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Edição de 30-04-2020
Jornal Online

SECÇÃO: Saúde


ENTREVISTA

Telma Lopes (médica e colaboradora do nosso jornal na área da Saúde) fala do que mudou na sua vida desde a chegada da Covid-19

Todos nós travamos por estes dias uma árdua batalha contra um inimigo invisível que está a causar profundas alterações ao nosso quotidiano. Dúvidas parecem não existir quanto ao facto do Mundo enfrentar a mais dolorosa batalha do século XXI. A Covid-19 passou a ser o inimigo (comum) a derrubar por toda a Humanidade. E na linha da frente no combate ao novo coronavírus estão os médicos e enfermeiros cujas vidas, não só profissionais, mas também pessoais, sofreram um volte face gigantesco desde que a pandemia eclodiu.

Nesta entrevista vamos precisamente lançar um olhar para a vida (profissional e pessoal) de um médico - neste caso, uma médica - na era da pandemia da Covid-19. E nesse sentido estivemos à conversa com Telma Lopes, médica e nossa colaboradora na área da Saúde, que nas próximas linhas nos fala destas mudanças profundas que a sua vida tem conhecido de há umas semanas a esta parte, neste esforço para salvar a vida dos outros. Mas nesta conversa também houve tempo para esclarecer dúvidas e dar conselhos.

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A Voz de Ermesinde (AVE): Desde que o novo coronavírus entrou na vida das pessoas, o nosso dia a dia mudou por completo. No entanto, acreditamos que a vida, a rotina, dos profissionais ainda tenha mudado mais desde que a pandemia chegou. Quer a vida profissional, quer a vida pessoal. Enquanto médica, perguntamos-lhe como tem vivido profissionalmente e pessoalmente estes tempos mais recentes?

Telma Lopes (TL): Profissionalmente, a minha atividade mudou muito, no sentido em que tudo é feito com o intuito de combater esta pandemia. Desde que chego ao trabalho até que venho embora, as rotinas alteraram-se por completo. Agora é preciso chegar e trocar de roupa, colocar equipamentos de proteção, manter distância dos colegas, organizar a minha agenda consoante os turnos de atendimento a doentes respiratórios e, no final do dia, voltar a ter os mesmos cuidados antes de voltar à rua. No entanto, como profissional dos cuidados de saúde primários, continuo a assegurar muitos dos cuidados habituais aos meus doentes como renovação do receituário, emissão de baixas, consultas pelo telefone e consultas presenciais no caso das grávidas e das crianças em idades-chave para o cumprimento do Plano Nacional de Vacinação.

A nível pessoal, a principal diferença, além de me manter em casa todo o tempo em que não estou a trabalhar, prende-se com os cuidados ao chegar a casa para não contagiar quem vive comigo. E, claro, o facto de estar longe do resto da família, que só vejo, de vez em quando, à janela ou para entregar compras que vou fazendo.

AVE: Há quem tenha definido a Covid-19 como um inimigo, sendo que nós, cidadãos, o Mundo todo, estamos envolvidos nesta guerra. Porém, os médicos, os enfermeiros e demais profissionais da saúde estão na linha da frente desta guerra. Sente isso dessa forma e como é estar na frente de batalha?

TL: Sim e não. A verdade é que, embora esteja na linha da frente na medida em que vejo doentes com sintomas respiratórios pela primeira vez e os oriento, não trabalho em serviços unicamente direcionados para doentes COVID positivos e, por isso, acabo por não ter uma exposição tão grande e tão contínua. Além disso, há muito mais do que profissionais de saúde na linha da frente no combate a este vírus, há pessoas muitas vezes invisíveis e que são essenciais. Por isso, sinto que há inúmeras pessoas em condições iguais e/ou piores que a minha nesta batalha, e que toda a população também está envolvida porque podem ajudar muito se cumprirem as recomendações dadas pelas autoridades.

AVE: Há muita tensão devido a tudo o que estamos a viver?

TL: Sim, há. Tanto a nível profissional onde as inseguranças e incertezas ainda são muitas, como na população em geral que está com medo de uma situação desconhecida e teme as repercussões que esta pandemia vai ter na vida socioeconómica do país e do mundo. É importante reconhecer que é normal estar receoso e preocupado. A saúde mental não pode ser esquecida no meio de toda esta problemática!

AVE: Como qualquer ser humano, também os profissionais de saúde enfrentam medos, receios, por esta altura. Qual é o seu maior medo neste momento?

