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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 15-01-2010

    SECÇÃO: Arte Nona


    O fim da saga de "Os Passageiros do Vento"

    Chegou agora ao fim, 30 anos depois de se ter começado a publicar, a saga de “Os Passageiros do Vento, iniciada em 1979 por François Bourgeon.

    É certo que, nestes trinta anos, há uma longa longa interrupção, a que já aludimos no n.º836 de “A Voz de Ermesinde” (30 de Outubro de 2009). De facto, Bourgeon publicou os cinco primeiros tomos da série, na editora francesa Casterman, entre 1980 e 1984, e só voltou a ela em 2009, ano em que publicou os dois últimos (“A Menina de Bois-Caïman” Livro 1 e Livro 2.

    A edição portuguesa ASA/Público veio esta mesma semana para as bancas e é uma memorável edição relativamente à qual não se pode passar ao lado.

    Neste último livro acentua-se ainda mais a atmosfera americana já presente no anterior, agora com François Bourgeon a mergulhar ainda mais não só no enredo histórico da saga e na história dos Estados Unidos, mas a aprofundar minuciosamente a descoberta do meio natural dos meandros do Mississipi dos fins do século XVIII e meados do século XIX.

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    Não será necessário corrigir o que havíamos dito aquando da recensão de “A Menina de Bois-Caïman, Livro 1”, («se o enquadramento histórico já por si é de assinalar, que dizer, por um lado, da sedução do enredo, e da excelência dos diálogos, e por outro, da riqueza do desenho e do seu acabamento impecável?»), a saga de Os Passageiros do Vento só pode ser considerada uma obra-prima da Banda Desenhada universal.

    O que nos surpreendeu mais no Livro 2 de “A Menina de Bois-Caïman, contudo, não foi tanto a excelência mais que provada nos seis tomos anteriores da saga, tanto a nível do desenho como do argumento, mas mais a viragem, tornada agora ainda mais nítida que no volume anterior, de África para a América como pano de fundo.

    Se antes se falava no relacionamento da civilização europeia com as comunidades africanas e as suas culturas, agora este relacionamento surge mais em direcção às comunidades ameríndias, não são já os negros, apesar da filha mestiça de Isabeau, de sangue africano, quem aparece em cena, mas os índios. Agora quem tem nome próprio é Hachunchuba, o chefe índio a quem Isabeau salva o filho e que, mais tarde, liquida a sua dívida salvando-a a ela, por sua vez.

    Mas, principalmente neste livro surgem outras “personagens”, como os própios bayous do Mississipi, braços de rio muito lentos e baixos, com toda a fauna e flora a eles associados.

    E Bourgeon detém-se extensivamente aqui, refere o urso negro, desenha garças, corujas, veados, guaxinins, crocodilos, peixes-gato («para o cadiano, o rodovalho é o azul! O cadoz é o amarelo!»), tartarugas e tartarugas-aligátor. E descontando o facto de este ser o último volume da saga e, nesse sentido serem já de esperar, talvez, uma maior profusão de grandes planos, de paisagens, de atenção à natureza, enquanto ponte entre a geração de Isa e de Zabo, a sua neta, não deixa de ser verdade notar-se aqui uma muito maior atenção ao meio, à natureza, nesta parte mais recente da obra de Bourgeon.

    Os ambientes, urbanos e naturais sucedem-se em “A Menina de Bois-Caïman”, mas agora, mesmo que as arquitecturas continuem a ser muito importantes – antes eram sobretudo os navios, agora são as casas – mais importantes ainda tornam-se as paisagens, que marcam profundamente a atmosfera deste livro, mais do que em qualquer um dos anteriores, e isto incluindo até o livro I da Menina de Bois-Caïman.

    Na saga mantém-se sempre presente a questão social, sobretudo onde intervêm as memórias da velha Isabeau (Isa), que recorda para a neta como era a vida social e política nos fins do século XVIII.

    E Isa fá-lo sempre num sentido genuinamente libertário. Em Zabo, todavia, exprime-se mais o amor da terra, e assim, como que a atenção dada à paisagem e à natureza parece marcar precisamente essa mudança de paradigma.

    De forma muito poética François Bourgeon conta depois a morte, ou melhor o desaparecimento de Isabeau. Esta fica, de noite, na varanda da sua casa-palafita em pleno bayou a vigiar a subida das águas, como diz para a neta, quando esta a convida a vir deitar-se.

    De manhã quando Zabo chega à varanda, apenas encontra o chapéu da velha nonagenária.

    As vinhetas de Bourgeon desenham como que um regresso às origens primordiais donde viemos, a essa relação da água connosco, da água com as árvores e a vida.

    No conjunto da série Bourgeon criou uma galeria de personagens inolvidáveis, a volúvel e amável galdéria Mary (amiga de Isa), Hoel, o marinheiro bretão (por quem Isa se apaixona), Aouan, o astuto e inteligente escravo (oferecido a Isa pelo rei negro), Alihosi, a escrava rebelde, que organiza a revolta no navio negreiro. E depois as personagens da época “americana”, Isa já nonagenária, Zabo, a sua neta, Quentin, o companheiro desta que a acompanha na demanda que faz da sua família. Absolutamente imperdível!

    Por: LC

     

     

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