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Edição de 31-12-2019
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    Arquivo: Edição de 20-09-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    A boneca de trapos

    Há muitos anos atrás, em tempos em que as pessoas tinham o culto de amealhar o mais que podiam, a avó Natalina colocou todo o seu amor numa boneca de trapos que fez para a sua neta que tinha ajudado a criar, tendo em conta que, num tempo forte de emigração, esta menina ficou ao seu lado enquanto os seus pais e irmã iam na conquista de um mundo novo, na procura de novas oportunidades e onde, à força de muito trabalho e sacrifico tudo poderia ser melhor. Recentemente esta avó partiu para a “terra do nunca” e esta neta (ainda de olhar triste), agora com 41 anos, trazia o seu “tesouro” na mão, pois queria guardar e proteger a sua boneca que ficará como legado para a sua filha. Claro que todos quisemos ajudar e lá andávamos a tentar saber onde se poderia emoldurar a preciosa boneca de trapos.

    Toda a informação que se ia obtendo direcionava para o local onde se “tem tudo”: os shopping’s. Mas aqui todos sabemos que os preços têm que ser elevados, porque os encargos de quem usa aquele espaço são também elevados e a avó Natalina não ia querer isso. Deveria haver outra alternativa e eu, numa necessidade que tenho de ocupar os finais de dia com aprendizagem – tinha completado 75 horas de formação assustava-me a ideia de que em agosto teria que parar, tendo em conta que ainda não encontrei o botão “off “do meu cérebro –, fiquei feliz porque tinha arranjado um objetivo útil para os meus finais de tarde. Após algumas “investidas” junto de lojas que eu conhecia e outras que iam sendo indicadas percebi que todas tinham fechado. Não tinham resistido à crise que foi agravada pelas tradicionais lojas dos “chineses” (a nomenclatura popular para as anteriores “lojas dos trezentos”), com preços impossíveis de combater.

    Fica-nos uma sensação de desconforto no estômago quando ao caminhar pelas ruas vemos tanto pequeno comércio de portas fechadas e que encerraram consigo tantos sonhos, tantos anos de história, tantas horas de dedicação, tanta angústia e tanta incerteza, até à difícil decisão que tem que ser tomada: “encerrar”. Mas, depois, lá interiorizamos que a vida continua e é isso que o bom senso manda…continuar. Eu também seguia em frente com o objetivo de encontrar alguém que fizesse uma “casinha digna” para a bonequinha de trapos e, de repente, lembrei-me dos artesãos, aquelas pessoas que disponibilizam os seus dons na feitura daquilo que os apaixona e absorve em tempos livres (e não só) e que lhes serve como escape e até terapia. Decorria nesta altura a “festa da minha terra” e eu tinha a oportunidade de visitar a feira de artesanato que acontecia a par com estas festividades – de certeza que lá encontraria solução.

    Foto GL
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    Voltei a fazer o percurso da minha infância, que era acompanhado pelos sons da tradicional “banda da música”, que se iam tornando mais percetíveis à minha aproximação do local da festa e, quando vou na procura da tal feira de artesanato, de repente, lá estou eu a olhar para um parque de estacionamento, batido pelo calor de um sol intenso do dia 15 de agosto, quando me deparo com dezenas de banquinhas, devidamente organizadas e coloridas por criações diversificadas, multicores e a preços “low cost” – bom senso por parte de quem não ignora os “dinheiros curtos” dos tempos de hoje. Ia começar a minha “ronda”, na procura do que me levava lá quando, de repente, olho para uma em especial e que entre outras ofertas apelativas tinha escrito: café. Aproximei-me, porque não via como tomaria eu ali café. Estava lá a máquina de café sim senhor e quando pedi o “meu café” um jovem de bom trato, pediu-me o favor de esperar porque sendo uma máquina “tipo caseira” tinha procedimentos mais lentos.

    Esta espera foi preciosa porque olhei para um pequeno espaço, limpo e brioso, onde havia um “pedacinho de tudo” para quem quisesse lanchar e matar a sede. A este jovem juntou-se o irmão e ambos me explicaram que se tinham tornado uma equipa que investiu naquele projeto como hobby e também uma forma de poderem ganhar mais “uns trocados”, fazendo uma coisa de que gostavam. Ambos da área da metalomecânica, mostravam-me, orgulhosos, tudo aquilo que tinham idealizado com a sua criatividade e que foi construído com as suas próprias mãos. Tudo num esmero que dava gosto e não poderia ser de outra forma porque isso passava na limpeza, no seu atendimento desprendido e educado e ainda no querer de quem quer… muito, acima de tudo ser feliz. E ao terminar a conversa com estes dois irmãos, que me disseram chamar-se Márcio e Tiago, a minha última surpresa… – eram de Ermesinde. Eu, que não tinha conseguido ir à festa de S. Lourenço dar os parabéns aos meus amigos “Ultra” (por se terem mantido de “pedra e cal” ao lado do clube de futebol da sua terra), dava por mim a pensar que efetivamente as pessoas não nascem do solo e não se “cimentam” nos solos – movem-se na dimensão dos seus sonhos e dos seus objetivos, fazendo-nos cruzar em qualquer pedacinho de terra, independentemente do seu nome.

    Neste dia de agosto consegui encontrar a tal solução através de um contacto que obtive e entregaria no dia seguinte à neta da avó Natalina, para que ela conseguisse “dignificar” a sua bonequinha de trapos e tudo o que ela sentimentalmente representa. Também, neste dia, vi-me perante dezenas de pequenos empreendedores (alguns amigos da minha infância nestas terras de Vermoim), que representam todos os outros, espalhados por esse país fora e que não cabem num texto, por tudo o que se possa dizer sobre a riqueza dos seus dons, a força da sua coragem, da sua persistência e da sua motivação – tudo acompanhado por sorrisos, que nem sempre espelham o que nos vai na alma.

    Por: Glória Leitão

     

     

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