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    Arquivo: Edição de 15-12-2013

    SECÇÃO: História


    A expulsão dos judeus no início do reinado de D. Manuel I

    Foto ARQUIVO MAD
    Foto ARQUIVO MAD
    Foi no dia 4 de dezembro de 1496, há 517 anos, que D. Manuel I forçou os judeus a converterem-se ao Cristianismo sob pena de expulsão do Reino, assim como os muçulmanos.

    Já em 1492, após a conquista de Granada, os judeus haviam sido expulsos de Espanha pelos Reis Católicos, por não quererem converter-se ao Catolicismo. Na sequência dessa expulsão, cerca de 60 000 judeus vieram para Portugal (mas há quem refira terem sido mais de 90 mil), por deferência de D. João II que os obrigou, no entanto, ao pagamento de oito ducados de ouro por pessoa para, em troca, obterem a necessária licença de trânsito por oito meses. Aqueles que não tinham essa importância viram os seus bens confiscados por ordem real e, pior que isso, foram-lhes igualmente retirados os filhos menores de 14 anos, que foram batizados à força e entregues a Álvaro de Caminha, que com eles povoou a ilha de São Tomé, onde, infelizmente, a maioria não resistiu às condições climáticas.

    Com a morte de D. João II (e o prematuro desaparecimento do seu herdeiro D. Afonso), sucedeu-lhe o primo e cunhado D. Manuel I, que, embora se mostrasse bastante tolerante com os judeus, anunciou a 4 de dezembro de 1496, em Muge (onde andava na caça), a intenção de expulsar a comunidade judaica de Portugal, por influência dos Reis Católicos, aquando da negociação do seu casamento com a Infanta D. Isabel, filha desses mesmos Reis. D. Manuel I cedo se apercebeu de que a saída dos judeus levaria, também, à fuga de capitais do Reino, pois a comunidade judaica era constituída por um largo conjunto de mercadores, banqueiros, médicos, economistas, ourives, e por outros profissionais ligados aos próprios descobrimentos portugueses. Era, portanto, gente de iniciativa e endinheirada que fez muita falta à pátria portuguesa.

    Portugal acabava, assim, com a coexistência judaico--cristã-muçulmana, evidenciando uma grande intolerância religiosa. Esta conversão forçada dos judeus portugueses que, hipocritamente, foram rotulados de “Cristãos-Novos” e a expulsão da minoria muçulmana só contribuíram para a decadência de Portugal.

    Consciente deste impacto negativo, em 1499, D. Manuel proibiu os cristãos-novos de sair de Portugal, permitindo-lhes o acesso a cargos políticos, administrativos e eclesiásticos. O rei permitiu ainda que praticassem a sua religião de forma secreta, revelando grande benevolência para com os antigos judeus. Contudo, o rótulo de cristãos-novos esteve na base de várias perseguições e até massacres, obrigando muitos dos cristãos-novos a sair do País.

    Um desses massacres ocorreu em Lisboa, no dia 19 de abril de 1506, no largo frente à Igreja de S. Domingos, onde pereceram centenas de judeus acusados de, como hereges e assassinos de Jesus Cristo, serem os responsáveis pela seca, fome e peste que assolavam o país naquela altura. Alguns monges dominicanos terão sido responsáveis pelo incitamento à violência e pagaram com a vida esse seu envolvimento.

    Depois da expulsão manuelina, no início do século XVI, conta-se que uma das embarcações carregada de judeus com destino a África naufragou, em maio de 1501, perto da Ilha Terceira, nos Açores, salvando-se alguns junto à costa, já muito perto de Angra, num local que ainda hoje se denomina Porto Judeu. Esses judeus foram oferecidos como escravos a Vasco Anes Corte-Real (Capitão Donatário de Angra), que, no entanto, os acolheu bem e tratou como iguais, evidenciando uma tolerância que se antagonizava claramente com o fanatismo que progredia em Lisboa e soube reconhecer as suas capacidades e integrá-los dignamente na sociedade terceirense, permitindo-lhes a prática dos rituais judaicos. Em 1558, a comunidade de cristãos-novos de Angra, já bastante numerosa, contribuiu com 150 mil cruzeiros para o provimento das armadas da Índia, no tempo da Regente D. Catarina, avó de D. Sebastião, que lhes permitiu mais uma década de paz na Ilha.

    Muitos dos judeus expulsos de Portugal fixaram--se na Holanda, onde encontraram um clima de grande tolerância religiosa e política, permitindo o seu envolvimento nos negócios internacionais que fizeram, então, da Holanda uma das maiores potências do comércio marítimo mundial.

    Em 1602, muitos deles envolvem-se diretamente na criação da famosa Companhia das Índias Orientais, que irá ocupar os territórios e mercados até então sob o domínio português, ao tempo controlado pela Espanha filipina, sua inimiga.

    Um descendente célebre destes judeus portugueses foi o filósofo Espinosa, que é também um dos símbolos das profundas relações luso-holandesas. A numerosa comunidade portuguesa manteve-se muito unida em torno da famosa Sinagoga de Amesterdão até à 2ª Guerra Mundial, altura em que foi totalmente dizimada pelas bem conhecidas perseguições nazis.

    Outro português famosíssimo ligado aos cristãos--novos portugueses foi o insigne médico Ribeiro Sanches que escreveu muitos artigos ligados à medicina, na Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, e foi médico da Imperatriz russa.

    Por: Manuel Augusto Dias

     

     

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