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    Arquivo: Edição de 15-05-2006

    SECÇÃO: Cultura


    AGORARTE RUMA A TORMES

    Impressões de uma viagem inesquecível!

    «A chegada de Jacinto à Quinta de Tormes, por aquela avenida de faias, que lindeza e que paz!»

    Eça de Queirós, in "A Cidade e as Serras"

    Foto MANUEL VALDREZ
    Foto MANUEL VALDREZ
    6 de Maio foi a data aprazada para a jornada que levaria associados e amigos da Agorarte – Associação Cultural e Artística, a terras de Santa Cruz do Douro, mais propriamente até Tormes, nome imortalizado pelo genial escritor que, em vida, se chamou José Maria Eça de Queirós.

    Logo na sequência do lançamento das denominadas "Conferências de Ermesinde", cujo epicentro foi exactamente a figura deste extraordinário vulto da História da Literatura Portuguesa – a quem os nossos irmãos brasileiros dedicam, aliás, uma ternura muito especial – ficara decidido que, ao jeito de romagem, nos haveríamos de encontrar naquele recanto abençoado daquela "serra bendita entre as serras".

    Por isso, naquela manhã soalheira a que, seguindo o autor de "A Cidade e as Serras", bem se poderia chamar de rosas, logo pelas nove horas se começou a notar um desusado movimento na nossa estação, tendo em conta naturalmente que se tratava de um sábado!

    Eram cerca de quarenta pessoas à espera do comboio que as levaria até à estação de Aregos.

    A viagem até Caíde – onde haveria transbordo – decorreu em animada cavaqueira, permitindo fazer novos conhecimentos e aprofundar amizades que hão-de permanecer pela vida fora, merecendo justificado destaque a “Veneranda Academia do Filosofar com Pachorra e Facúndia”, que fez questão de nos acompanhar e que com suas vestes, atavios e muita simpatia deu cor e brilho ao grupo.

    Depois de Mosteirô, vamos ter o Douro por companhia. Chama-se a atenção para a belíssima ponte que ali une as duas margens do rio e cujo traço se deve à enorme criatividade de Edgar Cardoso.

    O Douro agora – e fruto das muitas barragens que lhe foram domesticando os ímpetos –, já não é o rio brigão, imponente, irascível de outros tempos, que impunha respeito aos inúmeros rabelos que desciam esta estrada fluvial carregados de dezenas de pipas de vinho generoso com destino ao cais de Gaia.

    Era aqui, em Porto Manso, que muitos arrais achavam abrigo para descansar um pouco das suas duríssimas fainas, ao desafiarem os rápidos e cachões em que o rio era fértil!

    Surge então a ocasião para evocar um outro grande escritor português do chamado período neo-realista, Alves Redol, que nos narra com grande vigor o drama dos barqueiros do Douro, arruinados pela chegada a estas paragens do caminho de ferro.

    Sempre o custo implacável do progresso!

    UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL!

    «A chegada de Jacinto à quinta de Tormes, por aquela avenida de faias, que lindeza e que paz! Na horta, repolho, feijoal, talhos de alface, gordas folhas de abóbora rastejando». Eça de Queirós, idem

    São onze e vinte – mais coisa, menos coisa – quando chegamos à estação de Aregos.

    À nossa espera, estão Pereira Cardoso, vice-presidente da Associação dos Amigos de Eça de Queirós e Marisa Cleto, da Associação Cultural e Recreativa de Santa Cruz do Douro.

    À saída da estação, Pereira Cardoso aproveita para nos explicar minuciosamente quatro magníficos painéis em mosaico românico, executados pelas mãos hábeis dos artífices da Cooperativa Cultural "Fonte do Mel".

    O primeiro faz uma clara alusão ao progresso que sempre representarão a Torre Eifel e o comboio, com um 202 que, na imaginação fértil de Eça, corresponderia ao número da casa de Jacinto nos Campos Elíseos, em pleno coração da cidade-luz.

    O segundo, numa alegoria clara à imortal obra de Cervantes – "D. Quixote de La Mancha e seu servo Sancho Pança" – mostra-nos Jacinto e Zé Fernandes, escarranchados em duas bestas a caminho da Quinta de Vila Nova (leia-se Tormes).

    O terceiro é também uma alegoria a Ulisses, o mitológico herói grego, dado como fundador da nossa cidade de Lisboa.

    Finalmente, o quarto é uma mesa posta a evocar o "jantarinho de suas incelências" que regalou os paladares requintados daqueles dois dignos representantes de uma civilização que ainda não houvera chegado àquelas terras!

    "PÉS LIGEIROS" DESBRAVARAM OS CAMINHOS DE JACINTO!

    Eça, quando em 1892 ali estivera pela primeira vez, escrevendo a sua esposa D. Emília, dizia:

    «O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso, vales lindíssimos, soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte».

    Evocado este belo trecho queirosiano, não foi preciso mais nada para animar o grupo: 34 entusiastas optaram pelo passeio pedestre!

    O percurso não era fácil e havia até pessoas que não iam prevenidas com o calçado adequado para calcorrear tais caminhos.

    Todavia a debandada foi geral !

    Pereira Cardoso, servindo de guia, arrumado a uma vara de romeiro dos Caminhos de Santiago, pôs-se, lesto, ao caminho. As expectativas eram de hora e meia a subir cangostas empinadas, difíceis!

