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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 30-03-2011

    SECÇÃO: Opinião


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    A culpa é sempre dos outros

    Não sei como as coisas se passam nas outras democracias europeias. Mas todos sabemos o que acontece dentro de nossas portas no que à política diz respeito: quando as coisas correm bem e há sucessos a registar, os louros são exclusivamente dos políticos que estão no poder. Quando os acontecimentos dão para o torto, as culpas nunca são dos políticos que conduzem a coisa pública que logo se apressam a responsabilizar terceiros pelos desaires, visando especialmente os partidos da oposição.

    Esta constante do procedimento dos governantes e partidos que os apoiam, ocorre repetidamente entre nós, sendo frequente ouvir declarações no sentido de lembrar a todos, inclusive ao Presidente da República, que a governação é coisa exclusivamente sua, onde mais ninguém tem o direito de se imiscuir, como fez questão de lembrar José Sócrates aquando do discurso de Cavaco Silva no acto de posse do seu segundo mandato, ao declarar que presidente é para presidir e governo é para governar. Mas, sem o menor rebuço, quando o Governo passou a estar em apuros, logo surgiram os indefectíveis a lamentar que o PR não tenha aparecido em público para “obrigar” os sociais-democratas a continuarem a apoiá-lo.

    Numa inusitada atitude, o primeiro-ministro resolveu, sem dar cavaco a ninguém, avistar--se com a Chanceler Merkel e, com ela “cozinhar” um novo PEC à revelia de toda a gente: Presidente da República, partidos da oposição, seu próprio partido e parece que também nas costas dos ministros do seu Governo.

    A história divulgará os verdadeiros objectivos de José Sócrates com tal procedimento. Para nós, a sua estratégia foi colocar toda a gente entre a espada e a parede, qualquer coisa como: ou aprovam o que decidi com a “protectora” alemã, ou provocam a queda do governo e, consequentemente, eleições legislativas antecipadas, que terá sido a genuína ambição de José Sócrates. E, como alguns dizem, o PSD mordeu o isco, criando as condições para os socialistas se apresentarem rapidamente como vítimas da sofreguidão do PSD em querer o poder, transferindo para ele as responsabilidades das consequências de uma governação que colocou Portugal nas mãos de investidores e especuladores estrangeiros, a pontos de nos sujeitarem a uma nova bancarrota que há muitos meses nos bate à porta, aguardando, apenas, que os causadores da (des)governação considerem chegado o momento apropriado para dispararem o tiro de partida em direcção a terceiros, culpabilizando-os pelos erros de procedimentos que, embora lhes sejam alheios, a máquina de propaganda governamental, paga pelos contribuintes, se encarregará de fazer crer que os verdadeiros culpados da situação devem ser olhados como vítimas inocentes.

    No momento em que escrevemos estas linhas não se conhece a decisão do Presidente da República na sequência do pedido de demissão do primeiro-ministro, embora as declarações dos representantes dos partidos à saída do Palácio de Belém levem à conclusão de que nos esperam eleições antecipadas, provavelmente a 29 de Maio, facto que, a confirmar-se, deverá ser interpretado como impossibilidade dos socialistas convencerem o seu secretário-geral a afastar-se do cargo, dando espaço a Jaime Gama para protagonizar uma grande aliança governativa (PS//PSD/CDS) como lhe fora pedido pelo deputado Ricardo Gonçalves, mas imediatamente recusado por Sócrates que, em tom irritado, terá lembrado ao seu correligionário e demais membros do Grupo Parlamentar «que foi eleito secretário-geral do PS três vezes [hoje já poderá aumentar para quatro] e duas primeiro-ministro», currículo bastante para colocar as suas ambições pessoais à frente dos interesses nacionais, argumentário suficiente para olharmos de soslaio as suas acusações de que os culpados da crise são os partidos da oposição que recusaram o PEC IV.

    O desvario governamental das finanças públicas dos últimos anos é, para além dos sacrifícios por que os portugueses passarão nos muitos anos que os esperam, causa próxima do vexame a que a Senhora Angela Merkel a todos sujeitou quando, no passado dia 24 de Março, no Bundestag, “decretou” que os portugueses tinham de cumprir o que combinara com José Sócrates, não obstante ter sido rejeitado pelos parlamentares portugueses. Qualquer coisa como, acima da vontade dos legítimos representantes dos portugueses, há que observar as instruções dos alemães sem qualquer tergiversação e independentemente do Governo em Portugal ser socialista, social-democrata, democrata-cristão ou qualquer outra corrente político-partidária. Manda quem pode, obedece quem deve quando se põe a jeito.

    Se outras razões não houvesse, esta seria suficiente para condenar os políticos que nos conduziram para este pântano, obrigando-nos a “engolir em seco” estes “mimos” de uma Chanceler que não hesita em agredir a nossa dignidade no momento em que as suas declarações lhe são úteis para obtenção de resultados menos maus em eleições que neste fim-de--semana disputava no seu “Land” Baden-Württemberg”.

    Quando se sabe que a dívida externa portuguesa cresce diariamente, que a economia não sai da letargia em que se encontra há muitos e muitos anos, que nos próximos meses precisamos que nos emprestem cerca de vinte e dois mil milhões de euros, dezassete mil milhões para amortizar dívida contraída e cerca de cinco mil milhões para pagar juros dessa mesma dívida, afirmarem que as baixas de notação das agências de Rating é consequência do que se passou na AR no dia 24-03-2011 só não é para rir porque as consequências são demasiado gravosas para a qualidade de vida dos portugueses. Os políticos que usam e abusam desta argumentação, deveriam ter um pouco mais de pudor e de respeito pela inteligência dos portugueses.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

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