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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 15-11-2009

    SECÇÃO: Crónicas


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    O jogo dos paus

    Nos domingos à tarde, todos os homens da aldeia, novos e velhos, juntavam-se no “jogo dos paus”. Nesse tempo, ninguém ouvia falar de futebol ou de qualquer outro desporto que, actualmente, preenchem as horas de lazer e as páginas de muitos jornais.

    Numa dessas jornadas, depois de umas escaramuças pouco entusiasmantes, o Sabino, de Carrazedo, pegou na bola de madeira, aproximou-se do malhão de baixo, pousou nele o pé direito, e lançou o desafio:

    - Quem quiser jogar a cinco escudos venha atrás de mim – levantou a bola à altura dos olhos a fazer de conta que atirava e, de imediato, voltou à posição inicial com a bola empunhada e as mãos juntas atrás das costas.

    Cinco escudos, nesse tempo, era “jogo alto”, fora do alcance de quase todos. Quem partisse na frente, depressa podia acumular muitos jogos sem conceder oportunidade ao adversário, muitas vezes obrigando-o a desistir para evitar prejuízos maiores. E logo o Sabino, muito certeiro, duas boladas, uma para cima, outra para baixo, e o jogo estava no papo. Por isso, houve alguns minutos de tensa expectativa. Os olhares daquele povo convergiram no Manel da tia Ermelinda, por essa época um dos melhores jogadores de paus de toda aquela região. Tinha muita força, era caso comprovado, mas perdia em regularidade com o desafiante. Começando em primeiro e num dos seus dias, não havia pai para ele. Agora assim…

    Estavam ali outros jogadores de nomeada: O Pintado, de Alimonde como o Manel, mas alguns anos mais velho, o Pressinhas de Vila-Boa, o Lagoaça de Castrelos e outros que agora começavam a revelar-se. Todos bons jogadores, infelizmente pobres, arredados, por conseguinte, de um despique com opositor de argumentos tão sólidos como o Sabino, proprietário de uma “boa casa”.

    Nesse tempo, em todas as aldeias nordestinas praticava-se uma agricultura de subsistência de cariz familiar, raros dispunham de economias que só podiam resultar de venda de vitelo ou de um excedente de cereal, levado ao “celeiro” depois da colheita e pago quase um ano mais tarde, às vezes uns sacos de batatas e pouco mais. Mas essa reserva era bem guardada no canto duma gaveta para uma precisão urgente: doença de qualquer membro da família, compra de equipamento agrícola ou de uma leira há muito cobiçada. Mesmo aqueles que, reconhecidamente, possuíam boas reservas financeiras seriam incapazes de as mordiscar em aplicação de jogo. Em todo o caso, tratava-se agora de responder a uma aposta dirigida sobretudo aos jogadores da terra, considerados possuidores de muita força e bem cotados entre a mocidade em toda aquela corda. Era uma situação a ponderar com muito tacto.

    E, como a discussão é inversamente proporcional à capacidade financeira dos grupos, (família, comunidade local ou outros, – atente-se no provérbio “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão” – aquilo ia, certamente, durar algum tempo a decidir. Deixemos, pois, que a assembleia pondere, discuta e, até que se chegue a um “vamos lá”, expliquemos nós aos leitores em que consiste este jogo tradicional, até há poucos anos popularíssimo em muitas aldeias da chamada Terra Fria Transmontana, destruído pelo êxodo migratório da juventude e pelo “progresso” que lhe destruiu o habitat. Nada tem a ver com o “jogo do pau”, usual em certas regiões do país, particularmente na Beira-Alta, e que o grande Aquilino Ribeiro tornou célebre na sua obra “O Malhadinhas”. Tratava-se nesse caso, de um bastão comprido que os beirões manejavam com extrema habilidade, como arma de ataque ou de defesa, propiciando combates viris de luta ou exibição.

