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Edição de 31-10-2019
Jornal Online

SECÇÃO: Destaque


Para quando um Museu em Ermesinde?

“Esquecer os ancestrais

é como ser um riacho sem nascente,

uma árvore sem raízes”

Provérbio chinês

FOTOS ARQUIVO JACINTO SOARES
FOTOS ARQUIVO JACINTO SOARES
O Homem, desde há muito, vem evidenciando uma preocupação com a preservação da sua memória. Para além da história escrita em jornais, revistas e livros, ela também se faz com documentos, objetos e imagens que, devidamente enquadrados e contextualizados, formam os espaços museológicos que “falam” por si.

Um museu é, pois, um privilegiado espaço de diálogo entre o presente e o passado, ajudando a compreender também o futuro. Terra que se prese não dispensa o seu museu. E os turistas quando chegam a uma localidade desconhecida, uma das primeiras curiosidades passa por indagar o museu, ou museus, que possam ajudá-los a conhecer melhor a terra onde se encontram.

Há muitos anos que a necessidade de um Museu em Ermesinde é apontada como uma das grandes prioridades culturais da cidade. É de resto uma questão abrangente que gera um largo consenso no leque partidário local, havendo até programas partidários dos vários quadrantes, que colocam o Museu de Ermesinde na lista das suas promessas eleitorais. A título de exemplo, no programa do atual presidente da Junta de Freguesia de Ermesinde, João Morgado, lá está essa promessa: “Queremos e tudo faremos para que Ermesinde tenha um Museu”.

Aliás, sendo Ermesinde a mais populosa freguesia do atual concelho de Valongo, é, no mínimo estranho, que seja a única freguesia que não tem um espaço museológico.

Acreditamos que, à semelhança do presidente da Junta de Freguesia de Ermesinde, também o presidente da Câmara Municipal de Valongo, José Manuel Ribeiro, tão dado aos aspetos educacionais e culturais, se envolverá na concretização deste desejo coletivo dos ermesindenses, que é terem o seu Museu, onde possam mostrar às gerações atuais e futuras, um pouco do que era a realidade desta terra, ao longo dos últimos séculos, desde o tempo em que era denominada como S. Lourenço de Asmes, passando por Ermezinde, mais tarde vila e atualmente cidade de Ermesinde.

Se as duas autarquias se unissem neste desiderato seria uma linda prenda a oferecer à cidade, no ano em que esta completa 30 anos de existência (13 de julho de 2020).

Também os jovens da cidade têm chamado a atenção para a falta de um Museu na cidade. Recordo, a este propósito, a Assembleia Municipal de Jovens que em abril de 2013, quando entre os vários problemas que identificaram no Município os jovens “deputados” da escola ermesindense D. António Ferreira Gomes referiram precisamente a falta do Museu da Cidade.

Há alguns anos, muito antes de se pensar no Museu do Brinquedo de Ponte de Lima, ventilou-se a enorme importância que seria, para Ermesinde, a fundação de um Museu do Brinquedo Português, dado que muitos dos brinquedos portugueses aqui foram fabricados na sua origem.

Contudo, a ideia da fundação do Museu do Brinquedo em Alfena retirou a viabilidade de se repetir aqui um espaço museológico de igual especificidade. No entanto, a ideia de um Museu, em Ermesinde, onde por certo também cabem exemplares de brinquedos que historicamente aqui nasceram, não morreu nem deixa de ser pertinente, tanto mais que há muito património adequado à sua mostra num Museu e há vários dadores ermesindenses que colaborarão nesse projeto de muito boa vontade se esse espaço surgir. Caso contrário, estes mesmos doadores garantiram-nos que se não surgir, entretanto, um Museu em Ermesinde, entregarão o espólio de que são proprietários a freguesias vizinhas que já pertencem a outro concelho.

