Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 31-01-2023
  • Edição Actual
  • Jornal Online

    Arquivo: Edição de 10-12-2011

    SECÇÃO: Música


    Concerto de de homenagem a Helena Sá e Costa e de comemoração dos 70 anos do Coliseu do Porto

    No passado dia 25 de novembro realizou-se pelas 21h30 um concerto de homenagem à pianista portuense Helena Sá e Costa e festejaram-se os 70 anos do Coliseu do Porto.

    Esta mítica sala portuense foi aberta ao público a 19 de dezembro de 1941 com “A Consagração da Casa” de Ludwig van Beethoven, pela Orquestra da Emissora Nacional, dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco. A jovem, e já consagrada pianista, Helena Moreira de Sá e Costa, interpretou o 1º Concerto para Piano e Orquestra, de Felix Mendelsshon-Bartholdy.

    Fotos FILIPE CERQUEIRA
    Fotos FILIPE CERQUEIRA
    Segundo o sítio do Coliseu do Porto na Internet, que descreve o concerto de inauguração, recorda-se: «Antes, porém, a actriz Aura Abranches viu o seu discurso ser interrompido por uma assistência de 3 500 pessoas que aplaudiam o nome de Salazar e lançavam vivas a Portugal». Sinal dos tempos.

    Desta forma tentou-se recriar o mais importante: o programa de há 70 anos. No público presente era possível ver grandes nomes da música em Portugal, como Teresa de Macedo, a violoncelista e irmã da homenageada Madalena Sá e Costa e sua família, a pianista Maria Fernanda Wandschneider, a pianista e professora Teresa Xavier (mãe); esteve presente o presidente do Ateneu Comercial do Porto, o ministro da Defesa Nacional José Pedro Aguiar Branco, o presidente da Associação dos Amigos do Coliseu do Porto José António Barros, entre outras individualidades.

    O concerto teve como intérpretes o pianista Constantin Sandu e a Orquestra Artave, dirigida pelo maestro Luís Machado.

    Antes da música começar a ressoar nas esferas do tecto do Coliseu, foram apresentadas fotografias relativas ao espaço que existia anteriormente, o Salão Passos Manuel, a orquestra residente e a construção da sala tal qual a conhecemos hoje. Pena que o Coliseu não tenha a sua orquestra residente, que podia muito bem ter como objeto principal especializar-se em gravações.

    Beethoven recebeu a encomenda para a abertura Die Weihe des Hauses, op. 124 (“Consagração da Casa”) por ocasião da reinauguração do Teatro de Josephstadt, em outubro de 1822, em Viena. Trata-se, em grande parte, de material "reciclado" de uma outra música incidental, “As ruínas de Atenas”, op.113. Composta no final de sua carreira, a obra toma emprestada a forma da abertura francesa barroca, com uma introdução lenta antecedendo a fuga vigorosa. Nesta peça da primeira parte a orquestra esteve muito afinada, controlada no aspeto rítmico e bem conduzida com alegria pelo maestro.

    Em seguida, houve uma mostra de imagens fotográficas percorrendo os vários momentos da vida profissional da pianista Helena Sá e Costa, embora passassem muito rapidamente, sem haver tempo para se lerem as legendas. Deu, no entanto, para nos apercebermos de figuras tão importantes e míticas da música como o violoncelista Pau Casals, o pianista Edwin Fischer, a violoncelista Guilhermina Suggia, o pianista Pedro Burmester. Estas fotografias podem ser consultadas, para os interessados, no livro “Madalena Sá e Costa – Memórias e Recordações” (Editora Gailivro, 2008).

    No intervalo foi descerrada uma placa de homenagem a Helena Sá e Costa no átrio de entrada para a Plateia.

    Ao lado de Madalena Sá e Costa estiveram José Pedro Aguiar Branco e José António Barros. Infelizmente, o secretário de Estado da Cultura não esteve presente, pensamos nós que José Pedro Aguiar Branco esteve em seu nome.

    Foi depositado um ramo de flores por Teresa Xavier, gesto muito bonito da sua parte.

    Na segunda parte houve uma brilhante interpretação do pianista Constantin Sandu no concerto de Mendelsshon, peça do século XIX com influências do contraponto barroco de Johann Sebastian Bach, do século XVIII, já que Mendelsshon foi seu “descobridor” por excelência no período do romantismo musical. Uma clareza de condução das harmonias e melodias e na construção das frases, isto é, na forma como nos leva de um momento mais enternecedor a outro mais esfuziante sem nos darmos conta, sem falsos acentos, como que criando uma história, uma paleta sonora generosa e uma facilidade virtuosa que visualmente parece espontânea mas que demonstra um trabalho aturado.

    A orquestra, em alguns momentos, não se encontrava no mesmo espírito do pianista em pulsação, ora adiantada ou atrasada muito ligeiramente. Os instrumentistas de cordas estiveram impecáveis nos seus diversos naipes: violinos, violas, violoncelos e contrabaixos, tal como os sopros de metal, como trompetes, enquanto que os sopros de madeira – fagotes, oboés – davam algumas notas ao lado em termos de afinação que não passavam ao lado, principalmente quando “dobravam” o que o piano ia tocando.

    Como extra programa, foi-nos oferecido o segundo andamento do Concerto K. 467 de Wolfgang Amadeus Mozart, quando se poderia esperar uma peça a solo do solista ao piano. Este andamento é de rara beleza, de uma simplicidade inesgotável e ao mesmo tempo expressivo e eloquente. Tudo isso transpareceu mas mais da parte do concertista, já que na orquestra os sopros estiveram menos bem, o maestro teve um ou outro momento em que não foi ao encontro das entradas do pianista e notou-se falta de união nesse sentido.

    foto
    Sobre o público, este foi muitíssimo respeitador dos músicos, ainda para mais sendo estes jovens formandos da escola Artave/CCM. Talvez porque grande percentagem fosse de outros músicos, reais interessados na música; esteve em número reduzido, menos de meia casa e sendo o palco na pista de circo, menos lugares havia. Este tipo de palco fazia com que pudéssemos estar, literalmente, à volta dos músicos, dando uma nova e interessante perspetiva visual e sonora.

    Foi pena que, durante todo o concerto, não houvesse um momento de dedicar algumas palavras, mesmo de circunstância, ao público, de alguém da família da homenageada ou relacionado com o Coliseu. Por certo era um momento íntimo, muito importante, mas fica sempre bem agradecer a presença do público. Se a data era também de comemoração do Coliseu do Porto septuagenário, como entender que não se fale na primeira pessoa sobre o acontecimento?

    Valeu a pena estar num momento tão importante para o círculo musical portuense e também nacional. É pela defesa da história que se pode perceber melhor a cultura de uma sociedade e as homenagens fazem, dessa forma, sentido, se forem sentidas.

    Por: Filipe Cerqueira

     

     

    este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
    © 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
    Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.