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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 30-11-2006

    SECÇÃO: Opinião


    Reflexões para o dia 2 de Dezembro – Dia Internacional para a abolição da escravatura

    A escravatura, flagelo do capitalismo globalizado do século XXI

    A primeira imagem que nos vem à cabeça quando se fala de escravatura é a dos escravos africanos negros traficados numa época em que a escravatura era legal, e nunca nos há-de passar pela ideia que hoje possam ainda existir escravos... bom, até podemos admitir a existência de pessoas reduzidas à escravidão nos países longínquos que não conhecemos e que os meios de comunicação nos apresentam sistematicamente como uma terra esquecida pelos deuses, onde, por isso, todas as calamidades podem ter lugar...

    E no entanto, existem hoje em todo o mundo mais escravos que aqueles que foram traficados durante o período do comércio de escravos transatlântico. Na época, foram traficadas entre 11 e 15 milhões de pessoas, hoje são 27 milhões, repartidas por todos os países.

    27 milhões... podia ser eu, podia ser você, podia ser um dos seus... 27 milhões de pessoas... quase o triplo da população portuguesa... São crianças atadas a teares que tecem os bonitos tapetes que aquecem o chão das nossas casas, são trabalhadores agrícolas, presos em propriedades enormes, ameaçados, maltratados, violentados, que colhem os frutos baratos que chegam aos nossos supermercados, são brasileiros isolados no coração da floresta, que cortam árvores e delas fazem o carvão com que serão cozidos os tijolos que hão-de fazer as paredes das fábricas onde são costuradas as nossas roupas, são mulheres russas, ucranianas, brasileiras, que procuram fugir à miséria dos seus países e que são enganadas pelos passadores que tantas vezes as violam e as forçam à prostituição... são pessoas compradas e vendidas por traficantes impiedosos, para quem a vida humana não tem valor... são pessoas que têm medo de fugir aos seus carrascos porque a polícia, tantas vezes corrompida, colabora com este tráfico humano, passivamente fechando os olhos, activamente reenviando os fugitivos aos seus donos.

    São pessoas como eu e você, que sonham com uma vida melhor, menos injusta... São homens que sonham com o regresso a casa, são mulheres que sonham rever os seus filhos deixados no país de origem, são crianças que sonham ir à escola, que sonham ter um gato ou um brinquedo...

    LEGALMENTE ABOLIDA

    EM TODO O MUNDO

    Se a escravatura é ainda um flagelo real, ela foi no entanto legalmente abolida em todo o mundo (a escravatura foi ilegalizada em Washington D.C. nove meses antes de a medida ser aplicada no resto dos Estados Unidos. A 16 de Abril de 1862, o Presidente Abraham Lincoln assinou o District of Columbia Emancipation Act, que libertou 3 100 escravos), e proibida em todas as suas formas pela Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948). A escravatura moderna, ao contrário do que aconteceu aquando do comércio transatlântico de escravos, é um flagelo que afecta indivíduos oriundos de todos os países, de todas as etnias, de todas as idades, de todos os sexos...

    Mas o que é afinal a escravatura? É o trabalho forçado imposto a alguém através da força física e dos maus-tratos psicológicos e que não é pago. No regime de escravatura, a pessoa que a ele é submetida perde todo o seu valor humano e é comprada e vendida como mercadoria, abusada e controlada pelo proprietário que dela se serve para enriquecer.

    A diferença crucial entre a escravatura moderna e a escravatura tradicional, se assim se pode chamar, é o valor do escravo – se no sistema de escravatura tradicional os escravos eram uma «mercadoria» relativamente preciosa, no actual sistema os escravos não têm nenhum valor, por uma razão muito simples: nunca houve, em nenhum momento histórico, tanta gente tão vulnerável, tanta gente que procura fugir à miséria, tanta gente tão pobre, tão desesperada, que é possível enganar e reduzir à escravidão. O número de escravos potenciais é tão grande, que o valor que a vida destas pessoas possa ter está reduzido a nada. Assim é possível ameaçar e matar ou deixar morrer sem grandes preocupações – ao fim e ao cabo, há muita gente vulnerável, que é possível reduzir à escravidão.

