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Edição de 30-11-2021
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    Arquivo: Edição de 30-04-2008

    SECÇÃO: Crónicas


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    A maior amiga do homem

    Pessoas feridas, - não houve mortos, felizmente - fábricas desmanteladas, habitações semidestruídas, culturas que desapareceram. Ninguém falou das árvores, e foram às dezenas arrancadas pelo fenómeno conhecido por tornado, senão para anunciar prejuízos sofridos. Estranho como nos sensibilizamos com a doença ou a infelicidade dos seres humanos, com o sofrimento dos animais, insurgindo-nos contra a morte cruel que lhes infligimos, mas ignoramos tudo o que de mal acontece a estes seres vivos como nós, incluindo o desaparecimento de uma espécie como aconteceu ao negrilho (ulmus campestris, L.) tão importante para a economia rural no interior do nosso e doutros países e tão presente na cultura pátria. Miguel Torga, qual S.Francisco de Assis, homenageou o exemplar que existia na praça principal de S.Martinho de Anta, sua terra natal: “Na terra onde nasci há um só poeta./ Os meus versos são folhas dos seus ramos…”

    Se um incêndio as devora, o machado criminoso as abate ou a fúria dos elementos as desentranha do solo, não é por elas que choramos, é sim pelos nossos interesses materiais e pelo que representam para a sobrevivência do género humano. Tais desgraças servem à maravilha para o jogo político-partidário, não haja dúvidas. Quantos milhares de árvores foram sacrificados para que o Alqueva fosse uma realidade? E em relação ao abate de sobreiros do Empreendimento Portucale cujo número exacto se desconhece e que se encontra em banho-maria? No entanto, impediu-se a construção de uma barragem hidroeléctrica no Côa em nome das gravuras rupestres que por lá se descobriram e testemunham a existência do homem nessas paragens há milhares de anos. Não vai aqui qualquer juízo de valor acerca das opções políticas em presença, antes a prova da desvalorização que introduzimos relativamente às árvores. Elas não se queixam ou nós ignoramos a sua maneira de comunicarem. Na floresta amazónica, considerada o grande pulmão do planeta, ainda há zonas onde o homem branco não penetrou e, assim, milhões de exemplares têm podido usufruir do seu direito à vida, talvez desde há milénios. Muitas outras já desapareceram devido à ganância de quem deveria protegê-las. