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Edição de 15-09-2017
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    Arquivo: Edição de 31-03-2017

    SECÇÃO: Editorial


    Os velhos

    Não sei se os leitores já repararam; mas, nas televisões, em todos os canais, quando se trata de alguma notícia relativa a temas como a sustentabilidade da Segurança Social, ou sobre as pensões ou as condições de aposentação, ou relativas ao chamado factor de sustentabilidade ou à idade da reforma, as imagens que aparecem a enquadrar a fala dos jornalistas consistem quase invariavelmente num conjunto de homens a jogar cartas num jardim.

    Quer dizer, para os editores das televisões, a representação social dos reformados deste País faz-se por esse quadro típico: homens - são sempre homens os que aparecem nessas peças; um jardim; e um baralho de cartas.

    Estou totalmente de acordo com a forma como muitos reformados decidem passar o seu tempo, em convívio com outros, de uma forma amena e que estimula a actividade cerebral.

    Antes nos jardins que nos casinos …

    E agora que a Primaveraparece que finalmente nos trouxe alguns dias seguidos de sol, para nos lavar a alma das névoas do Inverno que acabou, sair de casa e ir para o jardim ter com amigos é certamente uma boa forma de passar o tempo.

    Mas as televisões, para falar dessa geração de quem, tendo tido uma vida de trabalho, se encontra agora reformado, bem poderiam variar os cenários e os símbolos.

    Por exemplo, mostrar as avós - e os avôs - que vão buscar os netos à escolaou às actividades lúdicas, ou converteram a sua casa numa creche, onde acolhem esses mesmos netos, enquanto os pais trabalham.

    Ou os reformados que receberam de novo em casa os filhos, agora casados e com filhos, que perderam o emprego e deixaram de ter dinheiro para pagar uma casa própria.

    Ou ainda os milhares de voluntários que dirigem instituições de solidariedade ou apoiam os doentes nos hospitais, após a reforma, todos os dias, em horário completo, sem remuneração.

    Penso muitas vezes que são os mais velhos que levam este País às costas.

    Mas é a eles que muitos querem cortar nas reformas - como aconteceu durante a presença da troika -, a pretexto de que são inactivos, de que fica caro mantê-los ou de que não precisam de dinheiro para manterem a vida que tinham antes.

    É por essa razão que os colocam sempre num jardim, à volta de um baralho de cartas: para se ir insidiosamente criando a ideia nos outros de que são inúteis, legitimando os cortes nos direitos que construíram ao longo de uma vida de trabalho.

    É preciso não esquecer isso quando nos vêm pedir os votos.

    Por: Henrique Rodrigues

     

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