TL: Sem dúvida que o meu maior receio é ficar doente e, com isso, contagiar quem me rodeia. É nisso que penso todos os dias que vou trabalhar e, por isso, tento ter o máximo de cuidado em todas as minhas ações. Como cidadã tenho as mesmas preocupações que o resto das pessoas, mas como ser individual é este o meu maior receio.

AVE: Sabemos que trabalha numa Unidade de Saúde Familiar em Matosinhos, como é que tem sido vivida lá a situação, tem-se debatido com o surgimento de muitos casos positivos, como é que têm trabalhado esta questão?

TL: A situação tem sido vivida com o equilíbrio que a incerteza inerente permite. Todos os dias se tenta organizar os serviços de forma a prestar os melhores cuidados aos doentes, não descurando a segurança dos profissionais. Têm surgido muitos casos suspeitos e, consequentemente, muitos casos positivos. Tem havido um esforço global por abranger todas as necessidades dos doentes afetados pelo vírus e não só.

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AVE: Como tem sido a reação dos seus doentes nestes tempos mais recentes em que o vírus está mais ativo digamos assim? Fazem mais perguntas, estão mais assustados, em suma, como tem sido a reação dos pacientes face a este tema?

TL: Há os dois extremos. Pessoas muito preocupadas e assustadas, que nos procuram no sentido de esclarecer dúvidas; e pessoas ainda pouco crentes na gravidade da situação, que não compreendem o porquê dos cuidados de saúde terem mudado tanto nas últimas semanas. Muitas pessoas acham que não terem as suas consultas de rotina é pior do que sair à rua. Não é fácil todos perceberem o que se passa na realidade.

AVE: Eles exprimem alguma preocupação em concreto quando a abordam?

TL: A principal preocupação é saber se têm o vírus, querem fazer o teste. Ficam muito preocupados com os conviventes, com a família. Faz-lhes alguma confusão estar em quarentena, ou em isolamento, quando não têm sintomas. Preferiam fazer o teste e, dando negativo, estarem “à vontade”.

AVE: No meio disto há muita informação mas também desinformação. Assim, que cuidados essenciais devemos ter para prevenir o vírus?

TL: Os cuidados mais básicos são, também, os mais eficazes. Em primeiro lugar ficar em casa! Evitar, ao máximo, saídas desnecessárias. E aqui é importante esclarecer que saídas indispensáveis são as que acontecem para ir ao supermercado, trabalhar ou prestar cuidados a terceiros que necessitem. Nada mais! E mesmo estas atividades devem ser diminuídas ao mínimo, ou seja, não é recomendado ir às compras todos os dias. O melhor será fazer uma lista antes de sair de casa e fazer compras para uma ou duas semanas, pelo menos. Se houver a possibilidade destas serem feitas por membros da família mais jovens, ainda melhor. Nas saídas, deve ir só uma pessoa e nunca um grupo de pessoas.

Depois, lavar as mãos várias vezes ao dia! Mesmo dentro de casa! Mas claro que deve haver um cuidado reforçado quando se volta da rua, ou se contacta com algum material que veio da rua. Não há necessidade de sair de luvas ou desinfetar embalagens. A regra deve ser lavar as mãos, lavar as mãos, lavar as mãos! Na impossibilidade de lavar as mãos num determinado momento, evitar totalmente o contacto das mãos com a cara, a boca ou os olhos. Esta é das regras mais difíceis de cumprir para a maioria das pessoas, mas é fundamental!

Por último manter a distância social recomendada (mínimo 1 metro) e cumprir as regras de etiqueta respiratória (como tossir/espirrar para o braço ou para um lenço).

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AVE: Diz-se que a população idosa constitui o grupo de maior risco. Verdade, ou todos nós fazemos parte de um só grupo de risco?

TL: Quando se fala na população idosa como um grupo de risco, fala-se na probabilidade de vir a desenvolver uma doença grave e na capacidade de recuperar da mesma. Todos podemos ser infetados pelo vírus, mas a forma como o nosso corpo responde ao mesmo varia com diversos fatores, sendo a idade um dos mais importantes (ter doenças crónicas também pode ser fator de risco). Adicionalmente, pela observação da progressão da doença noutros países, sabe-se que a taxa de mortalidade dos doentes infetados aumenta com a idade, pelo que os idosos devem ter um cuidado acrescido.

