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Edição de 31-07-2020
Jornal Online

SECÇÃO: Crónicas


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A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA (11)

A Primeira Guerra Mundial nas colónias portuguesas africanas

O tema desta nossa crónica foge um pouco àqueles apontamentos que temos vindo a fazer relativamente a alguns dos mais importantes episódios bélicos no que toca à luta que tradicionalmente vinha opondo os povos autóctones, seus reinos e tribos, às forças europeias ocupantes ou, em sentido oposto, se preferirem, à destas àqueles, no sentido de afirmarem a sua soberania num território que aos mesmos foram conquistando ao longo do tempo. E porque a nossa série de narrativas vem seguindo, mais ou menos, uma certa sequência cronológica, vamos hoje abordar o alastramento da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a África, particularmente as suas repercussões mais significativas nas nossas principais colónias africanas: Angola e Moçambique. Ora, como sabemos, o conflito militar opôs, básica e inicialmente, o bloco da designada Tripla Aliança, integrando os impérios Germânico, o Austro-Húngaro e o reino de Itália, ao bloco da Tríplice Entente, que incluía a França, o Reino Unido e o império Russo, sendo que, posteriormente, outros países se foram juntando a cada um dos blocos.

Do que foi a participação de Portugal no conflito na chamada Frente Ocidental, através do Corpo Expedicionário Português (CEP), cerca de 55.000 homens, sob o comando do General Tamagnini de Abreu, militares preparados à pressa, em Tancos, mas que se bateram galhardamente na Flandres, naquela terrível guerra de trincheiras, especialmente na batalha de La Lys, em 9 de Abril de 1918, aqui sob o comando do general Gomes da Costa, já muito se tem falado, sendo, por isso, sobejamente conhecida. Já a mobilização de tropas para a defesa dos nossos territórios ultramarinos da cobiça germânica, tendo em vista a manutenção da integridade territorial do império, é bem menos conhecida, não obstante ter envolvido quase uma terça parte das forças lusas mobilizadas para este conflito mundial.

O GENERAL PAUL EMIL VON LETTOW-VORBECK COMANDOU AS TROPAS ALEMÃS EM MOÇAMBIQUE
O GENERAL PAUL EMIL VON LETTOW-VORBECK COMANDOU AS TROPAS ALEMÃS EM MOÇAMBIQUE
Relativamente aos combates na fronteira sul de Angola com os alemães da então designada República do Sudoeste Africano, já aqui falámos, quando abordámos o chamado “Desastre de Naulila”. Com efeito, entre meados de Outubro e meados de Dezembro de 1914, tropas alemãs invadiram o território sob administração portuguesa do sul de Angola e atacaram os postos fronteiriços de Cuangar e Naulila, respectivamente, dizimando a maior parte das respectivas guarnições. Por essa mesma ocasião, foram atacando as localidades de Bunja, Sâmbio, Dirica e Mucusso, apoiadas por forças autóctones, especialmente Cuamatos e Cuanhamas, cuja revolta vinham incitando contra a presença lusa. Tudo isto sem que tivesse havido sequer um corte de relações diplomáticas entre os dois países beligerantes, muito menos qualquer declaração oficial de guerra. Acresce dizer que, na sequência destes ataques, as tropas portuguesas recuaram nas suas posições, concentrando-se na defesa da cidade do Lubango. Mas como os alemães estavam a ser acossados pelos sul-africanos, com quem tinham igualmente de se haver, sendo estes em muito maior número, particularmente desde meados de Setembro de 1914, altura em que estes iniciaram as hostilidades, acabariam por não ocupar efectivamente as posições conquistadas aos portugueses. Entretanto, a 9 de Julho de 1915, acabariam por se render definitivamente aos sul-africanos. Daí que a expedição que partira de Portugal, em Fevereiro de 1915, sob o comando do general Pereira D’Eça, com vista à recuperação daquela porção do território conquistado pelos alemães, tivesse, por já não ser necessário, reformulado o seu plano operacional, centrando o seu objectivo na “pacificação” do território Cuanhama, onde reinava o famoso monarca Mandume, de que aqui falámos na nossa última crónica, a propósito da batalha de Mongua.

