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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 31-12-2018

    SECÇÃO: Destaque


    ENTREVISTA

    Sabia que o único Museu de Magia existente em Portugal fica em Ermesinde? Venha conhecê-lo connosco!

    Há descobertas que mais do que nos deixarem boquiabertos nos deixam encantados quando com elas travamos conhecimento. Foi um pouco esta a sensação que nos invadiu neste final de ano quando descobrimos que a Cidade de Ermesinde acolhe um verdadeiro tesouro das artes mágicas. Sem mais enigmas, nem truques, apresentamos o Museu da Magia, o único museu deste âmbito existente em Portugal! E Ermesinde tem o privilégio de lhe servir de casa.

    As portas deste Mundo mágico que guarda (e projeta ao mesmo tempo) a História do ilusionismo nacional - e não só - foram-nos abertas pelo criador e Diretor do Museu, Miguel Ângelo, que de forma apaixonada nos falou deste seu projeto que não pára de crescer!

    Fotos ALBERTO BLANQUET
    Fotos ALBERTO BLANQUET
    Como todas as histórias também esta teve o seu início. Recuemos então até 2016, altura em que a desistência imprevista de um expositor na Festa do Brinquedo de Alfena deixou um lugar vago para Miguel Ângelo exibir a sua paixão pela História da magia. O convite foi-lhe então endereçado por Catarina Magalhães, na altura técnica da Câmara de Valongo ligada ao setor da Cultura, o qual foi prontamente aceite, até porque Miguel Ângelo tinha acabado de adquirir o espólio de um mágico que havia falecido recentemente. Algumas peças desse espólio foram então colocadas num stand da Festa do Brinquedo, despertando de imediato a curiosidade de quem por ali passou e... aqui nasceu a ideia de um Museu dedicado à Magia. «Na altura achei engraçada esta ideia de exibir peças antigas relacionadas com a Magia e pensei: porque não fazer algo inovador em Portugal e criar um Museu da Magia? Com todas as peças que eu tinha, que fui juntando ao longo de anos, e outras que ia adquirindo, decidi pegar em tudo e criar o Museu», lembra. E assim, o sonho ganhava asas. Posteriormente, o projeto começou a materializar-se, com o registo do logótipo e da marca do “Museu da Magia de Portugal”, a criação de página de facebook, de instagram, de um canal de you tube e do site (www.museudamagia.com/pt) e a abertura do espaço físico, que com apenas dois anos de existência não tem parado de crescer.

    RELÍQUIAS RARAS DE VALOR INCALCULÁVEL

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    Às largas centenas de peças que estiveram na génese deste espaço, outras, de valor único, continuam a chegar, dotando o Museu de um ímpar e riquíssimo acervo, já que nada deste âmbito existe no nosso país. Muitas das peças raras que chegam ao Museu são adquiridas por Miguel Ângelo em leilões nacionais e internacionais, ou em antiquários que são percorridos a pente fino. E muitas delas são compradas por valores exorbitantes! Mas a História não tem preço. São múltiplos os tesouros que se encontram neste Museu, desde livros, manuscritos, revistas, fotografias, posters, cartazes, artefactos, jogos vintage de magia, indumentárias de mágicos, etc. Verdadeiras relíquias que formam um património digno de ser apreciado, mesmo por aqueles que não estão tão familiarizados com o ilusionismo. E por falar em relíquias, vimos muitas nesta nossa visita. E todas estas peças têm uma história a si associada, todas pertenceram a um mágico, todas têm a marca do tempo pelo seu desgaste, são peças únicas de valor incalculável, de acordo com o nosso anfitrião.

    Olhando para a biblioteca do Museu, por exemplo, constatamos que esta tem livros que datam do ano de 1640! Muitos deles edições raras. Uma das raridades recém chegadas foi o livro “Tesouros de Prudentes”, que veio da Alemanha e foi muito disputado num leilão a nível internacional.

