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    Arquivo: Edição de 31-01-2009

    SECÇÃO: Psicologia


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    A IMPORTÂNCIA DA SAÚDE MENTAL

    Falsas memórias

    Este é um espaço de reflexão e diálogo sobre temas do domínio da Psicologia, que procurarei dinamizar com regularidade, trazendo para aqui os principais problemas do foro psicológico que afectam pessoas de todas as idades.

    Na qualidade de psicóloga estou disponível para os leitores de “A Voz de Ermesinde” me poderem colocar as questões que desejarem ver esclarecidas, através de carta para a redacção deste quinzenário ou para o seguinte “e-mail”: joanapatriciadias@sapo.pt

    Actualmente, o estudo da memória humana ocupa um espaço privilegiado no âmbito da investigação em Psicologia Cognitiva, ramo da Psicologia que procura entender o modo como as pessoas percebem, aprendem, recordam e pensam sobre a informação.

    O grau de conhecimento sobre a memória é cada vez mais complexo, levando a que os resultados da investigação sejam sistematizados em torno de três níveis de análise: das estruturas de memória em que se descreve as propriedades funcionais específicas da arquitectura da memória; dos processos de memória, que corresponde ao conhecimento acerca das fases de codificação, armazenamento e recuperação da informação; e das representações de memória que se reporta às características da informação armazenada.

    É no contexto dos processos de memória que as memórias falsas, entendidas como a recuperação total ou parcialmente alterada de acontecimentos, têm vindo a ganhar relevância enquanto objecto de estudo, lançando pontes para outros tópicos dentro e fora do domínio da psicologia da memória.

    A memória é um dos aspectos mais fascinantes da mente humana, há mesmo quem defenda que não somos mais do que a colecção das nossas memórias. Mas apesar de fascinante e incrivelmente versátil, a memória humana é manipulável, de uma forma que diria até ‘preocupante’.

    Quase todos nós confiamos nas nossas memórias e somos capazes de descrever momentos do nosso passado como se estivéssemos a ver um filme e a vivê-lo ao mesmo tempo. Acontece que muitas das nossas memórias são deturpadas por outros acontecimentos da nossa vida sem que estejamos conscientes dessas alterações. Mais interessante é o facto de ser possível implantar memórias falsas nas pessoas sem que estas duvidem da sua veracidade e ajam de acordo com as mesmas.

    Um estudo levado a cabo por uma equipa de psicólogos australianos, liderada por Kimberley Wade, demonstrou ser possível criar falsas memórias através do uso de fotografias. Wade e os seus colegas pediram aos sujeitos da sua experiência que lhes fornecessem uma série de fotos da sua infância, antes das três entrevistas que cada sujeito teria de realizar. Os investigadores manipularam as fotos de forma a criarem uma fotografia dos sujeitos numa viagem de balão, algo que nenhum tinha experimentado enquanto criança. Nas entrevistas propriamente ditas, as fotografias fornecidas pelos sujeitos – incluindo a manipulada – eram apresentadas aos sujeitos para que estes contassem aos investigadores tudo aquilo que se recordassem da experiência retratada nas fotos.

    Todos os sujeitos foram capazes de se recordar dos eventos retratados nas fotos não manipuladas, mas, incrivelmente, um terço recordava-se da viagem de balão que nunca existiu! No final de cada entrevista, era pedido aos sujeitos que reflectissem sobre os eventos das fotos para as próximas sessões. No final da terceira entrevista, cerca de metade dos sujeitos recordava-se da viagem de balão sendo que em alguns casos as pessoas apresentavam uma recordação vivida do evento, ao ponto de se recordar do local e do preço dos bilhetes!

    Num outro estudo, uma equipa de investigadores conduzidas por Elke Geraerts estudou a forma como falsas memórias podem afectar o comportamento das pessoas. A equipa de investigação pediu aos participantes para preencher uma questionário sobre ‘comida e personalidade’ que depois seria introduzido num sistema informático que produziria um perfil das experiências alimentares dos sujeitos durante a infância. A uma parte dos sujeitos foi indicado que, em alguma altura  da sua infância, tinham ficado doentes devido à ingestão de uma sanduíche de ovo, facto que na realidade não tinha acontecido.

    Umas semanas mais tarde, os investigadores contactaram os participantes e verificaram que metade das pessoas a quem tinha sido dito que tinham ficado doentes após comerem uma sandes de ovo recordavam-se desse acontecimento. Quatro meses mais tarde, os participantes foram de novo contactados para participarem num estudo diferente, onde lhes era pedido para experimentarem e avaliarem uma série de alimentos e bebidas que lhes era colocado à escolha. Obviamente, tratava-se da continuação do estudo anterior.

    Desta feita os investigadores estavam interessados em saber se os participantes que tinham acreditado na história da doença causada pela sandes de ovo, experimentariam menos dessas sandes do que aqueles que não haviam acreditado na história ou do que os participantes do grupo de controlo a quem não havia sido dito nada acerca de um episódio de infância envolvendo um sanduíche de ovo. Os resultados demonstraram que a hipótese dos investigadores estava correcta!

    Estes estudos vêm demonstrar que as nossas memórias são maleáveis e facilmente nos podem induzir em erro. Isto é também um facto relevante do ponto de vista do marketing e dos estudos de mercado já que nem sempre aquilo que os clientes dizem corresponde a factos reais – embora o sejam para os consumidores e influenciem o seu comportamento.

    Por: Joana Dias

     

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