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    Arquivo: Edição de 01-03-2014

    SECÇÃO: Literatura


    A VOZ DAS PALAVRAS

    Jerusalém, Gonçalo M. Tavares

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    Se porventura acompanha o meio literário português terá certamente ouvido falar em Gonçalo M. Tavares. Jovem escritor português (1970), vem surpreendendo a todos com sua grande e variada produção literária, que já lhe rendeu alguns dos maiores prémios do mundo de língua portuguesa. Em Portugal recebeu vários prémios, entre os quais o Prémio José Saramago 2005 e o Prémio LER/Millennium BCP 2004, com o romance “Jerusalém” (Caminho).

    O autor optou por cingir o título de seu romance, “Jerusalém”, numa espécie de jogo de claro e escuro em que desemaranhar o nome do livro começa a acender as luzes em relação ao próprio sentido do texto. A palavra Jerusalém aparece mencionada, na obra, uma única vez: «Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita» (p.154). Trata-se da referência ao Salmo 136 – em algumas traduções, 137 – da Bíblia, em que judeus exilados choram diante do opressor que os exorta a cantar um dos cânticos de Sião: «Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estranha? Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise!». O livro faz parte da tetralogia O Reino, que inclui “Um Homem: Klaus Klump”, “Aprender a Rezar na Era da Técnica” e “A Máquina de Joseph Walser”, e parece ser um romance que se destaca de sua obra pela violência com que trata a sua matéria.

    O livro traz um mundo de contos enredados por histórias pessoais, tendo como pano de fundo os horrores que o holocausto trouxe à sociedade, instrumento com o qual, Theodor Busbeck, médico, busca, através de acontecimentos parecidos, delinear um gráfico para estabelecer qual grupo irá sofrer e qual será o carrasco desse sofrimento; um utensílio racional para determinar os sintomas da sociedade. Dá-nos um novo entendimento a um dos lados obscuros da natureza humana: a loucura. Jerusalém apresenta-nos personagens dilaceradas que se cruzam, entrelaçam, movimentam, por vezes se amam e se magoam. As personagens cruzam-se, conduzidas por um destino que não dominam, na noite em que tudo começa e tudo termina. Num estilo seco e desconcertante, Jerusalém aponta para as dimensões pessoais e coletivas do terror e expõe a capacidade humana de vigiar, oprimir e torturar – às vezes em dimensões hiperbólicas.

    A história passa-se numa pequena cidade, onde os personagens se interagem, na sua grande maioria, ao acaso, donde Theodor Busbeck, ex--marido de Mylia, é um renomado médico no declínio da sua carreira. Já Mylia, sua ex-mulher, apresenta traços de insanidade, afirmando ser doente desde o seu primeiro encontro com Theodor Busbeck e, devido a essa sua loucura, é internada no hospício Georg Rosenberg, sob a custódia do diretor Gomperz Rulrich, um senhor de inteligência média, que se esconde atrás de um emprego que acredita trazer-lhe posição social, mas inveja o trabalho de Theodor Busbeck.

    Kaas Busbeck, filho registado em nome de Theodor, tem problemas físicos que o impedem de ser uma criança “normal” que, por se sentir menosprezado perante os outros, devido às suas desvantagens físicas, estando sempre a ser observado por seu pai, força a normalidade dele através de condutas grosseiras e violentas.

    Já Hinnerk Obst, ex-combatente de guerra, sofre de fobias sociais provenientes do ambiente onde passou parte de sua vida adulta, transportando sempre consigo uma arma que acreditava ser a garantia de paz. Ameaçava as crianças na rua, apontando às suas cabeças, na janela do seu apartamento, para testar a pontaria.

    E é com esses quatro personagens (principais) que o romance se desenvolve, incorporando as suas vidas em acontecimentos terríveis e, muitas vezes, verdadeiros. Uma outra leitura que se retira é a comparação entre o comportamento daqueles que são considerados loucos e os ditos normais. A loucura de algumas das personagens faz-nos criar uma empatia com elas, pela desresponsabilização dos seus actos. Curiosamente, ou não, será Theodor, o médico, quem inspira menor confiança, pois nada tem que desculpe a sua insensibilidade no momento da morte do pai, e mesmo no tratamento a Mylia. O autor usa a imagem de uma caixa negra como metáfora desta relação loucos/normais: quem está lá dentro vê o que está dentro e o que está fora; mas, estes últimos, só veem o que está fora. A acentuar a dicotomia, temos ainda o facto de os personagens “normais” serem capazes de atos de violência e repulsa para com os seus semelhantes, enquanto os loucos têm sentimentos e são capazes de sentir amor uns pelos outros ao ponto de gerarem vida. Contudo, não é só sobre essas questões filosóficas em que se contrói o livro. Gonçalo M. Tavares desenha com maestria o avanço e recuo na história, misturando acontecimentos passados, futuros e presentes de forma a provocar o desejo do leitor, que por muitas vezes é surpreendido por imaginar algo que na verdade se mostra totalmente diferente.

    Assim, através de contos, Gonçalo M. Tavares traz para nós um universo autónomo, louco, realista e cruel, que a muitos poderá chocar. Mas, que na verdade se trata apenas de uma visão filosófica e realista sobre a sociedade moderna, onde loucura e sanidade se misturam a fim de compor esta obra. É um livro sobre os limites da loucura e da razão. Também sobre a crença.

    Quem lê Jerusalém não esquece.

    (*) [email protected]

    Por: Ricardo Soares

     

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