AVE: Febre, tosse, falta de ar são sintomas que indicam que podemos estar infetados com Covid-19, verdade ou não? E se alguém tiver uma ligeira irritação na garganta, algumas dores no corpo, mas sem febre, ou sem falta de ar, deve despreocupar-se? Ou seja, pode pensar que é uma gripe ou constipação passageira e não ligar. Com este cenário deve ou não haver preocupação?

TL: Na fase da pandemia em que nos encontramos, há muitos sintomas que podem estar associados a uma infeção por COVID-19. No entanto, é necessário estabelecer alguns critérios para poder triar e orientar os doentes. Os sintomas mais frequentes são exatamente esses, febre, tosse e falta de ar. Isto não quer dizer que não haja doentes com outros sintomas que não sejam COVID positivos. O mais importante é perceber se há ou não necessidade de cuidados de saúde. Se tem uma ligeira irritação na garganta, sem mais nada, o melhor será permanecer em casa, resguardado, mantendo os cuidados referidos anteriormente, sempre com atenção à possibilidade de surgimento de mais sintomas.

AVE: E no seguimento desta sua resposta perguntamos-lhe que diferenças há entre uma gripe “normal” e o coronavírus?

TL: A principal diferença é o agente em si! Não é possível estabelecer comparações estritas porque as duas entidades têm espectros de apresentação diferentes consoante o doente em questão. Há muitos sintomas que podem estar presentes em ambas, e pode haver doentes em que a distinção entre as duas só é possível através de exames. Na infeção por COVID-19, o que mais preocupa é a sua progressão para uma pneumonia que afeta os dois pulmões e pode exigir cuidados hospitalares complexos, nomeadamente, ventilação assistida. Nesse sentido, e reforçando o que foi dito anteriormente, o importante é estar atento aos sintomas que não se conseguem controlar em casa e procurar ajuda atempadamente.

AVE: Muito se fala, por exemplo, no uso de máscaras, luvas, mesmo para quem não está infetado e tem de sair de casa por motivos de força maior, como para o trabalho, por exemplo. Devemos ou não usar este tipo de proteções, por assim dizer, e se estas diminuem o risco de contágio?

TL: Quanto às luvas não há motivo para a sua utilização, até porque podem dar uma sensação de “falsa segurança”. Se estivermos de luvas e tocarmos nas chaves, no telemóvel, nas compras e a seguir na cara, a proteção é a mesma do que se não as tivéssemos. Se cumprirmos as regras referidas anteriormente e lavarmos as mãos frequentemente, não se justifica o uso rotineiro de luvas. Em relação às máscaras, as opiniões têm sido divergentes. Mas, na generalidade, é importante compreender que as máscaras cirúrgicas (as que se veem mais comummente) não protegem a pessoa que as está a utilizar, mas sim os outros do que aquela pessoa pode transmitir. Ou seja, pode fazer sentido na prevenção do contágio se a maioria da população conseguir utilizar as mesmas quando está num local com outras pessoas. Mas depois existe a problemática da disponibilidade das máscaras para toda a população quando, em certos locais, faltam para contextos mais arriscados como os cuidados de saúde. Tem de ser algo gerido com racionalidade e equilíbrio. No caso de se utilizar uma máscara, é crucial que esta seja colocada corretamente. Geralmente há uma das partes com um arame moldável para ajustar a máscara ao nariz, o que ajuda a orientar a sua colocação. Outra dica é que as dobras da máscara têm de ficar sempre para baixo, para não criar pequenos espaços onde se podem depositar partículas.

AVE: Mesmo a psicologia não sendo a sua área de intervenção não acha enquanto profissional da saúde que este vírus poderá trazer no futuro, ou até mesmo estar já a provocar no presente, efeitos psicológicos nas pessoas. Ou seja, o isolamento social imposto pelas autoridades, o confinamento domiciliário, a incerteza quanto ao futuro profissional que advém da crise económica provocada pela pandemia, tudo isto não poderá estar a causar ansiedade, stress, angústia ou até depressão nas pessoas? Enquanto médica o que tem a dizer sobre isto e que conselhos gostaria de transmitir, mesmo esta não sendo a sua área de intervenção.

