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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 30-11-2008

    SECÇÃO: Crónicas


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    As “noites brancas” de S. Petersburgo

    S. Petersburgo é conhecida mundialmente como “a Veneza do Norte” e a denominação ajusta-se-lhe em larga medida. Por razões históricas, geográficas e políticas, - a cidade adriática é muito mais antiga e já passara por diversas vicissitudes quando Pedro o Grande decidiu edificar S. Petersburgo; está localizada na região mediterrânica, tradicional via de comunicação e comércio entre o Ocidente e o Oriente, enquanto S.Petersburgo esteve mais distante das grandes rotas internacionais; deteve independência política ao longo de muitos séculos ao invés de S. Petersburgo que nasceu por vontade de um homem e, desde o primeiro instante, pertenceu à grande nação russa – afastam-se, mas ambas nasceram em terreno pantanoso, possuem grandes estradas aquáticas, constantemente sulcadas por barcos que transportam gente para o trabalho ou o lazer, residentes ou visitantes. Acima de tudo, são ambas belíssimas, embora de características diferentes.

    Uma dessas características é o que se convencionou chamar “Noites Brancas”, tempo em que uma alva se apressa em suceder a outra, dando à noite só meia hora, quando, durante toda a noite, o crepúsculo é tão claro que é possível ler sem luz eléctrica. Em S. Petersburgo, as “Noites Brancas” que começam em Maio e acabam em Julho, representam a melhor parte do ano: o número de pessoas nas ruas é quase igual ao do dia e, ao longo das avenidas marginais, a multidão é até maior; ouvem-se sons de música, gargalhadas, cantos ao violão; uns descansam nos pequenos restaurante e bares, outros passeiam em lanchas e barquinhos pelos rios e canais ou andam simplesmente pelos passeios para admirar as pontes levantadas. Este é um fenómeno exclusivo, pensa-se, desta cidade e motivo de orgulho para os peterburguenses: as estruturas metálicas das pontes erguem-se para deixar passar os navios em direcção ao golfo, o que constitui a principal atracção dos que nela habitam e dos forasteiros surpreendidos por tão insólito acontecimento. Às “Noites Brancas” estão vinculadas realizações culturais importantes: festivais das artes, de jazz e de rock, foros cinematográficos e também bailes dos formandos das escolas, para os quais as “Noites Brancas” personificam a maturidade.

    Em finais de Julho, não pudemos assistir à realização plena das “Noites Brancas” embora tivéssemos passeado pelas largas avenidas de S. Petersburgo até pouco antes da meia-noite, hora de regresso ao navio. É verdade que multidões ainda fruíam aquele fim de domingo, muitos barcos sulcavam os largos canais da cidade transportando gente embevecida com a beleza da paisagem em torno, mas já escurecia e a iluminação pública há muito fora acesa. O clima era ameno, logo convidativo ao convívio e à alegria partilhada. Não para nós que teríamos um dia seguinte bem preenchido.

    Para uma cidade tão rica de atracções, é difícil falar de um ex libris. Arriscar-me ia, no entanto a atribuir essa honra ao Ermitage Estatal. Iniciado por Pedro o Grande e instalado no Palácio de Inverno, residência dos imperadores russos, esta magnífica construção em estilo barroco tornou-se museu quando Catarina II, também chamada a Grande, adquiriu a colecção de pintura ao comerciante I. Gotzkovski. Esta colecção incluía 225 telas de pintores ocidentais de renome. Hoje, as colecções contam com cerca de 3000000 de obras expostas. O Palácio de Inverno, a que Catarina II mandou acrescentar um novo edifício para albergar as colecções que, sucessivamente iam sendo adquiridas, conta, actualmente, com 5 edifícios. Possui uma superfície de 75000 m2 com 322 salas onde coexistem pintura, cultura primitiva (um conjunto de antiguidades cítias única no mundo), cultura e arte do mundo antigo (77000 peças), variadas formas de arte da Europa Ocidental, história da cultura russa, numismática, um teatro, além de uma valiosíssima biblioteca e arquivos.

