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    Arquivo: Edição de 30-06-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    No tempo em que tudo fala

    Sempre que nos reportávamos ao passado nas conversas, ditas ou escritas, com as crianças, localizávamo-nos numa época indefinida que leitores ou ouvintes nem conseguiam, mentalmente, projetar. E era esse o primeiro passo para formatarmos a verdadeira história.

    – No tempo em que os animais falavam…

    Vem dessa idealização o dito popular e bem-humorado “quando as galinhas tiverem dentes”, como se, algures no passado, houvessem tido outros dons de que, agora, carecem. A proximidade entre os vários seres da natureza existe desde os períodos históricos mais recuados, quando o homem vivia entre ramos e folhas das árvores, interagindo com outros bichos, adiante domesticando-os ainda nas cavernas e pelos tempos afora, tão próximos que partilhavam a comida e o abrigo, muitas vezes as próprias doenças, certamente sentimentos e emoções. Ao longo de milénios, essa interação foi evoluindo de tal maneira que o relacionamento entre um e outros passou de ocasional a permanente, de simples companhia a familiaridade, nutrindo-se de afetos quase de igual para igual.

    Essa partilha robusteceu-se com a solidificação, quase diria a irreversibilidade, do estado doméstico de alguns animais como o cão, o cavalo, ou a galinha. A restrição prende-se com as notícias de que, no país onde tudo acontece, matilhas de cães transformaram-se em alcateias e cavalos adaptados às condições de vida desde há milénios e retomaram a vida selvagem. Homem e animais aprenderam a compatibilizar as suas ações e procedimentos num equivalente e, com frequência, recíproco mimetismo. O homem foi entendendo quando os seus amigos irracionais tinham medo, fome, doença física ou algo mais complexo como stress ou depressão; de igual modo os invertebrados se davam conta de problemas físicos, mentais ou de situação dos respetivos donos e, saíam à procura de auxílio ou usavam as suas capacidades fonadoras para atrair quem pudesse vir ajudá-los. São inúmeros os testemunhos de salvamento devido à ação dos fiéis companheiros do ser humano, de proezas suas capazes de rivalizarem com as praticadas pelo homem, de atitudes que julgar-se-ia arredadas das suas capacidades emocionais e comportamentais como deixarem-se finar ao aperceberem-se de que os donos perderam a vida, mesmo que outros da nossa espécie se esforcem por ganhar a sua amizade.

    Cedo os homens de letras se deixaram impressionar pelos dons invulgares dos animais domésticos e de outros seres da natureza, humanizaram-nos ao torná-los personagens das suas composições. Esse recurso viria já desde o século XVIII a.C., sendo largamente cultivado pelos Hindus, passando pela civilização suméria, e tornando-se género pujante entre os gregos, não só com as fábulas em que sobressaiu Esopo, mas igualmente utilizado em obras de Hesíodo com a designação de apólogos – diálogo entre animais ou seres irracionais cuja interação não vem complementada em forma de moralidade explícita (a epimythia) – de Aristófanes e Platão como exempla e também em Aristóteles, que entendeu «ser a fábula muito útil ao orador por fornecer-lhe exemplos com muito mais facilidade que a história». (1) Também grandes escritores latinos, Catulo, Tito Lívio e Horácio por exemplo, fizeram uso de personagens não humanas nas suas composições, porém o mais citado é Fedro e, num grau menos visível Bábrio, que escreveu os seus textos em grego. No século XVII, La Fontaine deixou o seu nome imortalizado em obras desse géner,o recobrindo vastíssimo leque de virtudes e defeitos detetáveis nos comportamentos das pessoas.

    Mas o relacionamento entre o homem e os animais tem auxiliar precioso na linguagem, quer verbal, quer gestual, musical ou outra. É verdade que o papagaio, a pega e quejandos emitem sons articulados a que não podemos chamar palavras, sintagmas ou frases, uma vez que só decoraram o significante por incapacidade total de apreenderem o respetivo significado. A maioria, porém, é incapaz de emitir o mais elementar segmento verbal. No entanto, o cão, o cavalo, o gato, as aves de capoeira e outros obedecem a ordens verbais e todos aqueles que denominamos domésticos mostram-se sensíveis a ordens e à expressão de sentimentos por recurso a mensagens verbais ou mistas. Se nos intrometermos na floresta, reduto de animais selvagens, também conseguiremos estabelecer comunicação com determinadas espécies emitindo sons que lhes sejam familiares.