    Neste momento a biblioteca do Museu acolhe cerca de 9400 livros, sendo que o espólio português está quase completo. Ademais, na altura da nossa conversa estava para chegar uma outra raridade, vinda também do Brasil, e que dá pelo nome de “Tesouro da Magia”. Muitos dos livros não estão, aliás, expostos na biblioteca, estão de quarentena, digamos assim, precisamente porque são raridades e precisam de estar sob uma proteção especial para que o papel não se deteriore. Outros dos tesouros literários que nos foram mostrados são os manuscritos (datados de 1860) de Lino Ferreira Nascimento, um ícone da magia nacional. São 13 volumes únicos escritos com uma caligrafia invejável deste ilustre mágico, e que traduzem para português outras obras raras de nível internacional. Outro tesouro, sim, «porque aqui tudo é tesouro», como diz com entusiasmo Miguel Ângelo, é a primeira caixa de magia que existiu em Portugal, datada dos finais dos anos 60 e produzida pela Academia Portuguesa de Ilusionismo.

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    Em exposição está o que é possível, pois, por falta de espaço, o Museu tem muitos mais tesouros guardados noutras mais de quatro dezenas de caixas!

    Quando questionado sobre quantas peças teria na totalidade o Museu da Magia, Miguel Ângelo não consegue para já precisar um número, até porque continua a levar por diante o processo de catalogação, de inventariar cada peça, mas afirma que seguramente «já ultrapassamos as 10.000 peças». Voltando às relíquias, centramos agora atenções nos posters de espetáculos nacionais e internacionais, os quais nos dizem que o Museu tem na sua posse mais de 800, entre outros um billboard gigante de Dick Marvel - outro ícone da magia nacional - que veio diretamente da Argentina.

    Na nossa viagem pelo Museu da Magia deparamo-nos com alguns nomes familiares no que a Ermesinde diz respeito, como foi o caso de Barkó, mítico mágico e construtor de artefactos de magia com raízes na nossa Cidade. Quase todo o espólio deste ermesindense já falecido se encontra hoje no Museu.

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    Os nossos olhos arregalam-se à passagem por um fato prateado reluzente que sobressai no espaço. «Este é um fato genuíno de Dick Marvel. Temos mais sete fatos genuínos de outros grandes nomes da magia, mas não temos espaço para os expor», diz Miguel Ângelo, que explica ainda que além de adquiridas em leilões e antiquários, muitas destas peças raras são oferecidas por mágicos. «Ao saberem da existência do Museu da Magia, muitos mágicos têm-nos oferecido algumas peças da sua vida artística», explica o Diretor do Museu.

    Dezenas de álbuns de fotografias, catalogados e inventariados, muitas dessas fotografias autografadas, como é o caso de uma imagem do Conde de Aguilar, nada mais nada menos do que uma espécie de Luís de Matos da década de 60, fazem igualmente parte deste acervo. E por falar no Conde de Aguilar, Miguel Ângelo refere que o Museu da Magia tem igualmente uma ampla videoteca, com várias raridades, velhas películas consumidas pelo tempo que entretanto foram passadas para formato digital, como é o caso da última entrevista televisiva que o Conde de Aguilar deu antes de falecer.

    Todo este trabalho resulta da paixão desmedida que Miguel Ângelo tem pela magia e pela História desta. Uma paixão que vem desde pequeno, influenciado pelos seus pais, Chasten e Lita, também eles ligados ao ilusionismo. Fascinado desde sempre por peças antigas de magia, Miguel Ângelo já pisou os palcos enquanto artista, acabando por despir o fato de mágico devido a ter abraçado a carreira de produtor de espetáculos. Do seu vasto currículo fazem parte produções de inúmeros espetáculos a nível nacional, com artistas de renome e festivais conceituados, entre outros, o nosso bem conhecido Magic Valongo. «Não podia ter dois papéis em simultâneo: o de artista e o de produtor. Optei por estar no backstage a produzir, embora de vez em quando ainda sinta o gostinho de fazer magia», conta.

