Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 30-06-2020
  • Edição Actual
  • Jornal Online

    Arquivo: Edição de 30-04-2011

    SECÇÃO: Crónicas


    foto

    “Como a água que corre…”

    Meu pai induziu no meu espírito o gosto pela leitura nos longos serões de inverno, dir-se-ia a modos que uma pré-primária informal que, nesse tempo, era algo desconhecido.

    Verdade que já frequentava a escola da aldeia mas a minha carteira era o regaço da D.ª Antoninha Preto, a professora a quem o meu pai me entregara para ir ganhando o hábito, dizia. Sem lousa nem lápis de pedra, os meus olhos ocupavam-se a vaguear pelos cantos da sala e pelos rictos de apreensão que lia nas caras de outros miúdos, um pouco mais velhos que eu, muito aplicados a tentar juntar as letras que, à vezes, se lhes escapavam como ovelhas ao comando e à lapada do pastor; a fazer cópias, limpando os aparos no bordo do tinteiro de porcelana e o ranho à manga da jaqueta; a tentar submeter os números recalcitrantes às operações de somar ou de subtrair; a entoar a monocórdica cantilena da tabuada de multiplicar – não me recordo de ouvi-los dividir, que isso são contas deveras complicadas na numeração como na vida –; a reunirem-se junto ao mapa, apontando os sistemas orográficos e respetivas serras, os rios e seus afluentes mais os nomes das localidades onde nasciam, que atravessavam, e onde desaguavam, duvidando que tamanhas coisas coubessem num espaço tão pequeno; a indicar, com os fura-bolos, as linhas do caminho de ferro que serviam terras de sonoridades esquisitas como Pampilhosa, Alfarelos, Salvaterra, Entroncamento e um sem fim de ramais com outras tantas designações estranhas. Imagino a inveja que a garotada deveria sentir daquele pirralho mimado que outra coisa não fazia senão olhar para eles, em palpos de aranha para cumprirem as ordens que iam recebendo sob a ameaça constante da vara que a mestra tinha em cima da mesa. Além do mais, a senhora professora e eu tínhamos o privilégio de ficar ao pé da braseira que os mais crescidos iam encher, – meia dúzia de brasas aqui, mais algumas ali, ainda umas quantas adiante, – nas casas próximas da escola, enquanto para eles mal chegava uma réstia de calor naqueles dias em que a geada, lá fora, endurecera o caminho ou a neve vestira de branco toda a natureza e o frio lhes enregelava o corpo mal protegido pelas singelas roupas de riscado e de cotim.

    Na hora de recreio dos alunos, eu ficava na sala a ouvir as histórias da Branca de Neve, da Gata Borralheira, da Bela Adormecida e outras que a D.ª Antoninha me contava porque em casa de lavoura não havia tempo nem disponibilidade para tais luxos. Os outros miúdos preferiam a liberdade da rua nesses poucos minutos que dividiam o suplício em duas partes mas lhes concediam a possibilidade de darem corda aos tamancos e de arejarem o sótão. Graças à clarividência dos meus pais e à boa vontade da professora, o meu espírito foi adquirindo a necessária dose de fantasia tão importante para o seu desenvolvimento futuro. No jornal, que o meu pai assinava, não perdia as tiras de banda desenhada: o Bim e o Bam e as aventuras do Ferdinando. Quando, mais tarde, aprendi a ler, senti que possuía a chave para decifrar todos os mistérios que, até então, chegavam até mim pela voz de outros.

    Em nossa casa havia livros que o meu pai comprara, uns no Brasil, outros em Portugal quando decidiu regressar à terra. Terminadas as sementeiras, a invernia interditava o trabalho no campo. A noite caía cedo, faziam-se velas de várias horas porque não havia precisão de madrugar no dia seguinte. Se não apareciam vizinhos para umas partidas de sueca, o meu pai ia buscar um livro e deixava-se transportar a lugares desconhecidos, acompanhando o desenrolar de histórias num encantamento sem limite. Fazia-nos testemunhas desse prazer lendo em voz alta, com regularidade, passagens que achava mais bonitas ou curiosas e que nós, sinceramente, apoiávamos. Por esse facto, considerei-o o meu melhor professor de Português. E não tenho dúvidas de que o foi efetivamente. E se, na escola primária, era bom aluno em todas as matérias, o amor pela língua pátria sobrepôs-se nos anos seguintes e definiu o caminho que haveria de trilhar no futuro.

