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Edição de 30-06-2020
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    Arquivo: Edição de 30-04-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    Natureza humana

    Há questões que persistem, provavelmente desde que o homem tomou consciência de si e para as quais não houve resposta única no decurso de milénios. Uma delas, talvez a mais importante, será: «O ser humano é intrinsecamente bom, a sociedade é que o corrompe», como defendia Jean Jacques Rousseau, um dos grandes filósofos iluministas do século XVIII ou «o homem é, por natureza, selvagem e capaz de todas as malfeitorias», no dizer do povo ou ainda «o homem é bom ou mau consoante a formação que recebeu e as circunstâncias que, em cada momento, acompanham as suas atitudes e decisões», aproximadamente o que Ortega y Gasset condensou na máxima que o tornou popular: «O homem é ele e a sua circunstância»? Antes dessa interrogação, teriam surgido muitas outras entre as quais a de saber o que é bem e o que é mal, categorias que impregnaram a filosofia e a teologia sobretudo desde que Zaratustra também conhecido pela designação grega Zoroastro, que terá nascido na antiga Pérsia um milénio antes da nossa era, surgiu defendendo que a origem de tudo se devia a dois princípios opostos: o Bem (Ormuz) e o Mal (Ariman). Porém, a distinção que esteve na origem da doutrina veiculada por Zaratustra pré-existiria a essa figura histórica ganhando alforria a partir de então e assumindo importância histórica sob o nome de Masdaísmo ou Zoroastrismo, mais tarde (séc. III), retomada por Manes (Maniqueus) e que ficaria conhecida por maniqueísmo, que «assenta doutrinalmente no clássico dualismo gnóstico do espírito e da matéria, do bem e do mal, da luz e das trevas, assumido de modo absoluto e radical, ou seja, como dualismo substancial ou ontológico».

    O dualismo presente nessa doutrina encontra-se já expresso, ainda que embrionariamente, na Epopeia de Gilgamexe ou Gilgamech, a maior criação poética mesopotâmica cuja versão primitiva, de fundo sumério, terá sido escrita em carateres cuneiformes cerca de 1900 anos antes de Cristo. Nota-se, em todo o poema, o contraste entre a alegria de um ideal de vida heroica e a caducidade da vida humana a culminar na fatalidade da morte. Há uma ânsia de nobreza, uma forte amizade entre os dois heróis aí celebrados, um desejo de fama, uma preocupação de purificação dos costumes a que a brevidade da existência e a inevitável transição da vida para a morte servem de contraponto. Aparece também a oposição entre a vida citadina e a vida campestre. Não encontramos nela apenas atos nobres, generosos, mas igualmente a prática de crueldades consideradas intoleráveis à luz dos valores que enformam a nossa civilização.

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    Mas nem sempre as ações podem ser rigorosamente consideradas boas ou más, dependendo, muitas vezes, do circunstancialismo em que ocorram. É frequente tomarmos por boas atitudes e procedimentos que, em condições outras e por princípio, julgaríamos más, ou vice-versa. Um facto pode ser “mascarado” de verdadeiro, mesmo não o sendo, para não prejudicar outrem ou causar-lhe constrangimento, sofrimento ou dano. Ocultar a uma criança que o pai era um criminoso ou que a mãe foi uma pessoa pouco recomendável, com a intenção de lhe permitir um desenvolvimento emocional e moral equilibrado, pode ser aceitável (bem, afinal) quando, em situação diferente, seria mal. A amizade é um bem, mas pode redundar no oposto se o propósito de alguém for contrariado, com a intenção de lhe evitar um dissabor mas esse propósito não for entendido como tal. Por norma, a mentira é um não valor, no entanto, pode tornar-se, a prazo, algo positivo; a neutralidade, o suposto desconhecimento é um mal; será amizade sempre que possa evitar prejuízo a quem queremos bem; a franqueza é um atributo reconhecido como um bem mas torna-se um mal se provocar choque, mal estar ou ameaça de conflito com terceiro(s).

