Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 30-09-2020
  • Edição Actual
  • Jornal Online

    Arquivo: Edição de 30-04-2010

    SECÇÃO: Editorial


    foto

    Que é feito da nossa indústria?

    O mundo mudou mas a história repete-se, a ciência evoluiu e as tecnologias também, novos materiais, outras necessidades, a globalização e outras relações de vizinhança, a própria constituição da sociedade é diferente, mas mesmo assim é possível estabelecer muitos paralelos.

    Quando penso nas fábricas que fecharam, na quantidade de desempregados deste país, vem-me sempre à memória o romance “A Lã e a Neve” de Ferreira de Castro».

    Talvez por ter ganho uma certa afectividade com a serra da Estrela e conhecer o que resta das suas aldeias consigo ler com facilidade o que tem vindo a acontecer aos que por lá vou encontrando.

    Por outro lado a história de todas as indústrias têxteis tem muito em comum, embora a da lã tenha as suas especificidades.

    No norte, em volta do Porto, os homens largaram a agricultura para passarem a ser operários, outra classe social com direito a farda e obrigatoriedade de fazer a barba todos os dias.

    Ferreira de Castro descreve-nos os serranos como um povo que na solidão pastoreava as suas ovelhas e tecia a lã que elas forneciam, trabalho este que foi diminuindo com o aparecimento e futuro desenvolvimento das fábricas.

    A vida bucólica do pastoreio deu origem aos turnos nas fábricas, por vezes longe das casas da família. Os homens trabalhavam em turnos contínuos folgando apenas ao domingo.

    De pastores passaram a tecelões, «(…) Já não viam as ovelhas nem ouviam o melancólico tanger dos seus chocalhos.

    (…) Viam apenas a sua lã, lã que eles desensurravam, que eles lavavam, cardavam, penteavam, fiavam e teciam, lã por toda a parte.

    (…) Mais tarde operou-se uma revolução. As enormes rodas que giravam nas ribeiras detiveram-se: o poder da água foi substituído pela electricidade.

    (…) As fábricas existiam onde já laboravam os pais filhos e netos. Os centros de tecelões que, outrora, viviam nos lugarejos da serra, tinham-se multiplicado e constituíam agora milhares. Ladinas personagens, que, de magros dinheiros dispondo, compravam o fio a uns, mandavam-no tecer a outros e a terceiros vendiam os panos, acabaram desaparecendo.

    (…) E só ficavam as grandes fábricas, com seus milhares de empregados.

    A lã do país já não chegava, tinha-se de procurá-la em terras estrangeiras. Da Austrália, da Nova Zelândia, da África do Sul passaram a vir grandes carregamentos».

    Outra qualidade, outros preços!

    «(…) A indústria sofria constantes oscilações, ora fabricavam sem descanso ora por escassez de matéria-prima ou parco consumo diminuía os dias de trabalho.

    (…) A sujeição ao destino comum criara, todavia, alguns vínculos entre os descendentes dos primeiros tecelões. No século XX, mais do que sons de flautas pastoris descendo do alto da serra para os vales, subiam dos vales para o alto da serra queixumes, protestos, rumores dos homens que, às vezes, se uniam e reivindicavam um pouco mais de pão». (1)

    Outros partiram em busca de melhor sorte, muitos para França. É curioso, no mês de Agosto há aldeias onde nos cafés quase que só se fala Francês!

    Agora, já no século XXI, partem para Inglaterra, Espanha e Angola.

    As terras já nada lhes dizem, as ovelhas também não, mas restam uns heróis que ainda nos fazem um bom queijo e outros que transformaram os arredores das cidades em jardins.

    Gente sofrida com histórias de vida de grandes dificuldades, mas que venceram, não tinham nada a perder, viviam tão mal que era sempre possível encontrar algo melhor, hoje a situação é muito diferente, as pessoas têm direitos que foram conquistando ao longo do tempo, fizeram os seus descontos, têm direito a uma reforma, a um subsídio de desemprego.

    Somos um povo que se adapta com facilidade a novas situações, sabemos ser solidários quando é preciso, mas não suportamos as injustiças. Este país não é justo enquanto tivermos uma disparidade tão grande de vencimentos, enquanto não criarmos novos postos de trabalho, enquanto não respeitarmos os bens públicos, enquanto desperdiçarmos no dia a dia o que faz falta a todos nós.

    (1) “A Lã e a Neve”, Ferreira de Castro, 1947.

    Por: Fernanda Lage

     

    Outras Notícias

     

    este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
    © 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
    Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.