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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 30-03-2011

    SECÇÃO: Editorial


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    Arrumar a casa

    Com a chegada da Primavera e o aproximar da Páscoa preparava-se a casa para receber o compasso. Faziam-se as grandes limpezas gerais, esfregavam-se as casas mais humildes com sabão amarelo e lavavam-se e enceravam-se as outras. Tudo era limpo, portas, janelas e paredes, estas últimas eram caiadas. A cal, para além de tornar as casas mais alegres e frescas, servia de desinfestante. Arejavam-se os colchões e almofadas, lavavam-se os cobertores e mantas do Inverno.

    Páscoa era sinal de mudança, no tempo e nas práticas de cada um, tempo de renovação e de esperança.

    A Páscoa era sinónimo de arrependimento, emenda e festa da Ressurreição.

    Esta tradição católica em que fui educada deixou-me marcas profundas na forma como sempre encarei a Primavera, que associadas a uma ligação muito profunda à terra e à natureza me acompanham ao longo do tempo, dando-me sempre força para encarar com esperança os percalços que a vida nos vai pregando.

    Tempo de partilha, ofereciam-se flores aos padrinhos e recebia-se o folar, recebia-se o compasso e distribuíam-se amêndoas e doces aos familiares e amigos.

    Quando era pequena estreava-se roupa nova, mais fresca, mais alegre, porque as do ano anterior deixaram de servir.

    Hoje não há datas especiais para ter roupa nova, já não se diz – o meu vestido, os meus sapatos, da Páscoa!

    A Primavera continua a acontecer e a religião a marcar, de acordo com as suas regras, o dia do Carnaval e da Páscoa.

    O sentido que lhe atribuímos é que tem vindo a alterar-se ao longo dos tempos. Para muitos, Páscoa é época de férias, com dinheiro ou sem ele muitos portugueses partem à procura de uns dias de sol.

    Porém, nesta encruzilhada a que chegámos já não nos chega confessar os nossos pecados com um arrependimento profundo, é preciso mudar de vida, saber ler os erros, mas corrigir. Aproveitar tudo o que de positivo nos resta, e há algumas conquistas que não se podem desprezar, não se pode correr o risco de pôr tudo em causa.

    Esse vazio assusta-me, embora para qualquer lugar que olhe só veja escombros.

    É tempo de arrumar a casa, continuo a acreditar «que nada se perde tudo se transforma».

    É verdade, se tivermos capacidade e olhos para encontrar nos desperdícios elementos capazes de originar algo que valha a pena.

    Num período tão negativo da nossa existência, em que o mundo se desmoronou para um grande número de pessoas, temos que acreditar que a Páscoa é Ressurreição e a Primavera a força da natureza capaz de fazer renascer das cinzas a vida.

    Temos de acreditar que vamos ser capazes de transformar o que nos resta.

    Para isso todos somos poucos, e a minha dúvida reside em saber se vamos ser suficientemente humildes para darmos as mãos com um único objectivo, fazer o melhor pelo País.

    Portugal tem que encontrar um processo de crescimento em que «cada um se descubra e realize na potencialidade que tem para enriquecer o conjunto». 1

    1. D. Manuel Clemente, in “Diálogo em Tempo de Escombros”.

    Por: Fernanda Lage

     

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