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    Arquivo: Edição de 30-06-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    A barraquinha da saudade

    Eu pensava que já tinha encerrado o tema das festas sanjoaninas, ainda mais que percebia estar bastante cansada fisicamente e ia optar por não ir para a noitada de S. João e tentar descansar, que foi o que fiz. Contudo, ao chegar do trabalho no sábado, vi um aglomerado de lenha no largo do Cavaco, a rua onde moro, e percebi que ia haver outra vez a fogueira do S. João.

    Acho que eu, e todos os que por ali moram, pensamos que este ano a rua não a ia ter, porque o Abel, o tal “guerreiro” que travou a luta contra o cancro já veio para casa mas ainda está convalescente e precisa de ganhar força para enfrentar a próxima batalha – a quimioterapia. Só que nos esquecemos que tínhamos o Tone, o filho da ti Celeste que está sempre lá, pronto para ajudar e sempre pronto para a borga e cá por dentro sorri da teimosia deles em manter viva esta tradição da rua.

    Comentava isto com os meus pais quando estávamos os três à mesa a comer as nossas sardinhas, e o meu pai, que vai fazer oitenta anos mas tem um registo de memória invulgar, também ficava contente por saber que afinal a rua ia ter a sua fogueira, e penso que todos achamos que isso ajuda a perdurar a memória do homem que, há mais de 40 anos, se atreveu no pioneirismo de organizar uma comissão para se levar a efeito a primeira festa de S. João que, apesar de outras se lhe seguirem, ficou memorável na história da nossa rua – a primeira.

    Relatava-me o meu pai que tudo tinha começado a ser organizado por ideia do Sr. Rodrigo, com o reforço do Sr. Sebastião e poucos mais, numa reunião que teve lugar no tasco da tia Lina e do tio Pedro, que ficou o eleito para a presidência desta comissão, e também com a responsabilidade de tesoureiro de todo o rendimento gerado nesta festa, e que incluiu um peditório que se organizou pelas portas. E ainda hoje o meu pai dizia terem ficado admirados porque o nosso pacato vizinho, Sr. Barros, também “vestiu” a camisola do entusiasmo e se atreveu a dar a cara por uma coisa que todos estavam céticos de poder ter sucesso.

    Pedida licença à Câmara Municipal, que autorizou mediante a garantia que parte do lucro tinha que ser dada a uma entidade de cariz beneficiente, arrancou a aventura e todos começaram a acreditar e a envolver-se. E tínhamos a Zeza, a filha da ti Celeste, e a Lina que se lhe juntou a fazer as decorações que iam engalanar a rua – as fitinhas coloridas que foram coladas em metros e metros de corda, bem como as bandeirinhas alusivas a estas festividades.

    Depois tínhamos a barraquinha que tinha sido batizada com o nome da “barraquinha da saudade”, que servia como bar de apoio e que com o balcão de atendimento em madeira toda a sua estrutura era forrada com ramos de carvalho e amieiro, de tal forma que tinha que resistir às temperaturas e às partidas que o S. Pedro pregava quando mandava a chuva que regava muitas vezes as festa,s mas não impedia que as pessoas fossem provar os petiscos e o caldo verde que era feito e distribuído nas tradicionais tigelas pela “tia Bina Caçoula”, uma das mulheres que estava sempre pronta para arregaçar as mangas e ajudar, disponibilizando-se para apoiar quem lhe pedisse ajuda.

    Alugaram-se os bombos para animar a festa a um senhor da quinta nova, que os tinha exatamente para este efeito, ainda mais que naquele tempo eram muito utilizados porque também fazia parte da tradição da altura que os rapazes, quando iam à inspeção militar, passassem a noite a tocar bombo.

    A aparelhagem de música era alugada ao Jaime, conhecido de todos porque abastecia de som tudo o que era festa, ainda mais que o meu pai frisava o “modernismo” já da altura, pelo facto de ele ter mesa de regular o som (a mesa de mistura), som que era espalhado pelos potentes altifalantes que eram distribuídos estrategicamente pelos pontos que ele identificava como os ideias para receber as colunas que nos alegravam e divertiam com a música escolhida por este “disc jockey”, ou ainda quando, em desafio, as pessoas dedicavam músicas muitas vezes matreiras uns aos outros, pagando os “vinte e cinco tostões estipulados”.

    Foto ARQUIVO GL
    Foto ARQUIVO GL
    Foi um sucesso esta primeira festa e também foi com orgulho que esta comissão entregou na altura à igreja cerca de um “conto de reis”, parte do apuro que estas pessoas conseguiram num ato de “pioneirismo” que deu origem a outras festas que depois de dispersaram por outros pontos da freguesia e onde outras comissões se seguiram, dando continuidade às festividades sanjoaninas.

    Com aquela ideia que tenho de que quem parte desta vida está feliz num cantinho do céu, penso que o senhor Rodrigo está feliz porque a chama do seu sonho também não se apagou este ano, ainda mais que o café JoaSam e que agora se chama “Cafetaria Joa-Sam” voltou a abrir, com os seus donos originais Joaquim e Sameiro (Joa+Sam) que já trouxeram como sócia a pequena Filipa, a sua filha mais nova, que cresceu de tal forma que agora já constituiu a sua própria família que já foi abençoada por dois pequenos rebentos que animam e alegram este espaço, e foi também esta família que cedeu a sua garagem para que um grupo de “de gente do nosso tempo” se juntasse num alegre convívio de S. João.

