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Edição de 31-03-2019
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    Arquivo: Edição de 31-01-2019

    SECÇÃO: Local


    GENTE DA NOSSA TERRA

    Francisco Chaló: um senhor do futebol nascido em Ermesinde

    A figura da presente edição que é destacada na rubrica “Gente da Nossa Terra” é um homem do futebol. Alguém que no papel de treinador tem construído uma carreira digna de registo no desporto rei, sobretudo em Portugal, onde durante cerca de duas décadas trabalhou sempre ao mais alto nível. Isto é, desenvolveu a maior parte da sua carreira nos dois escalões profissionais do nosso futebol, a I e a II liga, sendo atualmente um dos treinadores com mais jogos no segundo escalão profissional. Começou no Formiga, passou pelo Alfenense, Pedras Rubras, Feirense, Naval 1.º de Maio, Penafiel, Covilhã, Académico de Viseu e Leixões. Atualmente, vive a sua primeira experiência internacional, na Argélia, para onde emigrou no início desta temporada desportiva para treinar o Paradou, clube do primeiro escalão daquele país. Estamos a falar de Francisco Chaló, natural de Ermesinde, onde nasceu há 54 anos. Esta breve conversa é apenas um excerto de uma entrevista realizada pela equipa do poadcast Tertúlia da Bola, em parceria com A Voz de Ermesinde. A conversa em torno do futebol foi conduzida por Tiago Alves (um dos jovens fundadores da Tertúlia da Bola), e pode ser ouvida na íntegra na página: https://www.facebook.com/tertuliadabola/

    Fotos ARQUIVO PESSOAL DE FRANCISCO CHALÓ
    Fotos ARQUIVO PESSOAL DE FRANCISCO CHALÓ
    Tiago Alves (TA): Começou a carreira de treinador no Alfenense, em 1995, numa altura em que a equipa estava nos escalões distritais. Desde essa altura almejava ter uma carreira sólida como a que hoje tem?

    Francisco Chaló (FC): Queria só retificar a sua questão inicial, porque eu comecei a minha carreira de treinador no Formiga, clube de Ermesinde. Devo, aliás, dizer que a minha ligação à Cidade de Ermesinde é grande, pois foi a terra em que nasci. Depois de acabar as minhas lides futebolísticas, como jogador, de forma precoce com 24 anos, eu tinha a ideia de voltar ao futebol na qualidade de treinador. A verdade é que nessa minha primeira experiência como jogador/treinador no Formiga, existiu o timing certo para desenvolver toda a minha formação como treinador. Só depois é que surgiu o convite do Alfenense, pela mão do Freitas, uma ex-glória do Ermesinde, que na altura era coordenador da formação do Alfenense. Convidou-me a abraçar um projeto nos iniciados do Alfenense. E a caminhada começou por aí. Foi, aliás, curiosa a minha estreia como treinador no Alfenense, pois passei dos iniciados, onde fiz uma grande parte da época, até aos seniores, onde quis o destino que numa situação bastante aflitiva em termos de tabela classificativa tivesse sido convidado pelo Alberto Sousa, diretor da equipa, que é, se calhar, um dos grandes responsáveis por eu hoje ser treinador de futebol, para tentar salvar a equipa sénior da hipotética despromoção.

    TA: Posteriormente seguiu-se o Pedras Rubras, onde fez um trabalho extremamente meritório entre 1998 e 2003, subindo o clube dos distritais à 3.ª divisão e depois da 3.ª à 2.ª divisão B, além de ter lançado vários jogadores que fizeram carreira de 1.ª Liga e no estrangeiro. Outra coisa que nos chamou a atenção é o facto de ser um treinador de projetos, tendo maior sucesso quando o clube lhe oferece mais estabilidade, é verdade?

    FC: Tem razão no que diz. Efetivamente o trabalho no Pedras Rubras foi o que mais me conseguiu projetar a nível de iniciar uma carreira como treinador profissional. Como sabe, até ao último ano em que estive no Pedras Rubras, na 2.ª divisão B, era a única equipa que não era profissional, ou seja, treinava só à noite. Eu também não era profissional, não fazia do futebol a minha vida, só a partir de 2001/2002 é que comecei a ser profissional. Mas o Pedras Rubras foi um trabalho muito interessante, em todas as componentes, humana e desportiva, porque historicamente fica ligada à primeira aparição do clube nos campeonatos nacionais. Eu comecei no Pedras Rubras como adjunto em 1997/1998, saí e e só depois fui treinador principal. Fizemos um projeto que hoje seria muito atual, porém naquela altura foi algo de inovador, pois fomos o primeiro clube a ter duas equipas, uma chamada equipa B, que militava nos amadores e depois tinha a primeira equipa que militava na Divisão de Honra, que era na altura um campeonato terrível. Eram campos difíceis, mas havia também muita qualidade e fortes investimentos. Felizmente subimos no primeiro ano [à 3.ª divisão], mantivemo-nos na 3.ª divisão e conseguimos subir no ano seguinte à 2.ª divisão e por aí fora. Foram cinco anos extraordinários, numa ligação a um clube que conjuntamente com o Alfenense, me marcou para toda a vida.

