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Edição de 30-11-2022
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    Arquivo: Edição de 30-06-2007

    SECÇÃO: Cultura


    AVE Jovem

    BEIJO DA MANHÃ

    Hoje acordei com o beijo da manhã pura a puxar-me os lençóis. Abri a janela e respirei o ar lá fora. Parece-me bem. O céu está com nuvens, mas não as suficientes para chover. O meu peito faz questão de me dizer que queria que chovesse. Aceito a ideia. Hoje o coração e a mente parecem concordar um pouco mais. E os olhos fecham-se na esperança de chover e ser a chuva a bater-me à porta. Abro a porta. É só o vento a entrar-me no corpo. Aquele vento frio que me deixa os dedos dos pés gelados. Visto a camisola de lã azul, visto as calças de ganga gastas. Ponho o gorro na cabeça, e deixo-me estar à espera. Só saio se chover, só saio se chover, só quero que chova, só saio se chover. Quero o frio na pele, e o quente no peito. O quente que me faz viver, e o frio que me faz sentir quente no meio do gorro e do cachecol. Sei que é só mais um frio, e só mais uma chuva, mas faz-me bem. Faz-me cruzar os braços e apertar quem está dentro do coração. Faz-me aconchegar a cabeça e reter para sempre aqueles que vivem lá. Faz-me querer a chuva para dançar na rua, sem nada, sem pensar sequer que tenho frio e é estranho. Quero ser eu, quero ser a essência pura do meu ser. Mas há sempre algo mais que não o permite, há sempre a velha história…

    Só saio se chover, só saio se chover, só quero que chova…

    Por: Sofia Nunes

    O NOSSO CÉU

    Os olhos despertam e nascem nas pálpebras fechadas. Os pés suspensos balançam ao mesmo tempo que o vento cá de cima. Os lábios bebem o que de melhor o céu tem…Bebem as estrelas e a cor azul…e os braços encostados à cabeça lembram o volume que já envolveram…o corpo balançante e bonito, cheio de luz. A lua lembra as noites em que os pezinhos saíam fora da cama e iam procurar as tuas mãos…iam procurá-las na noite. E os pés rodopiavam e dançavam como se não existisse o escuro. E quando eles te encontravam, sorriam com um sorriso de pés, e as minhas mãos sorriam com aquele sorriso de mãos, e agarravam as tuas. Os meus lábios diziam para vires dançar comigo lá fora, onde as estrelas brilhavam, e os teus lábios cegos de doçura diziam que sim, e as tuas mãos sorriam com as minhas e uniam-se num eclipse do sorriso. Lembro, os meus pés a dançar no escuro, e a deixar estrelinhas por onde pousavam, para os teus pés te guiarem, para não te perderes da minha dança. E eu dizia, vem, vem comigo dançar, as estrelas ainda voam tão alto, e a lua está à nossa espera, mas já vamos atrasados. E então corríamos mais do que os pés conseguiam correr, tanto ou mais que os nossos sonhos. Quando chegávamos, esperávamos pela resposta da lua. Atrasados dois minutos. Sempre atrasados. Os nossos pés perdiam-se uns nos outros. Não faz mal amor, a lua espera sempre por nós. E a lua lá do alto, dizia--nos sempre que sim, porque para nós a lua estava sempre lá, mesmo quando ela estava escondida atrás das nuvens. E as estrelas juntavam-se todas numa nuvem e vinham buscar-nos aos dois. E subíamos, subíamos, subíamos, observando atentamente os mil andares do céu. E a lua lá no alto, tornava-se mais aqui perto, e quando chegávamos sorriamos com os olhares estrelados, e as cabeças aluadas. Primeiro sentavas-te tu e eu a seguir a ti, na curvinha da lua. Quem acordasse àquela hora e olhasse pela janela, via dois pontinhos escuros na lua, e pensavam, olha as crateras da lua…éramos nós. Ficávamos a dançar, e a inventar músicas nossas, a juntar as mãos e braços com ombros. Ficávamos até a noite nos dizer que as estrelas iam partir. Depois as estrelas juntavam-se outra vez e levavam-nos de novo para baixo. E de dia suspirávamos pela lua e pelos nossos pés a dançar. E de noite voltávamos lá. E sabia bem amor. Já não se vêem os nossos pontinhos na lua, e os meus pés deixaram de dançar. Somos amor em sonhos…

    Por: Sofia Nunes

     

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