    MENSAGENS DE CARINHO E ADMIRAÇÃO DO MUNDO

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    Desde a sua abertura que o Museu tem sido alvo do interesse de muitos visitantes, não só ligados ao ilusionismo como também muitos curiosos que travam conhecimento com a existência deste espaço. Visitantes de vários pontos do globo, há que dizê-lo. Aliás, Miguel Ângelo mostra-se orgulhoso pelo facto de o Museu da Magia receber sistematicamente mensagens de carinho e admiração de ilusionistas de inúmeros países, muitos deles nomes mediáticos da magia. E por falar em visitas, quem tiver a curiosidade em visitar o Museu da Magia – e vale bem a pena a visita – terá de fazer uma marcação prévia, visto que Miguel Ângelo é uma espécie de "one man show", ou seja, não tem uma equipa por trás, o que faz que com a sua atividade profissional nem sempre seja possível estar no Museu. A visita, depois de agendada, é gratuita e tem o acompanhamento do Diretor do Museu, que faz questão de estar presente numa espécie de visita guiada. «Gosto de explicar a história por detrás de cada peça», diz, referindo ainda que sempre que adquire uma peça nova faz questão de a estudar, de conhecer a sua história, de saber a quem pertenceu.

    A dedicação de Miguel Ângelo ao Museu da Magia é diária, caso contrário, como o próprio diz, este projeto não podia crescer da forma como tem crescido. Antes ou depois da sua atividade de empresário ligado à área das artes e do espetáculo, Miguel Ângelo vive esta sua paixão pelo Museu.

    COMEÇA A FALTAR ESPAÇO

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    O espaço, ou neste caso a falta dele, é provavelmente o atual obstáculo do Museu da Magia. Este espaço é partilhado no mesmo edifício – nos dois andares de cima, para sermos mais precisos – com uma das empresas do nosso interlocutor, situado na Travessa Monte da Bela, 88 –, sendo essa uma situação que mais tarde ou mais cedo terá de ser resolvida, de acordo com o Diretor do Museu.

    Recordando que o Museu foi erguido, e é mantido, sem qualquer tipo de apoio, somente com a sua paixão e empenho, diz que já teve algumas propostas de entidades públicas para levar o Museu para fora de Ermesinde. Propostas que, no entanto, vão sendo rejeitadas, pois «eu costumo dizer que o Museu nasceu aqui, e se for para um espaço longe daqui vai estar a alguns quilómetros de distância de mim, que tenho a minha vida profissional toda aqui. E se assim fosse seria complicado, porque eu iria perder o contacto diário com o Museu. Por isso, vamos com calma, vamos pensar no que será melhor». Contudo, Miguel Ângelo deixa uma garantia: «Ficando em Ermesinde ou noutro sítio qualquer o Museu da Magia vai continuar a crescer».

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    Além de produtor e historiador das artes mágicas, Miguel Ângelo é igualmente formador. Pela sua mão já passarem muitos ilusionistas nacionais, sendo um dos ícones mais recentes o jovem ermesindense André Castro, um dos novos talentos do ilusionismo nacional. Essa sua paixão em partilhar conhecimento vai dar azo, em breve, a outra vertente do Museu: a formação. Dotado de uma ampla videoteca, de uma pequena sala de projeção e de um mini-palco, o Museu da Magia vai ser ampliado a uma escola de formação. «Temos condições para fazer aqui workshops, visualizar conferências que muitas vezes não estão acessíveis, discutir ideias, etc. Há, aliás, muita malta nova em Ermesinde que tem paixão pelo ilusionismo. E nós sentimos que podemos ser a plataforma de transporte para lhes dar o conhecimento ou para os ajudar a singrar nesta área». Posteriormente, o resultado dessa formação será confrontado com o público, «porque ao contrário de muitos mágicos eu entendo que a magia é para o povo. Se for de mágico para mágico é apenas uma partilha de conhecimentos. O espetáculo é para o público. É o público que nos diz se correu bem ou mal, se estamos ou não no bom caminho».

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    Aliás, partilhar é a essência do Museu da Magia. Neste ponto, Miguel Ângelo lembra que a criação do Museu veio fazer com que muitos outros ilusionistas começassem a expor, sobretudo nas redes sociais, os seus objetos pessoais. «Isso dá-me um orgulho enorme. Saber que fomos nós que mudamos o rumo disto. Das caixas fechadas, de um património que está fechadinho, o espólio começa a ser partilhado».

    No fundo, essa é a essência da História: ser partilhada… e perpetuada. E a História da magia portuguesa está toda aqui, no Museu da Magia de Portugal, em Ermesinde. Quem diria!

    Por: Miguel Barros

     

     

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