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Edição de 31-07-2021
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    Arquivo: Edição de 15-12-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    Dia 25 de novembro comemorou-se o “Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres”. É um assunto a que não podemos, nem devemos, estar alheios. Demasiado grave mas também tão profundo que o que quer se possa esmiuçar sobre o cerne desta questão terá que ser feito por especialistas, credenciados e homologados, para sustentar algo que nos possa ajudar a entender este fenómeno dramático. Quanto a mim, quando leio a palavra “violência”, qualquer tipo de violência – seja contra mulheres, homens, crianças e mesmo animais, fico desconfortável e profundamente triste.

    Por norma, ouvimos dizer que a “violência gera violência” e isso vem-nos de pequenitos até pela “mutação” a que assistimos numa evolução tão simples como os “desenhos animados”, que a evolução transformou em “jogos de guerra”, que prendem os miúdos, horas a fio, às suas pequenas caixas mágicas. Depois a vida habitua-nos a conviver com cenários de violência. Ainda hoje e ainda manhã cedo, enquanto me preparava para um novo dia ouvia o noticiário que passa na televisão – lá surgem as interrupções para publicidade a que juntam o “despertar” para o interesse de seguir as novelas que o dia há-de transmitir e quase sempre em pequenos excertos com cenários de violência, mesmo numa que para mim é pior: a psicológica, que silenciada e acumulada, se torna numa “bomba-relógio” que rebentará com o simples acionar do clique da mente.

    Os telhados de cada casa sempre e cada vez mais irão encobrir “sabe Deus o quê”. Mesmo os que estarão “por perto” somente nos “Post Mortem”, é que se mobilizam em opiniões, e quase sempre há uma que se torna cliché: «– Algum dia dava nisto!». Porque continuo a pensar que nunca seremos detentores de verdades absolutas (ainda mais porque elas divergem segundo os padrões de cada um) na história que um dia precisei de escrever para a Ritinha ainda hoje e cada vez mais continuo a reconhecer como heróis os que ficam quando muitas vezes queriam partir e isto quer sejam mulheres, homens, crianças e até animais. Oxalá se tornasse prática o que um dia li – «o que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. É na não-escuta que ele termina. Aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção» (Rubem Alves).

    Ia eu construindo esta reflexão e Nelson Mandela passava a fazer parte da história. Deixava-nos a nós e aos que nos sucederem lições que cada um interpretará à sua maneira. Ouvia também no noticiário que na África do Sul – onde nesta altura andavam de “candeias às avessas” a nível interno e entre pares – abriam tréguas entre todos e todos se uniram num estádio que se encheu perante um mundo que se curvou a um homem que achava que «ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou ainda pela sua religião. Para odiar, as pessoas precisam de aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar». Penso ser incontornável o entendimento de que esta forma de ser, este tipo de atitude e esta forma de acreditar nos conduzir-nos-ia à paz.

    Foto ARQUIVO GL
    Foto ARQUIVO GL
    E foi a pensarmos em paz que a Susana nos relata um episódio que a tocou quando neste mês de dezembro, já no cair da noite, se deparou com um baloiços familiares (com capacidade para quatro pessoas), que se encontravam distribuídos de forma dispersa pela “Avenida dos Aliados”. As pessoas podiam escolher os temas que os identificavam. Ela escolheu um onde estava sentada somente uma pessoa. Pediu licença para se sentar e balouçar-se ao sabor da magia que encontrou ali e tão precisa e preciosa para atenuar a exigência do compreensível e incompreensível de quem trabalha numa área social. Passado um bocadinho o “seu par “ despedia-se e dizia que já podia ir embora porque tinha encontrado alguém que não deixaria sozinho o “baloiço da paz”.

    Este episódio foi-nos contado quando a Susana nos apoiou na “Feira de Saberes” onde, graças a pessoas generosas, a nossa Associação pôde marcar presença e promover uma venda social. Os preços eram simbólicos e aqui tocou-nos uma criança que nos comprava uma fita de Natal – custava 10 cêntimos e ele, feliz, dizia que era o que tinha para enfeite de Natal, numa árvore que ficamos com a ideia de que não iria existir. Naquele “largo da feira velha” voltávamos a integrar um projeto construído no sentido de se promover e divulgar as competências de pessoas que batalham na procura de emprego. Aqui, também eu tive a oportunidade de ter o meu presépio, pequenino e feito de enfeites de Natal que foram reutilizados.

    Uma semana diferente, partilhada com tanta gente de vidas diferentes. Quando podia “passear-me” pelas banquinhas de artesanato (e outras), onde todos, por motivos também diferentes, precisávamos de acreditar que o amanhã será um dia melhor, dei por mim a lembrar uma pequena citação de Vergílio Ferreira – «Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá».

    Feliz Natal!

    Por: Glória Leitão

     

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