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    Arquivo: Edição de 01-03-2014

    SECÇÃO: Crónicas


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    Pedro, o Grande

    O João tem 9 anos e com o tempo, além de se ter tornado viajante diário do mesmo autocarro que o meu, ficou amigo. É fácil ficar-se amigo do João e deixar que ele nos conquiste o coração e isto muito por uma simples característica invulgar nos adultos, mas particular nas crianças – genuinidade. É impossível que ao seu lado estejamos tristes ou abatidos porque ele não deixa. Envolve-nos com um beijo ou um abraço e distrai-nos a atenção através dos cadernos escolares que gosta de mostrar: briosos. Ao detalhe, pormenoriza o que lá está espelhado como ensinamento. Tudo isto sob o olhar atento de uma mãe, ainda de olhos tristes porque por vezes diz que a vida não terá sido muito justa: no ano passado retirou ao João o direito de ter o seu pai com ele, ceifando-lhe a vida com pouco mais de 50 anos de idade.

    Quando a Alice me explica como foi de forma rápida que a doença se apoderou do pai do João, ele ouve atentamente e procura desde logo lembrar os episódios alegres das suas vidas, enquanto o tinham entre eles. Normalmente resulta porque ajuda a sua mãe a conter a emoção. Sendo mais raro que a vida nos cruze nos finais de dia, quando isso é possível ele mostra-me de imediato os seus TPC’s. Trocamos impressões sobre isso e eu falo-lhe também dos meus. Agora ele vai percebendo que também eu estabeleço os meus TPC’s e explico-lhe num termo que um menino entende: pegar num pensamento ou numa preocupação ou num estado de espírito e fazer uma composição.

    O João anda intrigado – pedi à sua mãe para oportunamente me deixar usar a sua foto numa ponderação que quero fazer. Quando lhe agucei a curiosidade com o título pergunta-me ele: «Glória, como é que vai chamar ao seu texto “Pedro, o Grande”, usar a minha foto, que sou o João e falar sobre as mulheres?». Esse era o grande desafio, respondi-lhe. Isto porque de um ano para o outro continuava a sofrer perdas irreparáveis e que têm a ver com vidas humanas. Gente nova, também e que fizeram com que o Natal do largo da minha rua este ano tenha sido diferente porque sabíamos que ali perto, a “Rosinha da farmácia” cuidava do Pedro – o seu marido de sempre, um pai de sempre e o amigo de muita gente.

    Todos contávamos com a força da Rosinha e o respeito que nos merecia a coragem do Pedro, um homem de 53 anos que em dois meses precisou de preparar-se para uma viagem abrupta, que o iria enviar para a tal “Terra do Nunca”, ou o lugar que cada um lhe destinará ao abrigo da sua fé. Quando também eu me fui despedir dele, achei-me no dever de lhe curvar a cabeça em gesto de respeito. Olhando-o ali deitado, inesperadamente surgiu-me à ideia “Pedro, o Grande”. É mesmo preciso ser-se “grande” para enfrentar uma batalha em que percebemos que vamos sair derrotados e precisamos de despedir-nos de uma vida a quem demos tanto.

    Às vezes olho para o meu cantinho e sinto-me dispersa. Gostava de não precisar ponderar sobre coisas tão profundas como os sentimentos mas, deixar em branco estas passagens para mim torna-se demasiado pesado. Escrevendo, “descarrego” e fica mais leve seguir em frente, ainda mais que em cima da minha secretária e desde há algum tempo estava um DVD que me tinha sido emprestado pelo meu vizinho, “Bino-Kurov”, que sabe deste meu gosto por descortinar vida nas coisas ou nas pessoas. Na capa deste DVD lia como título “O meu coração ficará no Porto” e, ao passá-lo no computador pude ver um excelente documentário sobre Humberto Delgado.

    Foto ARQUIVO GL
    Foto ARQUIVO GL
    Cinquenta anos depois o Porto evocava um dia em que uma manifestação sem precedentes marcou o início do fim de uma ditadura – 14/05/1958. Quanto terminei de ver percebi que estava perante uma outra pessoa que passei a classificar na categoria de “O Grande”. Encontrei-lhe o denominador comum que encontro nas pessoas que me despertam sentimentos de escrita – a coragem. Este homem foi corajoso, mais e muito mais dos que o liquidaram à queima-roupa.

