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Edição de 30-11-2022
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    Arquivo: Edição de 30-06-2007

    SECÇÃO: Crónicas


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    Nacionalismo antroponímico

    A onomástica faz parte do património de um povo, daí a preocupação das autoridades em preservarem a autenticidade da antroponímia, um dos ramos mais importantes daquela disciplina. Ao longo de séculos repetiram-se nomes como Manuel, José, João, António, Joaquim, Jorge, Carlos e, com menos frequência, Abílio, Adriano, Albano, Alberto, Alípio, Amaro, Baptista, Jacinto, Pedro, Xavier. Ainda mais raros eram nomes de origem judaica como Isaías, Abel, Adão, Isaac mais tarde aportuguesado para Isaque, Isaías, os derivados de nomes já existentes como Adalberto, Norberto, Gilberto, Roberto, Segisberto, Antonino, Adrianino, Albertino. No feminino, abundaram sempre as Marias disto ou daquilo, em tal forma que raríssima era a mulher que não tinha Maria como primeiro ou segundo nome. Ana e Isabel, igualmente de ressonância bíblica por terem sido esses os nomes da mãe e da prima da Virgem Maria, seguiram-se na preferência dos progenitores. De origens antigas: romana, casos de Marco, Plínio, Catulo, Terêncio, Tito, Virgílio, Lígia, Lívia; visigótica, os Ramiros, os Rodericos (Rodrigos), Albericos; árabe de que são exemplo os Albertos, Albanos, Albinos, Alcinos Alfredos e Almiros. De línguas modernas foram introduzidos, em Portugal, em épocas diversas, muitos nomes que adaptámos ao nosso idioma. E, se a fontes antigas se foram buscar antroponímicos que, depois, se tornaram comuns, nos tempos recentes, tornou-se muito mais apertada a vigilância sobre a “legitimidade” dos nomes próprios que os pais desejam atribuir aos seus filhos.

    Quase todos temos uma história para contar em relação a este assunto, ou talvez mais. Sabendo que gostos não se discutem, mas podem ser contrariados por uma espécie de autoridade que vela para que não resulte do gosto paterno uma excentricidade que venha causar vergonha ou incómodo ao detentor de um nome estranho, parece-me legítima a aprovação ou denegação, em sede de registo civil, de um nome inadequado. Já contei, em trabalho publicado neste jornal, como da pretensão de um parente meu em dar um nome incomum à sua filha resultou a recusa do chefe do Registo Civil e um nome improvisado que a criança de então teve de usar para o resto da vida. No sentido positivo, recordo o caso da minha filha à qual desejei dar um nome, que não foi aceite, e hoje me felicito por assim ter acontecido.

    Durante a Segunda Grande Guerra, o meu tio Manuel baptizou o seu cão com o nome de Hitler. No Brasil, onde a liberdade é total, daí resultando nomes estapafúrdios como os leitores sabem conheci homens com o nome do fuhrer, de Churchill, de Lenine, de Estaline, de Marx, de John Kennedy, algumas vezes juntos na mesma pessoa. É frequente um recém-nascido receber uma identidade que resulta da mistura dos nomes do pai e da mãe: Mariovaldo ou Wanderlea. O uso de nomes indígenas foi prática seguida e bem aceite pelas populações no que diz respeito, sobretudo, à toponímia, ou seja, aos nomes dos Estados e das cidades, mas também aos nomes de pessoas como Ubirajara. Quando alguém pretende falar da extensão do território brasileiro e dos seus limites a norte e a sul, diz: “ do Oiapoque ao Chuí”, sendo o primeiro desses vocábulos o nome dum rio, no Estado do Amapá, que separa o Brasil da Guiana Francesa no extremo norte, enquanto o segundo identifica um pequeno riacho no ponto mais meridional do Rio Grande do Sul e que marca a fronteira entre o Brasil e o Uruguai, designativos de procedência indígena. Alguns Estados brasileiros receberam nomes originários das línguas tupis (Amapá, Piauí, Pará, Paraná, Pernambuco, Paraíba) assim como inúmeras cidades (Maringá, Mandagauaçu, Apucarana, Ubiratan, Curitiba, Araraquara, Piracicaba, Iguaçu, Parati, Tabaquara, Saquarema, Sucupira) e até bairros (Copacabana, Ipanema, Tijuca.

    Ilustração RUI LAIGINHA
    Ilustração RUI LAIGINHA
    – Me vê aí uma cervejinha estupidamente gelada, seu Manuel! – pede o cliente ao português da velha geração.

    – Eu não me chamo Manuel – corrige o patrício – o meu nome é Abílio.

    – Me desculpa, mas português ou é Manuel ou é Joaquim – conclui o primeiro.

    É deste modo que os portugueses costumam ser chamados. Injustamente, tal como acima afirmei. Será o mesmo que dizer que todos os alemães são Fritz ou Hans, os espanhóis Manolo ou Ramón, os russos Bóris ou Wladimir.

    Na freguesia onde cresci, havia nomes variados para além dos tradicionais. Registam-se: Bento, Carolino, Juvenal, Serafim, Amaro. Conheço Marino, Lucínio, Sesinando, Franquelim (à portuguesa) Hoje, com a abertura das fronteiras, em resultado da imigração ou da livre circulação dentro do espaço da União Europeia, teremos, com todas a certeza, mudanças significativas neste domínio e que nem por isso significarão desvirtuamento da nossa identidade.

    Por: Nuno Afonso

     

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