    Fiz bem em ficar a descansar, porque a minha semana de trabalho ia começar com a definição de objetivos muito exigentes que impus a mim mesma, e isto faz-me sempre situar em Ermesinde, a terra que me acolhe para trabalhar, mas aqui a ironia da vida faz também das suas graças quando nos cruza com histórias que nos fazem perceber que o “mundo é mesmo pequeno”, porque os lotes de terreno onde está situada a casa dos meus pais e vizinhos e que na altura serviram para a instalação da tal “barraquinha da saudade” foram comprados a um tal “Dr. Moreira”, familiar muito chegado de uma senhora de Ermesinde e conceituada arquiteta, apaixonada e diretora de um órgão de informação local que se chama “A Voz de Ermesinde”.

    Cheguei a essa conclusão porque o meu pai sempre nos lembrou este senhor como um “grande amigo dos pobres” e que, pela sua generosidade e compreensão, permitiu que o terreno de cultivo de nossa casa crescesse mais 15 metros, vendendo--nos mais esse pedacinho de terra a troco de 500 escudos por mês que uma família humilde como a nossa e a do nosso vizinho, o Sr. Oliveira, entregavam, porque era impossível comprar tudo a pronto naquela data.

    Quando nos fala dessa atitude que sempre os fez estar gratos a este senhor, também o meu pai me relatava histórias desta conceituada família, que também foi dona do terreno onde foi instalada posteriormente uma grande empresa que já fechou. Diziam que era um terreno cheio de choupos e foi aqui que me cruzei com a emoção desta Senhora que, numa reunião que tivemos no jornal, ao saber que eu morava em Vermoim, me contava do seu amor de criança: vir de férias para junto da tia que lhe era muito querida e andar com ela na descoberta da natureza nos seus terrenos, cheios de choupos, e que eram na realidade os terrenos da tal empresa – a Finex.

    Finalizando o tema das festas sanjoaninas, continuávamos a recordar à mesa que a “barraquinha” era desmontada logo a seguir ao S. Pedro, a festa que também é de grande tradição popular lá para os lados da Afurada. Contudo, uso esta data, 29, que também sinaliza o nascimento de uma senhora que tem o nome de flor - Rosa, uma mulher de pedra e cal tendo em conta que fez agora oitenta e sete anos e mora num outro cantinho da saudade, Leça da Palmeira – a praia da minha infância –, e que noutro dia me emocionava quando fiz a minha caminhada de uma despedida que precisava fazer da Boa Nova e lá encontrava o meu sitio de sempre, que estava sinalizado pela “bola da nívea”, intemporal, no meu registo de menina e moça.

    Não sei se lhe fiz a justa homenagem Sr. Rodrigo, e se calhar nem preciso de dizer-lhe, porque o senhor deve ver aí de cima que a sua família continua a caminhar e a lutar conforme pode, e penso que também ouviu a sua filha falar comigo para me dizer que me ia alegrar com uma notícia: estava a receber formação para subir mais um degrauzinho lá na empresa onde trabalha. Ela não sabe que eu nunca duvidei disso, porque todos sabemos que se quisermos muito, se lutarmos muito e se nos soubermos também defender muito, os nossos sonhos podem estar na palma da nossa mão.

    Foi parte desta história que contei à D.ª Romana e ao Sr. Queirós, os novos vizinhos que regressaram da Alemanha, após 45 anos de ausência, e escolheram a nossa rua para descansar e gozar a sua reforma e que ficaram surpreendidos e felizes porque nesta noite de S. João não se sentiram sós, porque foram aceites e integrados no tal convívio da “gente do nosso tempo” e depois vieram aquecer-se no calor de uma fogueira que eu desejo muito nunca se apague.

    Por tudo o que um dia começou, cumpre-me dizer o que sinto e sentirá grande parte das pessoas que vão ficando cada vez mais maduras mas se mantêm sempre aqui no nosso largo – obrigado Sr. Rodrigo, por um dia se ter atrevido a sonhar e a lutar por aquilo em que acreditou e é justo que este agradecimento seja alargado aos que se envolveram e envolvem nestes projetos, e se alguns já partiram desta vida, há muitos que ainda cá estão e que seria difícil citar, porque aí correria o risco de esquecer alguém que de certeza não seria merecedor da nossa ingratidão.

    É verdade, esquecia-me de lhe dizer que as excursões que o senhor começou a organizar lá vão continuando a fazer-se e continuam a fazer muita gente feliz. Também sinto falta de passar ao portão da sua casa e ouvir o seu respeitoso “Bom dia menina!”. Eu sei que tenho lá muitas vezes sentada na varanda a sua esposa que me diz o mesmo, mas as pessoas, a que chamamos seres humanos, são únicas no seu ser e impossíveis de substituir, pelo menos na nossa memória, e é bom que assim seja!

    Por: Glória Leitão

     

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