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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 30-06-2020

    SECÇÃO: História


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    MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE (15)

    Medicina Popular

    Num momento em que o país e o mundo andam ainda consternados com a pandemia Covid19, achámos interessante partilhar com os leitores algumas formas de “medicina popular” aqui utilizadas em tempos idos. À semelhança do que acontecia com outras comunidades neste país, o isolamento e muitas vezes a ignorância obrigaram as pessoas a encontrarem, aqui, elas próprias e à sua volta, a solução para os seus próprios problemas. São saberes adquiridos e aperfeiçoados ao longo de gerações, quase sempre escondendo uma explicação científica que, quantas vezes, evitaram a morte e debelaram males do corpo e da alma.

    É certo que à falta de soluções e poderes que a natureza que os rodeava, muitas vezes, não lhes podia dar, os nossos antepassados recorreram a práticas e a mezinhas que nada podiam fazer, mas que, pelo menos, tinham o condão de prolongar a esperança e psicologicamente alimentar a crença na melhoria.

    Todo este conjunto de plantas que eram utilizadas para fins medicinais, têm o seu lugar na história cultural da nossa terra e, por isso, vamos aqui referi-las, sobretudo as mais utilizadas. Veremos, hoje, os efeitos de algumas infusões e a forma de tratamento de feridas, sempre com o recurso a espécies vegetais.

    INFUSÕES

    Os principais chás aqui receitados eram:

    Cidreira - Rara era a casa com terreno que não plantasse esta erva aromática, quase sempre fervida em verde. Destinava-se a curar dores de cabeça e outros males físicos.

    Folha de laranjeira - Usava-se para tratar de doenças de garganta. Muitas vezes era-lhe acrescentado uma gema de ovo, pois acreditava-se que assim a cura era mais rápida.

    Flor de sabugueiro - Infusão para tratamento de doenças de olhos.

    Casca de cebola - Este chá era destinado a tratar da tosse, das constipações e sobretudo da rouquidão.

    Pulitária, (alfavaca de cobra e mesmo parietária judaica) - Infusão obtida a partir de uma planta que se encontra facilmente nos muros e paredes.

    É utilizada no tratamento das vias urinárias e, externamente, na cicatrização de feridas.

    Malvas - Embora aqui fosse usada mais no tratamento de feridas, esta infusão destinava-se a aliviar estados inflamatórios da boca e garganta, através de bochechos e gargarejos.

    Barbas de Milho - Infusão destinada ao tratamento do mau funcionamento da bexiga.

    Erva de S. Roberto - Usava-se no combate a inflamações intestinais, hemorróides e diabetes.

    Além destes, embora menos frequentes, utilizava-se o chá de marcela(2), ou simplesmente camomila, como digestivo, o de tília, com o mesmo fim, o de folhas de oliveira, para os nervos, erva de S. João, para as depressões, folhas de eucalipto para a tosse, rouquidão e bronquite, bem como outros com um carácter mais íntimo(3), como o chá das sete sangrias e o chá de absinto para as dores menstruais.

    VÁRIOS PÉS DE CONCHELOS, NUM MURO
    VÁRIOS PÉS DE CONCHELOS, NUM MURO

    TRATAMENTO DE FERIDAS

    Malvas - As folhas de malvas, depois de passadas por água quente, eram aplicadas no tratamento de feridas infectadas, nomeadamente de frieiras.

    Eucalipto - Estas folhas depois de fervidas com água destinavam-se à lavagem de feridas.

    «Conchelos» - Aplicavam-se(4) sobretudo em «espinhas» e furúnculos.

    Depois de separados do caule eram colocados sobre a parte doente, geralmente à noite, e depois de cobertos com uma ligadura ou simples pano, só restava esperar pelo outro dia para ver se os mesmos estavam secos.

    Erva das Verrugas - Destinavam-se ao tratamento das impigens e cravos. Com o líquido amarelo que estas plantas libertam, cobriam-se estas mazelas que, ao fim de alguns dias, desapareciam. Não devia haver sangue, pois estas plantas são agressivas para as feridas. Dão uma flor amarela.

    Folha de Língua de Ovelha (Erva das sete linhas e mesmo calracho, carrajó) - Depois de tiradas as nervuras(5) e untada com azeite, a folha era colocada sobre a parte dorida e ligada por cima com um pano, ou compressa.

    Espigas de centeio - Utilizava-se para tratar infecções, nomeadamente as provocadas por ferros ferrugentos, como pregos velhos. Ferviam-se espigas de centeio em azeite e depois deixava-se escorrer esse líquido quente da espiga sobre a ferida. Como é óbvio, o paciente passava por uma situação terrivelmente dolorosa.

    Teias de aranha - Embora quase esquecido, houve tempos em que era costume, para curar uma ferida, colocar sobre a mesma uma teia de aranha.

    1- Este artigo (texto e foto) baseia-se na publicação do autor, “Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”. O autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

    2- Nalgumas terras diz-se macela, mas ambas as palavras estão dicionarizadas.

    3- Chá das sete sangrias – Planta de flor azul, que se encontra nas nossas bouças a partir da qual se faz um chá, pouco falado, uma vez que o mesmo, ao que se diz, tem propriedades abortivas. Pelo que conseguimos apurar, esta infusão está rodeada de um certo mistério, o que leva as pessoas a não falar muito sobre ela. Sabe-se, no entanto, que era tomado durante sete dias, que era amargo e que a sua aplicação está ligada ao sangue. Em algumas terras tomava-se, quando havia feridas, com sangue à vista.

    4- Em Ermesinde diz-se erradamente «cancelos». Tem vários nomes, conforme as regiões do país, embora, aqui, também sejam conhecidos pelo nome de «Umbigo-de-Vénus». O nome científico é «umbilicus rupestrus».

    5- Na nossa região era conhecida, também, por língua de vaca.

    Por: Jacinto Soares

     

     

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