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Edição de 31-01-2020
Jornal Online

SECÇÃO: História


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MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE (12)

Os Reiseiros

Actualmente, um pouco por todo o país, ainda é tradição, neste mês de Janeiro, cantar os “Reis”. Mas há quase dois séculos, quando S. Lourenço de Asmes ainda integrava o concelho da Maia, existiam os “Reseiros”. Uma manifestação teatral antiga, que teve como berço as terras da Maia e sobre a qual muito se tem escrito e investigado. Sobre a sua origem, querem alguns que ela se vá buscar ao teatro primitivo da península, nomeadamente ao território português, outros ao período seiscentista, enquanto o Professor António Cruz refere que este auto foi composto em 1815, por um padre de Nogueira e representado pela primeira vez em Milheirós.

Não há dúvidas que foi nas «Terras do Lidador» que estas representações culturais, que têm como tema central o nascimento de Cristo, se manifestaram, se expandiram e enriqueceram. A este enredo de carácter religioso foram-se acrescentando, contudo buchas e ditos brejeiros, mesmo apartes, dirigidos ao público, acrescentamentos estes, que tanta polémica geraram, embora, valha a verdade, tornando estas representações muito mais atractivas e singulares aos olhos da população.

No Porto, são vários os relatos a dar-nos conta da sua passagem, no século XIX, pelos seus teatros e até dos incidentes que, amiudadas vezes, provocavam. Na memória destes citadinos ficaram, até hoje, as histórias jocosas e hilariantes e as anedotas picantes associadas à passagem destes actores populares.

Álvaro Aurélio Oliveira, nos «Temas Maiatos»2 defende que os reiseiros são oriundos de Nogueira da Maia e que daí se propagaram às freguesias de Barreiros, Moreira e a outras freguesias vizinhas.

AQUI, CEDO SURGIRAM OS REISEIROS

OS REISEIROS EM ATUAÇÃO, NUMA CASA DE LAVOURA DA CANCELA
OS REISEIROS EM ATUAÇÃO, NUMA CASA DE LAVOURA DA CANCELA
A nossa terra, com raízes culturais muito profundas a estas povoações maiatas e sobretudo pela sua proximidade e ligação a Nogueira, que se julga foi seu berço, teve igualmente, durante anos, a existência dos seus reiseiros e a convivência com grupos das imediações. Aqui, como nas outras freguesias foram amados e perseguidos pelas autoridades, por motivos religiosos e de ordem pública.

Pelo que conseguimos apurar, sempre se representou na nossa terra o auto do nascimento do Menino Deus, quer com grupos aqui constituídos, quer com outros vindos das freguesias vizinhas. Os cenários e o espaço eram, também, os mesmos: a eira, o quinteiro, a casa da eira, de onde saíam os actores, o carro de bois sem fueiros e por vezes uma colcha a servir de pano de fundo, neste palco tão singelo. Segundo Fernando César Vale(3) um dos requisitos para a escolha das casas agrícolas era ter «uma eira com três entradas». Os actores representavam figuras como Herodes, Bambalho, a Fama Ligeira. S. José, Pilatos, Virgem, etc. Uma mistura agradável como afirmamos, entre o religioso e o profano.

O auto original, que teria sido «Os Três Reis Do Oriente» foi assim adaptado, acrescentado, conforme o gosto, ou o interesse das várias companhias ou grupos, pelo que, como diz Álvaro Oliveira no já citado livro, «se torna impossível fazer a reconstituição fiel dos autos, dramas e cascos(4) do repertório dos «Reiseiros».

A época de ouro dos reiseiros ermesindenses, se é que assim os podemos chamar, foram os finais dos anos trinta, e as décadas de quarenta e cinquenta. Neste período, pelo que conseguimos saber, existiam dois cascos: um na parte norte e outro na parte sul da cidade. Curiosamente, comparando a estrutura do auto transcrito nos «Temas Maiatos», que o seu autor diz ser fruto de uma reconstituição, feita a partir de um estudo de vários exemplares e fragmentos, recolhidos em locais dispersos, mas com incidência no auto dos «Três Reis Do Oriente», depois das modificações que lhe introduziram os padres Costa Lamas e Neves Da Cruz(5), detectamos algumas diferenças significativas: Assim, pela análise que fizemos aos que nos passaram pelas mãos, concluímos que o que mais se parece, em termos de estrutura e número de personagens, com o atrás referido auto transcrito nos «Temas Maiatos», é o do Palmilheira. Todos têm quatro actos, contrariamente a este que tem cinco; Herodes, no da Maia, morre precisamente no fim, enquanto nos representados aqui, este figurante com voz de trovão, permanece vivo. Para um melhor e mais cabal conhecimento desta actividade cultural nesta terra vamos falar de três dos mais importantes centros de difusão, pelo menos no que toca ao período em que o seu desenvolvimento foi maior.

OS REISEIROS DA CANCELA

Neste antigo lugar de Ermesinde representaram-se, durante anos, as «reisadas». Estes eventos realizavam-se nas casas agrícolas mais importantes dessa zona, como a do «Caixa», do «Vicente» e algumas vezes na do «Caetano». A eira e o carro de bois funcionavam como palco, havendo necessidade, por vezes, como aconteceu em algumas a que assistimos nos anos sessenta(6), na eira do Vicente, de se construir, em madeira, uma bancada para o público.

(...)

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(continua)

1-Este artigo (texto e foto) baseia-se na publicação do autor, “Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”.

2-Publicações, de carácter histórico, publicadas pela Câmara da Maia. «Os reiseiros» são o tema sete.

3-Um ermesindense, já falecido, muito ligado à cultura e ao associativismo da nossa cidade sobretudo aos Escuteiros, que muito nos ajudou na realização deste trabalho.

4-Segundo Álvaro Oliveira (1983), casco é o nome popular dado a uma comédia ligeira, ou entremez, representada na Maia, por alturas do Entrudo. Aqui, a palavra casco refere-se a um esqueleto de obra, escrita à mão. Esta terminologia usa-se muito quando se fala dos reiseiros.

5-Para o Professor António Cruz (1989) foi o padre Lamas, abade de Nogueira, quem compôs este auto, em 1815, tendo o mesmo sido, depois, acrescentado e reformado, pelo abade de Milheirós, João Vieira Neves da Cruz. Foi representado, segundo o mesmo autor, pela primeira vez, nesta última freguesia da Maia, em1867.

6-Os «Reis» de 1966/68, aqui, realizados tiveram como ensaiador o Sr. Nogueira, um homem ligado, desde há muito, ao teatro ermesindense e os fundos conseguidos eram destinados a subsidiar as festas do Menino Deus.

Por: Jacinto Soares

 

 

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