    O jogo dos paus disputava-se num local que nada tinha de exclusivo, na generalidade dos casos, em pleno caminho público, num troço um pouco mais largo do que o habitual. Quantas vezes, no decorrer da pugna, por ali passavam crianças ou mulheres tangendo a cria em direcção ao pasto, sendo interrompida, mal jogadores ou assistentes se apercebessem de que animais e pessoas se aproximavam, retomando-a de seguida. A meio do espaço, havia uma pedra larga, enterrada, que sobressaía alguns centímetros e em cuja superfície, naturalmente lisa e desbastada nos bordos, eram colocados nove paus de forma cilíndrica e aproximadamente oito centímetros de altura e uns quatro de diâmetro. Sobre a pedra, os paus mantinham sempre a mesma disposição, orientada por pequenas marcas naturais, de maneira que nenhum jogador pudesse alegar prejuízo daí advindo. De cada lado dessa pedra, a cinco ou seis metros, em sentido longitudinal, havia uma pedra menor e um pouco mais alta, os malhões, onde os jogadores apoiavam um dos pés para projectarem a bola de madeira, oval como bola de rugby, mas achatada nas pontas, contra os paus, imprimindo-lhes a possível velocidade de modo a fazê-los ultrapassar uma raia colocada, transversalmente, a cerca de quinze/dezasseis metros da pedra. Cada pau que ultrapassasse a raia valia dez pontos; os que fossem derrubados, mas ficassem aquém do risco, valiam apenas um ponto. Ao atirar para cima, a bola tinha que ir além da raia, em caso contrário, dizia-se que o jogador sancava. A sanca implicava a perda do jogo e da dianteira na disputa; para baixo, essa regra não se aplicava. O jogador que possuísse técnica e boa pontaria esforçava-se por acertar nos paus colocados mais à direita, permitindo-lhe que a força, imprimida à bola, não sofresse grande perda ao embater nos paus. Bastaria que fizesse passar dois paus, às vezes até um só podia ser bastante para perfazer os quarenta pontos do jogo no somatório das duas mãos. Para baixo, mais facilmente podia fazer passar dois ou mais paus visto que não existia a obrigatoriedade de a bola passar a raia. O Sabino pertencia a esta categoria de jogador; o Manel da tia Ermelinda era menos certeiro mas, fisicamente, mais possante.

    A discussão mantinha-se acesa, enquanto o Sabino esperava que alguém o acompanhasse. Bem gostaria o Manel de responder ao desafio, mas era um teso e a parada de molde a assustar quem não tinha bons argumentos metálicos. Havia quem tivesse a esperança de que o Domingos, que há pouco viera de Angola com fama de rico, ajudasse a desatar aquele nó, mas quem se atrevia a interpelá-lo para sugerir que servisse de garante ao Manel? O homem estava ali, sentado na parede que cercava o horto da tia Patrocina, como que alheado do que acontecia à sua volta. Conversava com o tio Narciso, homem sensato e inteligente a quem devotava grande respeito e consideração. A certa altura, levantou-se e, encontrando o seu olhar com o do Manel, fez-lhe sinal de que podia avançar.

    O Sabino atirou e fez o que se esperava. O Manel foi atrás e não comprometeu. Um, dois, três, quatro jogos, parecia que tudo seriam favas contadas para o interpelante. Ao quinto jogo, no entanto, o Manel, a atirar para cima, conseguiu passar quatro paus e arrecadar o jogo. Dali para a frente, foi um autêntico festival. O Manel parecia endiabrado. Em breve, tinha dez jogos à maior. Quando se dispunha a começar o jogo seguinte, o Sabino mandou parar. O Manel vencera. Pagou o vinho aos que punham os paus e fez vir mais, que mandou distribuir por toda a assistência. Quanto ao entendimento entre ele e o Domingos, não haveria problemas, ambos eram sensatos e de boas contas.

    Por: Nuno Afonso

     

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