por parte dos agentes económicos aliados às reacções psicológicas de quem compra. É o sacro mercado a funcionar e as suas leis são intocáveis. "Só custa um euro!", diz-se com frequência e a publicidade não se coíbe de utilizar esse argumento. Se, antes de a moeda única do nosso actual espaço comunitário se ter imposto, o comerciante pedisse cerca de duzentos escudos por um determinado artigo, talvez o cliente se insurgisse e até regateasse ou recusasse comprar, alegando que, ali ao lado, alguém lhe vendia o mesmo produto mais barato. A unidade escudo era tão desvalorizada que muito poucos respondiam negativamente à pergunta: "Posso ficar a dever-lhe um escudo?", que, a cada passo, era avançada. Não fosse a extrema dificuldade com que luta uma boa aparte da nossa população, e os cêntimos seriam negligenciados como se fossem décimos da velha moeda lusa. "Com o euro, o dinheiro rende muito menos!"

    Não há muito, dizia-me o dono de um estabelecimento comercial na Rua de Santa Catarina –, desses antigos comerciantes para quem o cliente era um amigo e, por isso, não desdenhavam estabelecer com ele animada e prolongada conversa –, que tinha sido um grave erro não fazer como os norte-americanos em relação ao dólar: nota a partir de um euro, porque a nota inspira mais respeito do que os "trocos". Para ele, os responsáveis da União Económica e Monetária só pensaram na questão financeira, descurando aspectos de outra natureza. Talvez o senhor tivesse razão! Já terá sido feito um estudo sério sobre o impacto do euro sobre a economia individual e familiar, um trabalho credível, não conotado com grupos de interesses sejam de ordem política ou outra? É possível, mas não foi, seguramente, divulgado com a amplitude desejada. Enquanto tal não acontecer, permanecerá na maioria dos espíritos a ideia de que fomos enganados e, provavelmente, estaremos a ser muito prejudicados.

    Por: Nuno Afonso

     

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