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    Arquivo: Edição de 29-02-2020

    SECÇÃO: Editorial


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    O “Enterro do João”

    Na tradição cómica e folgazona de quem se despede de um período para iniciar outro, vem-se comemorando, nos últimos anos, em Ermesinde, mas também noutras terras próximas como em Rio Tinto, o “Enterro do João”, personificação do Entrudo, que morre em domingo gordo e vai a enterrar na 3.ª feira seguinte, dia de Carnaval, porque o dia seguinte já é Quaresma e a Igreja Cristã ensina que durante esses quarenta dias que faltam para a celebração da Páscoa, tem de haver contenção, jejum e abstinência como forma de purificação para receber Jesus Ressuscitado que se celebra em cada Páscoa.

    Esta tradição remonta aos tempos do paganismo como forma de celebração ligada ao fim do inverno e à renovação do ciclo vegetativo da natureza, que cada primavera anuncia.

    Com o aparecimento do Cristianismo, que o imperador Constantino, certamente influenciado por sua mãe (Santa Helena de Constantinopla), aceitou em 313, com o seu Édito de Milão, que proibiu as tradicionais perseguições aos cristãos, e que o imperador Teodósio, quase 70 anos depois (380), tornou a religião oficial do Império Romano, estes cultos pagãos seriam proibidos. Contudo, alguns desses rituais sobreviveriam até hoje com outros nomes e mesmo alguns entrariam no calendário cristão.

    Em Ermesinde, como em Rio Tinto e noutras localidades da região, esta antiga tradição volta a realizar-se não de forma espontânea, como acontecia outrora, mas por intermédio do poder local (neste caso concreto, as respetivas Juntas de Freguesia) e do envolvimento de coletividades e associações, que assim persistem em fazer sobreviver estes antigos costumes culturais dos povos que aqui viveram. A intervenção do poder local na preservação destas antigas manifestações de cultura popular parece-nos totalmente acertada.

    O ritual do “Enterro do João” passava normalmente por um cortejo fúnebre, a que um “sacerdote” dava pretensa solenidade. Um julgamento final, com o Testamento do defunto em quadras jocosas de gosto semelhante às das medievais cantigas de escárnio e maldizer. Não é raro no seu Testamento o “João” fazer críticas a melhoramentos prometidos que nunca mais chegam ou fazer referência às raparigas de um ou outro lugar, a quem faz questão de deixar alguns dos seus excêntricos haveres. No fim, tudo terminava e termina com a Queima pública do João, cujas cinzas são lançadas ao Leça.

    Noutras regiões do país, “festas” de cunho semelhante têm, no entanto, nomes diferentes: “Enterro do Entrudo”, “Serramento da Velha”, “Enterro do Bacalhau” ou, entre outros, a “Queima do Judas”. No fim de terça-feira de Carnaval ou em quarta-feira de cinzas, conforme as regiões, o essencial do evento é sempre o mesmo: despedida de um período que finda, para que todas as esperanças se concentrem no futuro imediato que começa.

    O “Serramento da Velha” bastante comum na região centro, também assumia o mesmo simbolismo de regeneração e renovação, dando como findo o inverno (personificado na “Velha”) e festejando o início da primavera que haveria de trazer nova vida, com abundantes colheitas, para fartura de alimento.

    Todos os momentos de renovação da esperança são positivos porque anunciadores de vida, tanto no sentido físico como no espiritual, que são as dimensões que caracterizam o Homem.

    Por: Manuel Augusto Dias

     

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