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    Arquivo: Edição de 20-12-2006

    SECÇÃO: Arte Nona


    “Salazar: Agora e na hora da sua morte”

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    Recentemente galardoado, no 17º Festival Internacional de BD da Amadora – actualmente o mais importante certame nacional de Banda Desenhada, com os prémios de “Melhor Álbum”, “Melhor Argumento” e “Melhor Desenho”, além do “Prémio do Público Jovem”, “Salazar, Agora, na hora da sua morte” é uma obra que honra e qualifica a Banda Desenhada Portuguesa. Com argumento da autoria de João Paulo Cotrim, umas das figuras-chave na transição da velha escola da BD portuguesa, atreita a valores ideológicos em geral conservadores, para uma BD adulta, consciente de si como arte não-menor, e mais responsável da relação entre a Humanidade e o Planeta, a estória de “Salazar, Agora na hora da sua morte”, uma edição feliz da Parceria A. M. Pereira (no dia em que escrevemos, já em segunda edição, cruza o percurso histórico do ditador com a sua arquitectura ideológica, algumas peripécias ocorridas no decurso do regime, tendo como ponto de partida a queda da fatídica – digamos assim – cadeira.

    Sempre rigorosamente fiel à História, enfim, aquela que se conhecia – afinal Salazar pelos vistos não caiu na cadeira, mas no sítio onde pensava que ela estaria – João Paulo Cotrim dá um esplêndido esqueleto ao desenho do ainda mais jovem Miguel Rocha, senhor de recursos gráficos superiores, usando quer a iconografia do regime e o seu espólio fotográfico, quer as vinhetas por si criadas com efeitos surpreendentes de traço, mancha, texturas e “arrastamentos”, close ups e grandes planos, picados panorâmicos, realismo e estilização, sempre num jogo dinâmico e de diálogo absolutamente imparável, da primeira à última prancha.

    A coloração em tons de cinza temperados com o amarelo pálido, ajuda a dar dimensão cromática à obra.

    Um outro aspecto que merece destaque é a própria produção do livro, que tendo a capa, paginação e tratamento de imagem a cargo do próprio Miguel Rocha, contribui para dar ao formato final da obra uma grande coerência estilística e visual, fazendo assim do livro o tal objecto desejável que nem sempre é possível recriar a partir da edição das pranchas dos autores.

    O casamento perfeito de texto e imagem pode ser muito bem compreendido debruçando-nos sobre alguns exemplos: a começar, logo nas primeiras páginas (o livro não é numerado) – numa espécie de prefácio gráfico, uma sala repleta de cadeiras que foram do ditador – as que se supõem ser dos Conselhos de Ministros, do líder partidário, do descanso na casa de Santa Comba, a cadeira de praia (é assim que Miguel Rocha e João Paulo Cotrim a imaginam) em que Salzar se terá estatelado, como que parecem reter ainda a memória das palavras do seu dono:

    «NÃO...», «Não devo continuar sentado nem mais um minuto», «Estranha maneira esta de começar o dia sem rezar... A boca sabe-me a clorofórmio», «Resiste António, que a graça de Deus nunca te faltou», «A quem pertence esta voz?», «Mas é verdade, há tanto que fazer, por arrumar, para governar... Eles não sabem, eles não devem.», «O caminho percorrido...», «As flores que murcham, não as mandam substituir?».

    E o pensamento de Salazar está bem presente em inúmeras citações suas que vão ornando o livro, como esta: «Sem copiar ninguém, procurei sempre aproveitar os ensinamentos de todos. Este regime a que chamam Ditadura é brando como os nossos costumes, modesto como a própria vida da Nação, amigo do trabalho e do povo».

    Ou a cândida forma como se justifficava o Tarrafal: «Acredito na recuperação dos criminosos e por isso usufruem das vantagens da nossa presença ultramarina, por exemplo, nas ilhas de Cabo Verde, contribuindo assim para o sossego dos espíritos».

    Por: LC

     

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