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Edição de 30-06-2020
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    Arquivo: Edição de 15-05-2011

    SECÇÃO: Crónicas


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    Luzes e sombras

    O dia fora luminoso, agora a noite já descia, as primeiras sombras projetavam--se no asfalto que o autocarro em que seguíamos ia percorrendo. Ruas praticamente desertas, estabelecimentos comerciais encerrados, um ou outro gato amodorrado a usufruir o derradeiro calor do sol na tranquilidade que a ausência humana lhe proporcionava, pombas irrequietas exercitando voo do telhados de casas antigas para a rua à procura de sementes ou restos de comida, nem um grito humano, sequer o latido de um cão vadio, um silêncio tão inusual na paisagem urbana que o ruído dos poucos veículos ligeiros e de transporte coletivo pareciam, em absoluto, virtuais, emitidos por um qualquer suporte eletrónico. Domingo de Páscoa do ano da (des)graça de 2011.

    Regressávamos a casa após a comemoração familiar do sexagésimo aniversário de um dos meus irmãos que mora em Azeitão, celebrado no sábado, o que nos permitiu discorrer sobre a história do palácio ali mandado construir no séc. XVI por D. Jorge de Lancastre, o filho natural de D. João II a quem foi negado o direito de suceder ao pai, monumento que, lamentavelmente, se encontra em avançada ruína porque, à boa maneira portuguesa, os herdeiros, a autarquia e o Estado não há maneira de se entenderem quanto a um possível restauro da imponente edificação. É pena, porque não se trata apenas de um edifício antigo mas, sobretudo, porque é um dos melhores exemplos da arquitetura renascentista portuguesa, «a sua planta em U e as linhas que o traçam são de inspiração italiana clássica, a envergadura e a volumetria tornam--no numa das maiores residências nobres rurais do país».* Conversa animada pela paixão que todos cultivamos pela História, em que entraram o 1º duque de Aveiro, título atribuído por D. Manuel I a D. João de Lancastre, filho do referido D. Jorge cujo penúltimo descendente foi preso e barbaramente justiçado por ordem do Marquês de Pombal, e todos os seus bens tornaram-se propriedade da Coroa portuguesa. Este fidalgo, herdeiro de vários títulos nobiliárquicos, respetivas propriedades e mordomias, estava ligado por casamento à família dos Távora que o marquês inculpou pelo nebuloso atentado ao rei D. José I na noite de 3 de setembro de 1758. Daí que o brasão, nesse palácio existente, tenha sido totalmente picado como acontecia em casos tais. O edifício foi a única propriedade dos extensos haveres de D. José de Mascarenhas preservado à destruição e à execração pública.

    Livre de entraves, o motorista do autocarro dava asas à frustrada vocação de piloto, ignorando as paragens onde não lobrigasse candidato a passageiro. Àquela hora, aos domingos, são numerosos os que voltam para casa sós ou em grupo, com frequência famílias que regressam de um shopping onde regalaram a vista em artigos que não poderão comprar ou satisfizeram a gula das crianças, talvez a própria, com qualquer snack (pizza? hamburguer? francesinha? sande especial?) ou gelado pelo qual salivaram ao longo da semana, que “araruta tem seu dia de mingau”, como se diz no Brasil, e já não estamos em tempo de guerra, será mesmo ou estão a chegar dias tão sombrios quanto os dos anos 40? Hoje, as lojas estão fechadas, os centros comerciais ficaram mudos e quedos, cafés, confeitarias, pastelarias e quejandos deram folga a trabalhadores e clientes porque Páscoa é dia de cada um estar com os seus ainda que o espírito religioso esteja de todo ausente do tradicional convívio. Tão irreal, diríamos até fora de propósito, se nos afigura este esvaziamento da cidade que as montras parecem iluminadas por velas, os feéricos e apelativos néons das grandes firmas e das marcas consagradas mais pareciam envergonhados reclamos de há cem anos. Era como se lhes faltasse o brilho dos olhares humanos, o calor do entusiasmo e da admiração das multidões.

    Parece um autocarro de espetros, os que entram no veículo coletivo voador. Recolhe aqui um ébrio que aguardou sentado no rebordo exterior de uma janela de casa antiga e mal se apercebeu de que o “seu” transporte se tinha imobilizado na paragem. Entra com dificuldade, increpando o motorista numa algaraviada em que mais se adivinha do que se distingue o calão e abundante e desconexa gesticulação, um corpo franzino e seco a servir de cabide a uma roupa de todo deslocada no tempo de que sobressai um casaco beije, aos ziguezagues pela coxia até despejar o seu feixe de ossos num banco que não correspondeu a qualquer critério de preferência. Várias paragens adiante, aparece uma mulher grávida que segura, na direita, a mão de um pequenito de grandes olhos espantados e na esquerda um saco plástico que já foi objeto de marketing e vem atafulhado de artigos indistintos em amálgama, vai procurando equilibrar o barco com os remos dos seus braços e atraca num dos primeiros assentos duplos do autocarro. Aí vem, agora, um grupo de jovens falando alto que tentam parecer divertidos e trocam ditos que supõem ter muita graça mas que o bêbado não aprecia e de que a mulher parece ter receio. O bêbado logra sinalizar a intenção de descer, talvez não tenha ideia donde está, os jovens troçam e a mulher continua inquieta, visivelmente incomodada pela algazarra e pela quase solidão.

    Noutro tempo, o domingo de Páscoa era talvez o mais alegre do ano, o dia de “ir à madrinha”, assim mandava a tradição cristã: crianças e jovens vestiam a sua melhor roupa para visitarem aquela que deveria substituir a mãe na educação religiosa dos neófitos quando esta faltava e, em troca, recebiam dela uma prenda. No domingo anterior (de Ramos), eram aqueles que ofereciam um ramo engalanado com enfeites diversos, doces e frutas à respetiva madrinha como que a solicitar a posterior retribuição. O hábito de efetuar esta visita representava para muitos a raríssima oportunidade de se apresentarem a preceito, daí resultando a observação galhofeira “vais à madrinha?” sempre que alguém surgia, inusitadamente, todo aperaltado.

    Outro costume que caraterizava este período era o cuidado que as donas de casa punham no asseio das suas moradas que, no domingo de Páscoa, seriam visitadas pelo Senhor Ressuscitado e por familiares e amigos que vinham recebê-lO juntos. O sacerdote aproveitava esta oportunidade para conviver com cada um dos seus paroquianos, indagar dos seus problemas, interessar-se pelos membros da família que viviam no estrangeiro. Uns dias antes, começava a limpeza geral das casas, lavavam-se os antigos soalhos de castanho, declarava-se guerra total à sujeira que a actividade agrícola propiciava, dava-se novo arranjo aos móveis rústicos, areavam-se tachos e potes de ferro, tudo brilhava de asseio e frescura. A miudagem ia pelos campos fora colher flores, de preferência pascoelas douradas e violetas azuis que serviam para atapetar o chão de entrada nas suas casas. Ninguém esperava presentes, faziam-no pela alegria de participar naquele ambiente de festa. Os rapazes seguiam à frente do cortejo pascal, tocando as campainhas da igreja para indicar a proximidade da comitiva, desejosos de receber, no fim, uma laranja, maçã ou amêndoas que lhes eram destinadas no conjunto das ofertas ao pároco. Hoje, já pouco resta dessas antigas formas de expressar a verdadeira alegria que alimenta o espírito e a sã convivência.

    * http://ruinarte.blogspot.com

    Por: Nuno Afonso

     

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