    TA: No Pedras Rubras lançou jogadores que conseguiram mais tarde fazer carreira na 2ª Liga e na 1ª Liga, sendo o maior destaque o Gregory…

    FC:… Tive a felicidade de reunir um grupo talentoso de jogadores, até porque nada se faz sem matéria-prima. Não adianta ser bom cozinheiro se os condimentos forem maus. Eu tive muito tempo para preparar uma equipa e como tal tive a facilidade de preparar uma equipa para projetar, e depois houve sempre upgrades nos plantéis do Pedras Rubras, que permitiram que o clube fosse evoluindo e fizesse coisas interessantes. O meu adjunto é que gosta de me lembrar, que eu na minha carreira, tive 40 e poucos jogadores que passaram de escalões mais baixos para a 1.ª Liga. De facto, são bastantes atletas, e felizmente esse é um dos grandes orgulhos que eu tenho. O Gregory, apesar de um jogador imponente, teve, se calhar, que trabalhar o aspeto tático e técnico para poder chegar ao patamar que chegou. A estreia do Gregory foi contra o FC Porto B, na 2.ª Divisão B, como suplente e entrou ao intervalo. Foi um dos jogos mais memoráveis que tive na minha carreira como treinador. Nós estávamos a perder 3-1, eu mudo todo o sistema tático, entrou o Gregory e o resultado mudou. Pegou de estaca.

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    TA: 2ª divisão B na altura com o FC Porto B e o clube da sua terra, o Ermesinde…

    FC: O Ermesinde não estava nessa época. Curiosamente, eu nunca defrontei o Ermesinde como treinador. Posso dizer-lhe que quando comecei a minha carreira de treinador o meu primeiro sonho era treinar o Ermesinde. Nunca acabei por o fazer e quando o Ermesinde me quis já não era aquilo que eu queria (risos).

    TA: Seguiram-se três épocas no Feirense que o catapultaram depois para a 1ª Liga, onde esteve ao serviço da Naval 1º de Maio, clube onde tinha um elenco com alguma qualidade, onde aliás tinha um jogador francês que apreciava muito, o Godemèche...

    FC: Aliás eu posso lhe dizer que como treinador, os jogadores que eu selecionei, cujas transferências foram mais elevadas para o próprio clube, foi na Naval. Foi o Marcelinho, o Diego Ângelo e o Godemèche. A Naval encaixou na altura 4,5 milhões de euros.

    TA: Uma Naval que estava estabilizada na 1.ª Liga (época 2007/08)…

    FC: Sim, tinha feito um ano na 1.ª Liga e tinha tido uma sangria no plantel, com a saída do Ney, do Orestes, do Fajardo e do Fernando, um central que era histórico no clube. Portanto, houve ali uma sangria de cinco ou seis jogadores, não por minha vontade, mas por aquilo que eram as contingências do próprio mercado e por aquilo que eram as necessidades económico-financeiras do projeto do presidente. Na altura tive uma passagem muito fugaz pelo clube. Saí da Naval 1º de Maio à 4.ª jornada, no célebre jogo com o Benfica. Saí quando a equipa era a mais rematadora do campeonato! Coisa estranha!

    TA: Esse é o problema de muitas equipas portuguesas, às vezes não dão tempo aos treinadores para implementarem a sua ideia de jogo…

    FC: De facto. Eu estou à vontade para falar do assunto. Agradeço ao Aprígio Santos (então presidente do clube da Figueira da Foz) por ter-me convidado para estar na 1ª. Liga. Eu estava desempregado na altura. Agradeço-lhe, mas da mesma maneira acho que foi um presidente que experimentou brincar ao futebol. Quando saí tinha os mesmos pontos que o Vitória de Guimarães, que na altura foi um Guimarães europeu. Saí após um jogo que provocou admiração em toda a gente. Até a própria imprensa! O Miguel Sousa Tavares, por exemplo, tinha escrito uma crónica a dizer qualquer coisa como: “Lufada de ar fresco no futebol português”, numa alusão à exibição da Naval nesse jogo com o Benfica. Arrisco a dizer, que naquele jogo em que perdemos por 3-0, o melhor jogador em campo foi o Quim (guarda-redes do Benfica). Nós rematamos 27 vezes à baliza do Benfica, com três bolas à trave. Acho que não há nenhuma equipa, arrisco-me a dizer, que tenha rematado 27 vezes no Estádio da Luz, mesmo num Benfica que se possa dizer, nesta altura, mais enfraquecido. As pessoas dirão vale o que vale, mas eu tenho a consciência daquilo que foi. Acho que foi para mim um revés muito grande na minha carreira. A oportunidade foi ótima, mas foi um revés muito grande, porque tinha todos os itens para fazer uma boa época, aliás posso-lhe dizer que aquela foi a época mais estável da Naval 1º de Maio na 1.ª Liga.