    Nos Estados Unidos, por exemplo, calcula-se a existência de 1 milhão de pessoas reduzidas à escravidão – há mulheres asiáticas forçadas à prostituição, há homens e mulheres latino-americanos que trabalham os campos gratuitamente, há mulheres africanas completamente desligadas do mundo exterior (na maioria dos casos estas mulheres não falam o inglês), que servem nas casas ricas, a troco de pancada e tantas vezes de sevícias.

    Quando há um grande evento desportivo, como o Euro 2004 ou o recente Mundial de futebol, as máfias internacionais encarregam-se de aumentar o número de mulheres que se prostituem nas cidades onde os tais eventos decorrem, porque parece que muitos dos adeptos de tais eventos gostam de recorrer aos serviços destas mulheres assim reduzidas à escravidão... Quando há uma guerra, como a guerra dos Balcãs, ou a ocupação de um território, as redes de prostituição encarregam-se de fornecer mulheres aos soldados estacionados nos tais territórios... e ninguém se pergunta de onde vêm estas mulheres, porque estão elas numa tal situação, será que precisam de ajuda? Não, ninguém se pergunta... porque elas são as prostitutas, com quem a sociedade não se mistura... e todavia elas não escolheram a vida que levam, muitas destas mulheres têm filhos que deixaram nos países de origem, famílias que não sabem o que delas é feito, se um dia regressarão a casa, famílias que as máfias utilizam para fazer chantagem sobre as mulheres que elas controlam, inibindo-as assim de fugir ou de fazer uma denúncia à polícia... A escravatura é um fenómeno dos dias de hoje, uma realidade cruel e desumana, que não se enquadra neste século XXI. Já não estamos na Idade Média, nem no tempo da escravatura legal! Exijamos o fim deste flagelo!

    JUNTOS PODEMOS

    MUITA COISA

    Se sozinhos não podemos nada, juntos podemos muita coisa: Informemo-nos, falemos desta triste realidade às pessoas que conhecemos – quando este flagelo for conhecido e suscitar a aversão e a reprovação de todos nós, teremos força suficiente para fazer pressão sobre os governos para que sejam levadas a cabo verdadeiras medidas de combate ao tráfico humano florescente – boicotemos os produtos (como os tapetes) que se suspeita serem fabricados por crianças, acabemos com esta permissão social que dá aos homens a legitimidade necessária para frequentarem prostitutas, porque aqueles que frequentam as prostitutas não só colaboram na degradação física e moral de uma mulher, como são cúmplices deste tráfico humano – se não existissem clientes da prostituição, não existiria este tráfico hediondo de mulheres e crianças! Lembremo-nos que ninguém escolhe uma tal vida!

    Não passemos indiferentes, porque como dizia António Gramsci *, «o que acontece não acontece tanto porque alguns querem que aconteça, mas porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar as leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. (...) Parece que a história não é mais que do que um gigantesco fenómeno natural, uma erupção, um terramoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou activo e quem foi indiferente. Então estes [os indiferentes] zangam-se, queriam eximir-se às consequências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu?»

    O capitalismo sempre foi a barbárie. E se faltassem outros exemplos dessa barbárie, aí estaria o da escravatura moderna, um dos mais velhos flagelos da sociedade humana, actualmente em alarmante expansão por todo o mundo, mesmo em países que se têm por muito civilizados.

    MAIS INFORMAÇÕES

    Para mais informações, consulte o site da organização internacional Anti-Slavery; o site da edição portuguesa da revista National Geographic, ou leia o livro de Kevin Bales Gente Descartável, publicado pela Editorial Caminho.

    * Fundador do Partido Comunista Italiano.

    Por: Comissão de Freguesia de Ermesinde do Partido Comunista Português

     

     

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