    Para o autocarro ficaram meia dúzia de pessoas!

    Tivemos, porém, ensejo de fazer uma paragem junto da Casa do Lodeiro, para evocar a figura de outro extraordinário homem de letras que foi Camilo Castelo Branco.

    Ali se desenrolou o pungentíssimo drama de Fanny Owen, de que Camilo também foi protagonista, e que Agustina Bessa Luís tão bem nos narrou.

    Não pudemos deixar de sentir uma forte indignação perante o aspecto de abandono a que aquela histórica casa está votada! O matagal e as ervas daninhas que ali medram à tripa forra, quase sufocam a construção e já nem é possível vislumbrar a eira onde Manuel de Oliveira filmou algumas cenas do seu filme "Francisca". Uma lástima!

    Chegados a Tormes, os utentes do autocarro puderam regalar com as vistas soberbas que, da eira da quinta, se espraiam pelas encostas do Montemuro.

    Lá em baixo. O Douro, preguiçosamente, lá se vai mexendo rumo à foz!

    TAL COMO ANTANHO

    «Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o aviso do "jantarinho de suas incelências"». Eça de Queirós, idem

    De súbito, eis que começam a aflorar nas dobras do caminho os primeiros caminheiros, em fila indiana, como que a significar as asperezas da subida!

    O Dr. Abel Mendonça faz troar pelas quebradas a sua voz forte de magistrado, desejoso de ver chegar os companheiros.

    A concentração faz-se na eira que, tal como antanho, domina, soberba, todo o amplo vale.

    Tudo está pronto na Sala do Lagar para atacar o almoço. É o que se faz, com o apetite bem desperto!

    Começa-se pelas entradas: Pataniscas de bacalhau muito boas, um salpicão bem temperado, marmóreo, tenríssimo e com uma pontinha de gordura que faz deste enchido uma referência em Baião, um presunto maravilhoso, amanteigado, com a cura no ponto certo e, finalmente, umas azeitonas bicais de fazer crescer água boca.

    Como a Jacinto, pareceu-me que, todavia, era o premiadíssimo vinho da Casa quem ali era o rei! De facto, "nada os entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde - um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo."

    A seguir, foi a vez da canja. Tal como Eça a descreve, "era de galinha, com moela e tudo."

    Porém, foi a chegada do arroz de favas que provocou a grande surpresa. Pareceu-me ouvir Jacinto outra vez, a exclamar:

    "Desse arroz com fava, nem em Paris, Melchior Amigo!"

    O frango alourado estava bom, de boa carnadura.

    Para a sobremesa, a Casa do Lavrador brindou-nos com um magnífico creme queimado, uma aletria gostosíssima e com canela quanto baste e... imaginem, cerejas, rubras cerejas, carnudas e madurinhas!

    Findo o café, tomado na eira, estava na hora de começar a visita à Casa que é hoje a sede da Fundação Eça de Queirós.

    A MESA DOS ESPÍRITOS

    «Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela pedra. Mas os caseiros que lá vivem há trinta anos, dormem em catres, comem o caldo à lareira, e usam as salas para secar o milho». Eça de Queirós, idem

    Quantas emoções se experimentam ao passar as ombreiras daquela porta e ao acharmo-nos naquele primeiro e amplo salão por onde, invariavelmente, e começam as visitas!

    Está ali a mesa onde Zé Fernandes e Jacinto comeram o arroz de favas , o arcaz da sacristia, a cadeira de espaldar que aparece assim descrita no livro referenciado:

    «Cadeira senhorial reservada ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia em melenas pelos rasgões do assento puído».

    Quem não a identificou logo?

    Passamos, depois, pela sala museu, onde estão, muito alinhadinhos, livros que pertenceram à biblioteca particular do escritor, uma pequena cómoda de estilo francês, o ficheiro onde Eça guardava o produto de várias horas de trabalho.

    E há as fotografias que el-rei D. Carlos ofereceu ao escritor, e da Rainha D. Amélia, que assim quis mimosear a senhora D. Emília, sua esposa.

    Em lugar de destaque, um quadro a óleo - "Monte Alentejano" – datado e assinado pelo próprio punho do penúltimo Rei de Portugal. Outra magnífica prenda!

    Na sala de estar, houve que espreitar para o armário-vitrine onde estão vários objectos pessoais, como : as alianças de casamento, porta-libras, alfinete de gravata, botões de punho, a Cruz da Legião de Honra o agraciou, um fio de ouro que foi de D. Emília, rendas de Bruxelas, alguns monóculos e um "lorignon".

    Mas nada suscitou maior curiosidade que a pequena mesa redonda, chamada "mesa dos espíritos", testemunha que foi de sessões espíritas, muito em voga na época, que preencheram alguns serões da casa de Neully-sur-Seine, com a perticipação de Eduardo Prado, um grande amigo brasileiro que era visita assídua e muito benquista.

    Mas a sala de jantar, o quarto (mobilado ainda com os trastes que petenceram a Eça), a cozinha e a capela de Santo António são locais que guardam ciosamente muito do espólio que, em vida, foi usado correntemente pelo inolvidável escritor.

    Melhor, todavia, que descrevê-las é ... ir vê-las!

    Como nós – fica a sugestão – façam-se romeiros e... ala até Tormes!

    Por CARLOS DA MAIA

     

     

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