    Foto NUNO AFONSO
    Foto NUNO AFONSO
    Na impossibilidade de tirar significativo proveito duma tão curta visita a tão extenso complexo e uma vez que, em família, tínhamos visitado a amostra que esteve patente no Palácio da Ajuda em Lisboa durante vários meses, optámos por um passeio de barco pelos canais, sob a orientação da guia Natacha, experimentada nessas lides. Passámos em frente ao monumental Ermitage e ao Palácio de Catarina II e seus sucessores; vimos a Fortaleza de Sankt-Piter-Burg na ilha de Záiatchi, no delta do rio Neva, origem e núcleo da futura cidade e onde se erguem muralhas à volta da ilha com bastiões e cortinas (muros entre os bastiões) e a Catedral de S. Pedro e S.Paulo; não longe, impôs-se-nos a imponente cúpula da Catedral de Santo Isaac (101,5m), a quarta mais alta do mundo depois das de S.Pedro em Roma, S.Paulo em Londres e Santa Maria del Fiore em Florença; ladeámos o navio Aurora donde, em Outubro de 1917, foram disparados tiros de canhão, sinal dado aos soldados e marinheiros para irromperem no Palácio de Inverno e prenderem os membros do Governo Provisório presidido por Kerenski, dando assim início ao regime soviético. Relíquia do passado, merece das autoridades todo o carinho e mantém-se altaneiro à vista dos visitantes estrangeiros. Como é habitual, Natacha apresentou episódios da História do país de grande importância para a compreensão da cidade e do seu povo. Fomos brindados com a exibição de um grupo de artistas que executaram danças folclóricas e números de variedades, solicitando a participação dos visitantes, alegremente concedida. Festa de todos os sentidos a que um tempo magnífico – sol quente e brisa suave – deu notável contributo. Pena foi que o tempo tivesse transcorrido tão lesto.

    Na manhã do dia seguinte fomos conhecer Peterhof, uma da cidades satélites em que Pedro o Grande mandou construir residências oficiais. Neste espaço de 1000 hectares, o próprio imperador indicou o lugar da edificação de uma sumptuosa residência rodeada por mais de trinta edifícios e pavilhões, desenhou as plantas do traçado dos jardins, da disposição dos chafarizes. Inspirado em Versailles onde foram erigidas custosas instalações para pressionar a água, Pedro decidiu fazê-la correr por escoamento do outeiro de Ropsha. Peterhof tornou-se merecidamente famosa graças aos seus chafarizes, singulares instalações hidrotécnicas e, ao mesmo tempo, exemplos da arte decorativa monumental que causa uma inigualável sensação de folia da natureza e apoteose da força das águas. Descrever as maravilhas ali presentes – o grande palácio de Verão, os chafarizes decorados com estátuas douradas numa soberba alegoria histórica, os repuxos, as cascatas, os canais, os lagos, o denso arvoredo, os jardins muito bem cuidados – ocuparia muitas páginas e seria quase impossível transmitir o tropel de emoções que assalta os que têm a ventura de presenciar tal espectáculo. A construção desta jóia imperial decorreu entre os séculos XVIII e XIX e é um hino romântico difícil de igualar. Peterhof é talvez a pérola mais preciosa num colar de cidades satélites que ornamentam S.Petersburgo e onde Pedro o Grande fez construir uma série de faustosos palácios.

    No regresso, tive ocasião de conversar com Irina, a guia que nos acompanhou. Referira-se à Rússia como um país a caminho da democracia. Perguntei-lhe o que significava a expressão mas declarou-se incapaz de responder. Cautelosamente, também não soube dar opinião sobre os políticos que governam o país. De si falou um pouco mais: disse-me que os pais tinham feito sacrifício para que ela frequentasse a Universidade e que, agora, era tempo de retribuir ajudando a custear as despesas do irmão mais novo.

    Por: Nuno Afonso

     

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