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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 31-03-2020

    SECÇÃO: Opinião


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    MANUEL TEIXEIRA GOMES (parte 1) - Diplomata influente da entrada de Portugal na Grande Guerra (1914/1918)

    A preocupação pessoal, idade e cuidador informal principal, devido à pandemia motivada pela Covid 19, foram consideradas na concretização do convite feito, em janeiro, pelo Professor Manuel Augusto Dias, Diretor do jornal “A Voz de Ermesinde”, que consistiu na “colaboração regular podendo ser adaptação de textos que já tivesse apresentado”, pedindo-se que se iniciasse em março. Nesta conformidade optou-se por propor um artigo ao redor de Manuel Teixeira Gomes (MTG), artista (escritor com vasta obra publicada), pessoa de ação refletida e diplomata de mérito, que foi Presidente da República Portuguesa de 05 de outubro de 1923 a 11 de dezembro de 1925.

    O artigo baseia-se no estudo que se tem feito sobre este Presidente, iniciado no ano letivo 2008/09 na sequência de se ter aceitado a escolha da Administração e Direção Pedagógica do Grupo Lusófona da área da Comunicação para se assumir a coordenação do curso de licenciatura Engenharia Informática no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT), em Portimão. Para além da leitura da sua obra, observaram-se documentos e livros de âmbito biográfico, destes salienta-se: Lopes, Norberto (1942), O Exilado de Bougie – Perfil de Teixeira Gomes – Com um estudo de João de Barros; Quaresma, José Alberto (2016), Biografia, Manuel Teixeira Gomes – Boémio, negociante, melómano, viajante, escritor, diplomata, Presidente da República e Rodrigues, Urbano (1946), A Vida Romanesca de Teixeira Gomes – Notas para o estudo da sua personalidade. Na sequência deste envolvimento resultaram, conferência no ISMAT, 23abr2013; artigo no número de abril2014 da Revista Militar e uma comunicação no Congresso Internacional Portugal na (e no tempo da) Grande Guerra, realizado em 19/20abr2018 na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

    MTG nasceu em Portimão em 27mai1860 num ambiente familiar de posses materiais, culturais e políticas. Na infância frequentou o colégio de São Luís Gonzaga, revelando traquinices que obrigaram os pais a providenciar que fosse completar o ensino secundário no Seminário Diocesano de Coimbra. Ainda por influência familiar ingressou no curso de Medicina da Universidade de Coimbra, onde permaneceu três semestres não conseguindo aprovação em nenhuma unidade curricular.

    Pelos interesses em tudo, menos em estudar, sendo doidivanas, o pai corta-lhe a mesada o que obrigou a deixar Coimbra indo para Lisboa. A boémia de Coimbra e de Lisboa ainda não satisfez MTG pelo que, aos 21 anos, foi para o Porto interligando amizades de Coimbra e das tertúlias “portuense” e “lisboeta”, nomeadamente, João de Deus, Basílio Teles, Sampaio Bruno, Soares dos Reis, Marques de Oliveira, Ciríaco Cardoso, Hamilton Araújo, Joaquim Coimbra, Fialho de Almeida. No Porto, onde esteve de 1881 a 1884, frequenta a Cordoaria onde se relaciona com o músico Domingos Cardoso e o Café Camanho (Praça de Dom Pedro) onde convive com os amigos já mencionados e ainda com Eduardo do Solomonde, Francisco Carrelhas, Queirós Veloso, Luís Botelho (farmacêutico), Ernest Hemery e outros. Esta parte do artigo foi preparada com a leitura da obra, Biografia – Manuel Teixeira Gomes, de José Alberto Quaresma (Imprensa Nacional Casa da Moeda/Museu da Presidência da República – 2016), donde se transcreve, das pp. 59/60, “Manuel, ainda com a consciência roída, confessa a João de Deus, no início de 1882, que se matriculou na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, por onde passara lesto Basílio Teles. Vai a caminho dos 22 anos. Faz a derradeira tentativa para estudar. Repete o empenho de Coimbra. Confessa que lá não põe os pés senão duas ou três vezes. Assegura que tem o ano quase perdido. (…) Já metido em responsabilidades profissionais, cruzar-se-á com muita outra gente no estrangeiro. Regressa muitas vezes a Lisboa e raramente a Coimbra e ao Porto, cidades que o obrigaram a crescer”.