Entretanto, já a 24 de Agosto desse mesmo ano, tropas alemãs da sua colónia contígua designada África Oriental, igualmente apoiadas por forças indígenas locais, haviam atravessado o rio Rovuma, que servia de fronteira, e invadido o norte de Moçambique, dizimando quase toda a guarnição portuguesa do pequeno posto administrativo de Maziúa, composta por um sargento-enfermeiro e meia dúzia de cidadãos indígenas, salvando-se apenas aqueles que conseguiram fugir ao ataque.

Recorde-se que só em Março de 1916, a Alemanha viria a declarar oficialmente a guerra a Portugal, na sequência da apreensão dos navios alemães ancorados no rio Tejo, a pedido dos nossos velhos aliados ingleses, que tudo vinham fazendo para que Portugal se não envolvesse nem declarasse sequer a sua posição, fosse ela de neutralidade ou não. Internamente, as forças políticas da jovem e periclitante república portuguesa, em que os golpes de estado se sucediam dramática e vertiginosamente, dividiam-se relativamente à questão de se dever ou não entrar aberta e declaradamente no conflito. Contudo, já no tocante à defesa das colónias parecia haver unanimidade. Daí que por decreto de 18 de Agosto de 1914, o governo tivesse criado duas expedições militares destinadas uma a Angola, outra a Moçambique, comandadas, respectivamente, pelos tenentes-coronéis Alves Roçadas e Massano de Amorim.

Da primeira já aqui falámos. No que concerne à segunda, esta tinha por missão combater os alemães no norte de Moçambique que, violando o internacionalmente acordado na Conferência de Berlim (1884-85), em que era reconhecida a Portugal a posse do território situado a sul do rio Rovuma, haviam ocupado em 1894 o designado “Triângulo de Quionga” e, como se disse acima, em Agosto de 1914, atacado e chacinado o pessoal em serviço no posto administrativo de Maziúa. Toda essa área havia sido concessionada à Companhia do Niassa, para que a administrasse, dotando-a dos meios necessários à comunidade local: abertura de estradas, instalação de escolas, hospitais, missões… Mas… nada! Limitou-se a Companhia a cobrar os impostos alfandegários e o m’soco, vulgarmente conhecido por imposto de palhota.

Vários confrontos se travaram entre as tropas portuguesas e alemãs, sendo que estas, dada a sua superioridade bélica e dispondo de pessoal mais bem preparado para aquele tipo de combate, quase sempre levaram a melhor. Há até quem diga que aqui sofremos a maior derrota da nossa História, logo a seguir a Alcácer-Quibir. Estima-se que terão aqui morrido mais soldados portugueses do que os que caíram nos campos de batalha, nas trincheiras da Flandres. Não tanto em resultado dos combates directos com as forças inimigas, mas, sobretudo, devido à falta de preparação para a sobrevivência naquele tipo de ambiente, especialmente o clima e o relevo. A título de exemplo, rezam as crónicas que, só na quarta expedição que, a partir de Novembro de 1917, combateu as tropas alemãs no norte de Moçambique, comandadas pelo famoso coronel Paul Emil Von Lettow-Verbock, que haviam invadido o território, se perderam mais de 4.800 homens. Ao todo, nestes combates contra os alemães, ou por causa deles, em Moçambique, as tropas portuguesas perderam 6.395 homens.

Com efeito, a fome, a sede, alguma incúria, mas particularmente as doenças, o paludismo, a disenteria, as febres, a escassez de medicamentos, enfim, não constituíram, sem dúvida, inimigos de somenos. Recorde-se que o primeiro antibiótico, a penicilina, só apareceu no mercado muitos anos mais tarde, em 1941. Logo, não será difícil imaginarmos o quão fácil era morrer duma septicemia, em resultado de ferimentos provocados pelas armas inimigas, pelas lesões de acidentes ocasionais próprios de vida em campanha na inclemente selva africana, de cirurgias feitas em tendas improvisadas, sob um sol escaldante, onde pululam insectos de toda a espécie, sem o mínimo de condições de assepsia, em que grassavam as infecções e a gangrena. Mas isto, obviamente, ocorria em todas as expedições militares relacionadas com as chamadas “Campanhas de Pacificação” de que aqui vimos falando.

(...)

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Nota: o autor opta por utilizar a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

Por: Miguel Henriques

 

 

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