Relativamente à importância e à diversidade de património a expor num futuro Museu de Ermesinde não subsistem quaisquer dúvidas - há muito material disponível e com qualidade para poder ser apreciado por quem procura este tipo de espaços de inquestionável valor cultural. Basta lembrarmos a Exposição que, em novembro de 1996, faz já no próximo mês 23 anos, esteve patente no Salão dos Bombeiros Voluntários de Ermesinde, sugestivamente intitulada “Ermesinde – Ontem e Hoje” e onde muitas pessoas tiveram a oportunidade de apreciar aquilo que, naquela altura, foi visto já como o espólio de um futuro Museu de Ermesinde.

Tal como nessa ocasião escrevi, repito agora, e ainda com mais razão: Ermesinde só não tem um Museu porque as entidades responsáveis não assumem tal projeto como uma necessidade premente a satisfazer. Porque, no que respeita a material digno de ser exposto e apreciado ele existe em quantidade e qualidade assinaláveis.

Em 2001, com Conceição Pereira, no livro “Ermesinde: Registos Monográficos”, volume 1, dedicámos algum espaço ao fabrico de brinquedos em Ermesinde, que terá sempre de ter especial destaque em qualquer espaço museológico que aqui se localize, pois faz parte da história desta terra.

EXPOSIÇÃO "ERMESINDE - ONTEM E HOJE", NO SALÃO DOS BOMBEIROS
EXPOSIÇÃO "ERMESINDE - ONTEM E HOJE", NO SALÃO DOS BOMBEIROS
Nunca me esquecerei que em menino, a quase duas centenas de quilómetros daqui, o meu primeiro contacto com o nome Ermesinde resultou de um carrinho de bombeiros, em folha, com que brinquei e onde estava escrito “B. V. Ermesinde”. Mal eu sabia que haveria de ser a terra onde haveria de viver mais anos.

Mas voltando ao nosso livro “Ermesinde: Registos Monográficos” fica um excerto do que então ali escrevemos:

A região do Porto, e dentro desta a área de Ermesinde, já foi das mais importantes do país na produção de brinquedos, com recurso a diferentes materiais, como a folha de ferro estanhado, madeira, papel gessado e plástico.

O fabrico dos brinquedos de chapa iniciou-se a partir dos anos vinte, nos concelhos do Porto e de Valongo, e chegou aos nossos dias, em regime de artesanato, sobrevivendo apenas com um artesão no Concelho de Valongo.

Entre os principais fabricantes contam-se José Augusto Júnior (JAJ), Luciano Moura (considerado por muitos o pioneiro), Adriano Coelho de Sousa e Manuel Moreira da Silva.

Na 2.ª Guerra Mundial, devido à falta de chapa de ferro, recorreu-se ao cartão para algumas partes dos brinquedos, produzidos em muito menor número, e por isso, hoje os exemplares daquela época tornam-se bastante raros.

No início da década de 1960, com o aparecimento do plástico, o brinquedo feito de folha entrou em declínio definitivo.

Entre a enorme variedade de brinquedos fabricados, refiram-se os camiões, carros, carros de bombeiros, ambulâncias, gaitas, rocas, fogões, guizos, apitos, bonecos e bonecas, regadores, crivos, máquinas de costura, carros elétricos, charretes, carroças, cavalos e cavaleiros, e tantos, tantos outros que foram a alegria de milhares de crianças, por esse país fora, quando não havia computadores nem jogos eletrónicos de bolso.

O brinquedo de madeira fabricou-se no Norte de Portugal desde o início do século XX, ou até desde finais da centúria anterior. As principais áreas de fabrico situaram-se nos concelhos de Valongo, Maia, Gaia, Oliveira de Azeméis e S. João da Madeira.

Entre os principais fabricantes de brinquedos de madeira, destacaram-se as famílias Ferreira e Carneiro, respetivamente de Ermesinde e da Maia. Os brinquedos de madeira eram normalmente feitos em madeira de pinho e pintados com cores vivas. Entre esses brinquedos destacavam-se pombas, ciclistas, camionetas, carros de bonecas e andarilhos. (…)

(continua)

Por: Manuel Augusto Dias

 

 

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