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Edição de 30-06-2020
Jornal Online

SECÇÃO: Crónicas


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Em torno de um nome

O bonde, vindo da Zona Sul, deixava atrás de si o Largo do Machado e entrava na rua do Catete onde, lá mais adiante, ficava o Palácio Presidencial com o mesmo nome, palco em que Getúlio Vargas se havia suicidado em agosto de 1954 não conseguindo resistir aos ataques da oposição liderada pelo fogoso jornalista e político Carlos Lacerda. O negro Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do Presidente,envolvera-se ativamente na ação política tomando parte num atentado contra o referido jornalista(1). Pressionado pelo Congresso e pelas Forças Armadas, Getúlio preferiu o suicídio à humilhação.

-“Do palácio presidencial só sairei cadáver!–terá declarado Getúlio Vargas à imprensa pouco antes de ter dado um tiro no coração.

Ainda na Rua do Catete teve o meu pai um café, bar e restaurante a duas centenas de metros do palácio. Também aqui havia um Gregório, este bem mais modesto, que exercia a profissão de engraxador de sapatos por conta de outrem. Não tinha casa e dormia, pouco menos do que ao relento, no exíguo espaço da banca em que exercia o ofício. Esperava, pacientemente, que seu Afonso chegasse para abrir o estabelecimento um pouco antes das oito horas e cumprimentava-o com deferência estendendo-lhe a mão.

- “Pé de porco só cozido”- gracejava o meu pai a aceitar o cumprimento e oferecendo-lhe o pequeno-almoço habitual: média(2) e pão “francês” com manteiga. Nem era preciso convidá-lo porque o Gregório já entrava sem cerimónia e punha os braços em cima do balcão à espera que a máquina de café aquecesse e a comida viesse reconfortar-lhe o corpo e a alma. Bem precisava porque era parca a retribuição salarial e outra não almejava por carência de atributos intelectuais e profissionais.

Lembrei-me desses Gregórios ao ler na revista “Visão” a crónica do escritor angolano José Eduardo Agualusa sob o título “Uma Volúpia Carmim”. Porém o que distinguia esse Gregório era o facto de ser, não uma pessoa como o leitor ou eu próprio, mas um bode que exercia o ofício de carteiro informal na cidade do Dondo em Angola: alguém que quisesse enviar uma comunicação a um conhecido ou amigo residente na cidade prendia o recado aos chifres do bicho e dizia-lhe: «entrega isto ao padeiro, ao açougueiro…» e lá ia ele a cumprir a ordem sem nenhum questionamento ou erro. Como não era de sua índole compreender o sentimento humano, e as suas vicissitudes, também não entendia as consequências que, das mensagens entregues, pudessem advir. Mas tinha as suas necessidades, uma das quais consistia em ter sempre sede e em gostar muito de cerveja o que obrigava a que, nas suas deslocações, parasse com frequência no bar do Moreira. «Havia sempre alguém disposto a pagar-lhe uma cerveja. Até tinham uma tigela com o nome dele, no chão, num canto do bar.» Sucede que o farmacêutico se apaixonou pela mulher do chefe de polícia, uma senhora bem-posta e orgulhosa chamada Glória e enviou-lhe uma carta de amor. Como o chefe de polícia gostava de passar pelo bar do Moreira para disputarem uma partida de xadrez e, vendo nos chifres do bode uma carta dirigida à sua esposa, pegou nela, abriu-a e, ao inteirar-se do seu teor, pegou na pistola e desferiu dois tiros na cabeça do bode. Dirigiu-se depois à farmácia mas o autor da carta, alertado pelos tiros e pelo barulho que chegava dos lados do bar, já se tinha posto a bom recato. Não escapou, porém à ira do chefe de polícia tendo sido encontrado morto, dias depois, afogado no rio Quanza.

Para a Igreja Católica o nome Gregório tem lugar privilegiado na sua onomástica. Dezasseis foram os Papas que adotaram esse nome e o engrandeceram. Gregório I foi chamado Gregório Magno pelas suas virtudes, a sua cultura e o seu exemplo. Foi elevado à categoria restrita de Doutor da Igreja junto com S.to Agostinho, S.to Ambrósio e S. Jerónimo. Hoje, o nome Gregório parece ter caído em desuso sendo a escolha dos pontífices eleitos a mais variada culminando com a do Papa reinante Francisco possivelmente em honra de S. Francisco, o «Poverelo» de Assis.

1- Carlos Lacerda (1914- 1977) jornalista e político, uma das maiores figuras da política brasileira, foi grande opositor não só de Getúlio Vargas mas também da Junta Militar que governou o Brasil de 1964 até 1988. Exerceu vários cargos políticos entre eles o de Governador do Estado da Guanabara com capital no Rio de Janeiro. No plano civil fundou o jornal “Tribuna da Imprensa” e a Editora Nova Fronteira.

2-Média – Na linguagem corrente entre nós, a palavra corresponde a «meia de… Ex: pedi uma meia de leite e um pão com manteiga».

Por: Nuno Afonso

 

 

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