    Foi pena que as diversas ordens honoríficas que lhe tinham sido atribuídas até 1957 não o tivessem protegido. De nada lhe terá valido tudo aquilo que terá feito para merecer essas distinções que, por certo, ao atribuírem-nas terão pensado que tivessem o peso e a força suficiente para o aquietar. Claro que agora é nome na história, nome de ruas e praças mas merecia não ter sido traído pelo seu próprio país. Desta vez não foram os “soldados rasos” que pereceram na frente da batalha – foi um general, que se colocou na “frente da batalha” e a quem terão silenciado a forte e convicta voz de comando.

    Do que conheço do João e se lhe lesse este apontamento perguntava desde logo – «Glória, e onde entra aqui o valor das mulheres?». A resposta teria que ser: em tudo. Por exemplo, em 20/01/2014, li: «…De acordo com uma nota biográfica fornecida à Lusa pela família, Maria Iva de Andrade Delgado faleceu esta quinta-feira em Lisboa, aos 105 anos de idade. Segundo a nota fornecida pela família, em 1958, «temendo embora que a candidatura de seu marido à Presidência da República tivesse graves consequências para o próprio e para a família, [Maria Iva Delgado] apoiou-o com inteira abnegação, tendo participado activamente na mítica campanha eleitoral. (…) A sua influência foi depois determinante no sentido de Humberto Delgado pedir asilo político ao Brasil, país onde estiveram juntos pela última vez em 1960. Apesar da sua sensibilidade tradicional de mãe de família, Maria Iva Delgado acabou por ter um papel indiscutivelmente político enquanto mulher e depois viúva do 'General Sem Medo', só tendo autorizado a trasladação dos restos mortais de seu marido para Portugal após a restauração da democracia», refere o texto.

    Humberto Delgado não morreu só – aquando da sua “execução”, a sua secretária que o acompanhava, Arajaryr Campos, terá acorrido em auxílio do general e foi atingida por agressões violentas que lhe causaram a morte. Também a Alice tinha apoiado o seu marido no desejo que teve de vir findar o seu tempo na sua casa. A Rosinha definhava dia após dia sabendo que nada mais poderia fazer pelo seu Pedro. Uns dias antes eu tinha lido que Théo Sarapo, a quem o mundo chamou gigolô oportunista, se tinha suicidado há muitos anos, deixando um bilhete na sua mesinha de cabeceira onde estava escrito – “Pour toi, Edith, mon amour”.

    Só depois da sua morte o mundo se terá apercebido que este homem (20 anos mais novo que a sua mulher) fez orelhas moucas ao que de si se dizia por ter casado com Edith Piaff – à morte dela efetivamente tinha sido o seu único herdeiro, dos direitos discográficos e cinematográficos mas também das dívidas que se tinham acumulado pela vida de excesso desta mítica cantora e consequentes danos de saúde que isso lhe terá acarretado. Théo Sarapo, discretamente e só, sem mais alguma vez ter sido visto com outra mulher, limpou o seu nome, limpou o nome da mulher que amou e só depois se despediu da vida.

    8 de março será o Dia Internacional da Mulher e este ano não escolho rosas para o lembrar – procurei o pensamento de alguém que me fizesse sentido, mas escolhi um provérbio: «Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar». O melhor será nunca hostilizarmos a força de cada um e, tal como se diz, «o respeito é muito bonito!», daí que todos devemos fazer por isso, porque merecemos, quer se seja mulher, quer se seja homem. O sábio povo também diz que “de pequenino se torce o pepino” e o João já vai no bom caminho porque os corações que ostenta na foto foram feitos a pedido da sua professora para que no dia 14 de fevereiro os dedicasse a mulheres que já são importantes na tua tenra idade e, de certeza, a sua mãe será uma delas.

    Por: Glória Leitão

     

     

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