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    Arquivo: Edição de 15-02-2007

    SECÇÃO: Editorial


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    Era uma vez uma tangerineira

    Estávamos em Março de 1944 e, como de costume nas terras da Maia, realizava-se a Feira de S. José. Acontecimento de grande importância para os lavradores destas redondezas. Aproveitava-se para comprar alfaias agrícolas e árvores de fruto e confraternizar um pouco, como em todas as feiras anuais, lugar de trocas, de conhecimentos, de namoricos.

    Nesta feira apareciam sempre citrinos à venda e o meu pai foi à feira de S. José para comprar uma árvore, a minha mãe aguardava o meu nascimento e o meu pai queria assinalar o meu nascimento plantando uma árvore. E assim se fez.

    Em 1944 os meus pais não sabiam de que sexo seria o filho que ia nascer, mas ambos gostavam que fosse uma menina de tal maneira que o meu pai escolheu uma tangerineira, estranha escolha, uma planta exótica, porque não um carvalho?

    A árvore foi guardada e só foi plantada na tarde do meu nascimento, foi plantada com muita alegria e desde pequena que os meus pais me falavam desse dia, dessa árvore a tangerineira da Fernanda.

    Eu cresci, ela também, forte frondosa. Enchia-se de flores brancas perfumadas e eu trepava para os seus troncos como para o colo da minha mãe, tinha uns troncos macios de tanta vez escorregar nela. No Verão a sua copa compacta de pequenas folhas criava uma sombra intensa onde eu brinquei muitas vezes. Aquela copa protegia-me, marcava o meu território, o meu lugar privilegiado durante muitos anos…

    Quando era muito pequena as suas folhas eram as minhas sardinhas que eu colocava numa canastra e apregoava: Sardinhas fresquinhas e boas! Quem quer comprar?

    Mais tarde era um lugar de leitura e descanso, ainda aguentou como apoio duma rede que eu trouxe do Brasil, onde sonhava com o futuro e, por vezes, dormia umas belas sonecas.

    Era altiva senhora do seu nariz, tal qual a dona, nenhuma planta ou erva daninha crescia debaixo do seu território, de raízes abundantes e bem firmes necessitava de muita água e procurava-a crescendo e duplicando as suas raízes.

    Generosa na suas dádivas quer em frutos quer em folhas, no Outono algumas folhas caíam e formavam um tapete multicor ao seu redor.

    A terra cresceu e com ela as construções e os cimentos, eu deixei de a visitar e parece-me que ela não gostou. Apertaram-lhe demasiado as raízes entre pedras e cimento, faltou-lhe a água onde as mergulhava: – modernices, pensou ela…

    Ainda lutou uns tempos, eu ainda a visitei e tive muita pena dela, senti na pele o seu sofrimento e acima de tudo o seu desconforto, nesta terra onde já ninguém lhe ligava, donde os passarinhos fugiram, já não havia quem escorregasse no seu colo, não aguentou a solidão... e partiu.

    Um dia procurei-a e não a encontrei, partiu, espero que tenham sabido aproveitar o calor dos seus ramos e o aroma da sua madeira…

    Esta era a minha árvore, esta era a marca e a minha certeza de como eu fui desejada e amada.

    Tal como eu, espero que cada vez mais, as crianças que nasçam por este mundo fora, sejam tão desejadas como eu fui.

    Por: Fernanda Lage

     

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