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    TA: Um dos projetos onde mais se evidenciou acabou por ser no Sporting da Covilhã (onde esteve quatro temporadas). Entrou numa situação difícil, mas acaba por discutir até à última a subida de divisão, mais tarde, na época de 2014-2015…

    FC: Nesse ano chegaram a telefonar-me a felicitar-me pela subida de divisão porque acabamos com os mesmos pontos que o Chaves e o União da Madeira (risos). Tive um trabalho com o meu presidente de então, o José Mendes, bastante bom. Atingimos coisas impensáveis. Foi um trabalho com muito mérito, fomos inclusive o melhor ataque da II Liga. Para finalizar o tema Covilhã, devo dizer que é curioso ter sido um sítio em que o nosso trabalho foi apreciado pelos adeptos. Apesar de não termos ganho nada fomos homenageados pela Câmara como se tivéssemos subido de divisão. O que não é normal, mas comprova o tal mérito do nosso trabalho.

    TA: Foi complicado gerir o dissabor de não ter subido nessa época?

    FC: Sim, e depois ainda viemos a saber do penalti aos 95 minutos em Chaves em que acabou por subir o União da Madeira!

    TA: Falando agora da Argélia, onde se encontra a trabalhar desde o início da atual temporada desportiva. Ultimamente tem havido um aumento de talentos argelinos, na Europa, casos do Brahimi, Mahrez, ou do Slimani. Mas ao mesmo tempo a seleção argelina, tem muitas dificuldades em afirmar-se enquanto coletivo, com a exceção do Mundial de 2014.

    FC: Tenho tantas histórias na Argélia, ficaria a falar horas e horas (risos). Tem coisas culturais transversais ao Desporto, o que prejudica a afirmação dos talentos. Há muitas dificuldades naquilo que é o enquadramento cultural e a exigência profissional. Ainda por cima o futebol profissional tem um certo tipo de exigência. A nível físico obriga a muita coisa e obriga a um cumprimento de regras. É muito difícil implementar regras aqui. Posso dar um exemplo. Um jogador pode dar uma incursão ofensiva bastante boa e não tem palmas, mas se ele der um toque de calcanhar provavelmente existem palmas. Falta um certo nível de objetividade. Mas existe uma coisa boa, ter uma casa de 25 mil na Argélia é uma má casa, vive-se com muito fervor o futebol aqui. O fator casa aqui é muito importante. Imagine lá que o Paradou é das poucas equipas com pouca massa humana no estádio.

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    TA: É um clube recente, salvo erro, fundado em 1994…

    FC: Sim, e tem uma filosofia diferente, mais de Academia (formação), vendedor e com um orçamento reduzido. Vendemos já vários jogadores para França. Mas imagine o que é jogar em casa, e ouvir os adeptos do adversário! (ao invés do apoio do público afeto à equipa local).

    TA: Estou convencido, dentro do que disse, que vai lançar vários jovens à ribalta…

    FC: Já lancei o primeiro. Estávamos no estágio na Hungria e um jogador teve a possibilidade de fazer testes em França e foi aprovado num clube da 1.ª Liga. Graças a um trabalho realizado que permitiu a esse atleta ingressar nessa equipa. O Paradou é um clube de formação, onde temos 2/3 jogadores a nível individual muito bons, mas é preciso introduzi-los nas dinâmicas coletivas e isso por vezes é mais complicado.

    TA: Conta ficar na Argélia muito tempo? Uma vez que é um treinador de projetos…

    FC: Só faço contratos de um ano, com mais um de opção. Mas posso sair, não sei o que o futuro me reserva. Gosto muito de Portugal…

    TA: Tem saudades de Portugal?

    FC: Não tenha dúvida. Saudades até da comida. Isto aqui é bom para fazer dieta, até já perdi uns quilinhos (risos). Mas é como lhe digo, eu faço o meu trabalho depois logo se vê. Tanto existe a possibilidade de voltar a Portugal como de ir para outro pais ou até mesmo ficar. O futebol é o momento.

     

     

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