    Há sempre alguém que baliza o nosso percurso, e nos marca indelevelmente. Para mim essa figura foi, sem qualquer dúvida, o padre Telmo, meu professor de Português no quinto e sexto anos do Seminário. Nas aulas e fora delas, o padre Telmo era uma figura carismática, excelente comunicador, dono de abundantes e variados conhecimentos. Possuía o dom de transmitir, naturalmente e com simplicidade, tudo quanto a sua avidez pela cultura lograva atingir. Num ambiente fechado como era o do Seminário e na provinciana tacanhez dos anos 50, introduzia nas conversas, com a maior naturalidade, matérias atuais que revestia de especial interesse para os ouvintes. Falava de desporto, de literatura, de história, da política internacional que fervilhava naqueles tempos subsequentes à 2ª Grande Guerra e que trazia no seu bojo promessas de rápido desenvolvimento e de novas conquistas científicas. O desporto mais popular de então era o hóquei em patins em que Portugal e Espanha davam cartas. Falava-nos das proezas de Raio, Edgar, Jesus Correia e Correia dos Santos no Torneio de Montreux, nos campeonatos da Europa e do Mundo. Como não podíamos ouvir na rádio os jogos da nossa equipa, era o padre Telmo que nos dizia os resultados e nos contava as incidências das partidas. O mesmo acontecia em relação ao futebol no tempo em que o Sporting dos “cinco violinos” marcava ascendente sobre os outros clubes portugueses. Embora não fizesse parte dos programas de Português a literatura portuguesa contemporânea, foi da sua boca que, pela primeira vez, ouvi os nomes dos mais credenciados escritores da época: Alves Redol, José Régio, Miguel Torga e de outros que não atingiram o mesmo nível destes como Joaquim Paço d’Arcos e Francisco Costa. Na biblioteca do Seminário, a que tínhamos acesso no último período de estudo dos sábados, não havia livros desses autores nem dos grandes nomes já consagrados como Júlio Dinis, Camilo ou Eça de Queiroz de que também ouvíamos falar nem sempre bem sobretudo no caso do último. Porque tinha acesso à rádio e aos jornais, trazia-nos informações da política nacional e internacional, naturalmente filtradas pela Censura.

    O estímulo maior concedido às Letras em prejuízo das disciplinas científicas como a Matemática e a Física fez com que a minha tendência para as primeiras se acentuasse. Existia uma vigilância significativa sobre a Língua Portuguesa a par do Latim e, mais tarde, do Grego. A lei do silêncio era imposta em todos os atos à exceção do tempo de recreio. Durante as refeições, alguém era destacado para, do púlpito, ler trechos de obras selecionadas. Ficaram-me na lembrança, por exemplo, “A Maravilhosa Viagem de Nils Olgerson através da Suécia” da escritora Selma Lagerlof ( Prémio Nobel de 1909) e um livro de aventuras passadas em colégio interno norte-americano de cujo autor não me resta memória, apenas os nomes de algumas personagens ( Percy, Tom e Harry) e farrapos incompletos dos episódios em que intervinham.

    Durante a minha permanência no Brasil, completei o Curso Secundário escolhendo, obviamente, o chamado ramo Clássico em detrimento do Científico. Por esse tempo, muitos jovens acorriam ao curso de Sociologia, razão que me conduziu a essa opção. O mais credenciado era o da Pontifícia Universidade Católica. Inscrevi-me no exame de admissão e fui admitido sem recorrer ao curso pré-vestibular. Embora tivesse cadeiras da área científica como a Estatística, Estatística Inferencial e Economia, era um currículo basicamente de Letras. Gostei imenso, aprendi muito, trabalhei ainda como sociólogo e teria feito carreira nessa área se o meu pai não tivesse decidido regressar em definitivo a Portugal.

    Em Portugal, por essa altura, não existia o curso de Sociologia e o meu diploma só foi reconhecido depois de 1974. Licenciei-me, então, em Filologia Românica, o mais adaptado ao meu gosto e à minha preparação anterior. Fui professor durante muitos anos e estou certo de que cumpri bem essa nobre missão.

    A leitura e a escrita foram e continuam a ser a minha grande paixão. Felizmente, conjugaram-se as vertentes casuais e intencionais como sucede com os cursos de água que correm para o mar.

    Por: Nuno Afonso

     

    Outras Notícias

     

    este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
    © 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
    Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.