TL: A psicologia não é a minha área de especialização, mas é, também, a minha área de intervenção. Como médica de família, avalio o doente “como um todo”, estando a componente psicológica e emocional muito presente. Nesta fase em que nos encontramos, são vários os elementos que podem propiciar um agravamento ou o surgimento de queixas do foro psicológico. Como refere, o isolamento social e a incerteza do futuro são provas duras ao equilíbrio de cada um. É inegável que esta pandemia está e irá ter consequências na saúde mental da população, aos mais diversos níveis. Para minorar este efeito é importante arranjar estratégias para diminuir os níveis de ansiedade e stress, quer através de atividades que ocupem o tempo em casa, quer através da aproximação da família e amigos (videochamadas, conversas à janela/varanda). É crucial que se normalize a preocupação, a ansiedade e a tristeza, face à situação atual, e que as pessoas sintam que podem expressar esses medos e receios aos que as rodeiam, incluindo o seu médico assistente. Existem, também, várias linhas de apoio dispersas pelo país, que podem ajudar neste sentido.

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AVE: No momento em que esta entrevista irá ser publicada, já se passaram quase dois meses desde que o coronavírus entrou na vida dos portugueses. Podemos dizer que a pior fase já passou (em termos de propagação de vírus), que já se vislumbra uma luz ao fundo do túnel, ou ainda é demasiado cedo para se pensar assim?

TL: Podemos dizer que já percorremos um longo caminho e que, graças à cooperação de todos, estamos a ter um percurso bastante menos austero que os países vizinhos. No entanto, ainda é muito precoce para tirar conclusões. Cada fase é importante e deve ser vista de forma consciente e responsável. Para já, devemos manter-nos otimistas mas realistas.

AVE: Olhando para os dados que diariamente são emitidos pela DGS no que concerne à evolução da pandemia no nosso país, há razões para estarmos otimistas de que “tudo vai ficar bem”, ou nada vai ser como dantes e todos nós vamos continuar a ter cuidados redobrados daqui em diante nas nossas vidas, até que uma vacina nos proteja realmente deste novo vírus?

TL: Estamos a lidar com um vírus ainda pouco conhecido, pelo que fazer conjeturas para o futuro é sempre incerto e arriscado. Uma coisa é certa, a vida não vai voltar ao “normal” como conhecíamos de um dia para o outro. É um processo e sim, provavelmente, nada será exatamente como era antes até se encontrarem soluções mais eficazes. No entanto, tal como disse, tudo é um processo e há inúmeros cientistas a trabalhar para perceber qual é a melhor orientação no futuro. Não irá ficar “tudo bem”, até porque a pandemia já mudou a vida de várias pessoas de forma definitiva, mas vamos acreditar que ficará tudo melhor.

AVE: O verão e o calor podem trazer um abrandamento do número de casos?

TL: Esta é uma questão que tem sido debatida mas para a qual ainda não há respostas definitivas. Se por um lado se acredita que o vírus não se propaga com a mesma rapidez em ambientes com temperaturas mais altas, a verdade é que se tem assistido à grande afeção de vários países em que o clima é constantemente mais quente do que na Europa. Ainda assim, acredita-se que no verão, em Portugal, a situação fique mais controlada.

AVE: Comparando ainda os números do nosso país com os de outras nações verificamos que, em Portugal, a evolução da pandemia não tem tido, de certa forma, contornos tão drásticos como em países como Itália ou Espanha, por exemplo. Há uma explicação técnica para isso ou simplesmente deve-se ao comportamento cauteloso de todos nós face à pandemia?

TL: A progressão da pandemia em Portugal tem sido uma conjugação de diferentes fatores que, felizmente, nos tem permitido obter um cenário menos preocupante em relação a outros países. Pondo de parte elementos que não podemos controlar e dos quais não sabemos a real influência, a precocidade das medidas adotadas pelos portugueses, ainda antes das mesmas serem implementadas pelo governo português, parece ter sido um dos fatores mais relevantes na contenção da propagação do vírus. A organização dos serviços de saúde, desde os cuidados primários aos cuidados hospitalares, foi também um aspeto muito positivo no combate a esta pandemia.

AVE: Por último, que mensagens gostaria de passar aos nossos leitores enquanto profissional de saúde?

TL: Não querendo ser repetitiva, mas sendo impossível não o ser, fiquem em casa! Sigam escrupulosamente as indicações da Direção Geral de Saúde, das autoridades e do vosso médico. Não pensem que só acontece aos outros e que tudo isto são medidas exageradas. Mais do que nunca, temos de pensar não só de forma individual mas, também, como comunidade. Só assim conseguiremos ultrapassar esta situação da melhor forma possível!

Nota: Esta entrevista foi feita há já algum tempo, antes das autoridades de saúde terem, por exemplo, aconselhado o uso de máscara em locais públicos.

Por: Miguel Barros

 

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