    In “Ilustração Portuguesa”, n.º 769, de 15 de novembro de 1920: “NO RITZ-HOTEL: da esquerda para a direita – Lord Blyth, Sir Maurice de Bunsen; sr. Teixeira Gomes; Lord Cnrzon de Kedleston; o sr. Melo Barreto, e Sir Albert Mond,
    In “Ilustração Portuguesa”, n.º 769, de 15 de novembro de 1920: “NO RITZ-HOTEL: da esquerda para a direita – Lord Blyth, Sir Maurice de Bunsen; sr. Teixeira Gomes; Lord Cnrzon de Kedleston; o sr. Melo Barreto, e Sir Albert Mond,
    Quando MTG cansado da vida passada em Coimbra, Lisboa e Porto, voltou a Portimão para conseguir independência económica, fez-se negociante tendo ganho muito dinheiro. Ao viajar publicitou e vendeu frutos secos da empresa “Sindicato de Exportadores de Figos do Algarve” em França, Bélgica, Holanda, Itália, norte de África e Ásia Menor. Ao mesmo tempo que vendia, a sua postura humana baseada em fino trato, inteligência e cultura, recolhia impressões e gostos que lhe permitiam atuar junto do pessoal do “Sindicato de Exportadores” para melhorar a preparação do produto. A inovação consistiu na interligação persistente e coerente entre gostos e desejos de consumidores e qualidade constante e progressiva na preparação do produto a vender. Esta forma de proporcionar qualidade de vida em sociedades, já de certo modo globalizadas, foi inovadora, podendo considerar-se boas ações de marketing.

    Na sequência da implantação da República em 5out1910, MTG é escolhido pelo Governo para ministro plenipotenciário em Londres (embaixador), iniciando funções em 10abr1911, logo se apercebendo da intenção de alemães e ingleses assinarem, no início de 1914, um tratado onde a Inglaterra assumia o dever de cuidar da integridade dos territórios portugueses. A sua perceção respeitante às cobiças coloniais de alemães e ingleses acompanhava os sentimentos de grande parte dos dirigentes e da consciência popular portuguesa, uma vez que tudo indicava poderem resultar do conflito nítidas alterações do mapa político mundial. Nesse caso os territórios ultramarinos portugueses serviriam para ajustamentos de espaço no caso de haver negociações ou, como colónias ingovernáveis, simplesmente transferidas para os vencedores. O nosso Embaixador em Londres sabia bem que se impunha afirmar o direito de Portugal, confirmar valores e lealdades dos seus maiores, sendo claramente orientado pelo passado das descobertas e conquistas, atuando como verdadeiro patriota. Angola e Moçambique tinham fronteira com possessões alemãs havendo confrontos no sul de Angola em 1914 e 1915 e lutas ferozes e demoradas, 1916 até 1918, em Moçambique. MTG apercebeu-se que estava em causa a conquista daquelas colónias por parte das organizadas e bem comandadas forças militares alemãs, por outro lado, aos ingleses apetecia colaborar na defesa das colónias portuguesas demonstrando que Portugal não tinha meios para vencer um inimigo organizado e motivado. Pessoa de ação refletida bateu-se por demonstrar ao Governo que se impunha entrar na Guerra ao lado dos aliados para manter os domínios coloniais. Em ago1914 os ingleses dão a entender que entram na guerra se a Alemanha mantiver na Bélgica as tropas invasoras. Nesta altura Portugal continua com aparente neutralidade mesmo depois do ataque alemão ao posto de Maziuá fronteiriço de Moçambique na parte que ligava a Tanganika. Esta postura prova-se com a escrita, em 03set, do ministro dos Negócios Estrangeiros, general Freire de Andrade, ao representante diplomático português em Berlim: “’(…) Portugal não declara a neutralidade porque, sendo aliado da Grã-Bretanha, está na disposição de cumprir os deveres que daí deriva, desde que fôr solicitado’”. (pp. 111/112 de O Exilado de Bougie). A esse tempo MTG cumpria as diligências de Lisboa, não só do ministro dos Negócios Estrangeiros como do ministro da Guerra, general Pereira de Eça.

    Paço de Arcos, 16 de março de 2020

    António Pena*

    *Coronel do Exército (TecnManTm), em situação de reforma (84 anos); doutorado em Ciências da Comunicação [FCSH/UNL (jan2006)]; membro emérito do Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias (CICANT)/Universidade Lusófona (filiação institucional). Agradecemos esta sua colaboração em exclusivo para o jornal “A Voz de Ermesinde”.

     

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