    A que propósito, vem tudo isto? Muito naturalmente, a propósito da vida em sociedade. Será o homem de hoje diferente dos seus antepassados? O apregoado progresso material (na ciência, na tecnologia, na arte, na literatura) terá equivalência no modo como são encaradas as relações interpessoais? Os extraordinários avanços, que não param de nos surpreender, serão correspondidos numa melhor e mais correta aproximação entre os seres racionais? A crueza de Gilgamech para com o seu amigo Enkidu no cosmos sumério, representará um degrau evolutivo em relação às lutas fratricidas travadas, em tempos muito mais recuados na disputa dos campos de caça ou da primazia sexual dentro dum grupo? O que sabemos dos tempos pré-históricos e das primeiras etapas da História não parecem convincentes a esse respeito. Se considerarmos as crenças desses longínquos antepassados, verificamos que os seus deuses são, por vezes, sanguinários, traiçoeiros assim refletindo os próprios sentimentos e condutas dessas sociedades. Os períodos seguintes não parecem mais afirmativos tendo em conta a forma como os mais poderosos agiam relativamente àqueles sobre os quais detinham autoridade tudo se permitindo inclusive o direito a usurpar-lhes os bens, a honra e a própria vida. Temos conhecimento das razias praticadas sobre populações indefesas, da discricionariedade de tratamento sem outra justificação além da vontade ou do capricho dos senhores, frequentemente invocando a religião que interpretavam a seu bel prazer seguros da anuência ou da tolerância dos seus representantes, as próprias instituições religiosas que se confundiam com a autoridade civil, perpetrando crimes hediondos e sem direito de apelo. A expansão da Europa a partes do globo ainda envoltas na bruma da suposição, a descoberta de novas terras e gentes a quem Portugal Espanha impuseram a sua soberania, as suas leis, os seus costumes, não teve só aspetos positivos. Os descobridores levaram consigo missionários para converterem esses povos a uma nova religião. No processo decorrente da colonização foram cometidos muitos abusos, é certo, o maior dos quais consistiu na mal sucedida tentativa de utilizar a força de trabalho dos nativos e a subsequente introdução de escravos africanos escrevendo assim uma das mais vergonhosas páginas da História.

    Mais próximo de nós, o mundo conheceu guerras mundiais e regionais, horríveis carnificinas, extermínio de milhões de pessoas com base em pseudoteorias científicas para justificar a ganância de quem as pôs em prática e delas quis tirar proveito. A Literatura traz-nos notícias de crimes inomináveis, escondidos da grande maioria da população, vide a escravatura nas roças de cacau de S. Tomé que Miguel de Sousa Tavares revelou no romance Equador. Também Mário Vargas Llosa, na obra “O Sonho do Celta” lembra o ciclo da borracha extraída das seringueiras na Amazónia peruana – situações parecidas ocorreram nas partes brasileira e colombiana – em que várias comunidades indígenas foram recrutadas à força, escravizadas, sujeitas a sevícias de atroz sadismo, – o chicote, a marcação a ferro e fogo no corpo de seres humanos como se de animais se tratasse, torturas como o tronco utilizado de maneiras “criativas” para infligir dores atrozes, o assassínio sem razão, a tiro, por afogamento ou estrangulamento, a violação de mulheres e tudo quanto a criminosa loucura humana concebia – sem qualquer espécie de compensação financeira e, pior ainda, sujeitos a preços extorsivos pelos bens essenciais que os “donos” lhes forneciam, criando assim uma dependência para o resto da vida. Semelhantes crimes foram praticados em África, como o tráfico humano, e tudo quanto as mentes doentias dos exploradores criavam por mera ganância. Houve, é certo, em muitos casos, a intervenção de instituições nacionais e privadas, de pessoas que não se deixaram corromper e que, em muitas ocasiões pagaram com a vida a sua retidão de caráter mas, graças às quais o mundo tomou conhecimento do que, verdadeiramente, estava a acontecer.

    Hoje, graças aos media, cada vez mais interventivos, as formas de exploração e de práticas desumanas mudaram. No entanto será um erro pensar que o mundo ficou melhor, que o bem prevaleceu sobre o mal. Muito simplesmente, houve mudança de estratégias. A corrupção, as práticas lesivas do bem comum assumiram técnicas mais refinadas mas não menos destrutivas e criminosas. Através dos mercados, os especuladores não se importam de condenar milhões de pessoas à fome e ao desespero. Para isso, jogam com a complacência, se não com a conivência de governantes e de sistemas judiciais viciados. O mundo estará, realmente melhor do que em tempos idos?

    Por: Nuno Afonso

     

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