    Diferentemente acontece em relação ao reino vegetal. Tanto quanto nos é dado conhecer, o homem ainda não obteve sucesso relevante quanto à comunicação com estes seres vivos. Ele sabe como fazê-los germinar, dispensar-lhes cuidados desde o despontar até à idade adulta que varia, como é evidente, de família para família: semeadura ou plantação, limpeza, enxertia, poda, monda, lavra, cava, rega. Difícil é comunicar com eles, reconhecer os meios através dos quais se processam as suas mensagens de satisfação ou de dor, de amizade ou de queixa. Sabemos se estão doentes por sinais exteriores: a perda de cor e o murchar das folhas, a incapacidade de resistir à infestação de parasitas, o raquitismo, queda precoce ou apodrecimento dos respetivos frutos. Não conseguimos ainda decifrar as mensagens que poderão enviar-nos através do vento que, ao perpassar nos seus ramos, lhes possibilita a reprodução mas igualmente a transmissão de micróbios geradores de moléstias, processos que reconhecemos pelos efeitos, não conseguimos atuar sobre as causas; da água que leva às suas raízes os nutrientes que lhes garantem a sobrevivência e o desenvolvimento. Não dizem os cientistas que, apesar dos progressos alcançados até ao presente, há imensas outras coisas para as quais não temos ainda explicação, um caminho que torna pouco significativo o que até agora foi alcançado? Talvez não tenham pensado muito neste domínio, concentrando os seus esforços na procura de respostas para os aspetos mais imediatos da vida humana, que se perspetiva cada vez mais longa, para a luta diária do homem contra a doença, a conservação ambiental e dos recursos fundamentais como a água para uma população a cada dia maior, teoricamente também contra a escassez de alimentos, de remédios e de cuidados higiénicos onde enormes contingentes de homens, mulheres e crianças morrem de fome e de doenças que podiam ser evitadas.

    Foto ARQUIVO
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    A comunicação entre o homem e o reino vegetal pode esperar, embora botânicos e biólogos prossigam as suas pesquisas com grande empenhamento no sentido tradicional. Dedicam-se-lhe de alma e coração, pesquisam, experimentam, concluem. Dele colhem as alegrias e tristezas que resultam dos êxitos ou dos insucessos da sua atividade.

    O que surpreende não é já a interação emocional do homem com os os restantes seres vivos. Impressiona deveras o apego que muitos de nós têm por objetos tecnológicos, desde as motos aos automóveis, aos computadores e a outros companheiros do nosso dia a dia. Tal como Miguel Ângelo se enamorou da estátua de Moisés que acabara de esculpir e, no auge da sua exaltação, lhe vibrou um golpe de cinzel, ordenando-lhe “Parla!” como se aquela recriação pudesse responder ao sentimento que lhe dedicou o seu criador, existem pessoas que entregam a esses novos “brinquedos” parte significativa do seu coração a ponto de lhes dispensarem cuidados que pouco diferem dos que têm para com outras pessoas ou com os seus amigos animais. Conheci homens que gastavam horas e recursos em atenções com as suas viaturas pelo prazer de as contemplarem resplandecentes, luminosas como se fossem belas mulheres. Diz-se que os franceses, co-inventores do automóvel, lhe atribuíram o género feminino pela sua beleza e delicadeza, inteiramente merecedoras da sua devoção. Tive um vizinho que conversava com o seu meio de transporte durante as viagens e, supostamente, ouvia dele respostas que mereciam a continuação do diálogo:

    – Vá, menino, vê se tens juízo, olha que eu não tenho pressa.

    – . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

    – Ah! Eu é que tenho que ter cuidado? Pois tenho, mas tu não te armes em esperto. Há mais gente na estrada e não quero chatices. Já te disse que não tenho pressa.

    Quem contava era a esposa que ria com vontade, contagiando os que a ouviam e conheciam o senhor Vieira, excelente pessoa, muito sociável e educado.

    (1) Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira.

    Por: Nuno Afonso

     

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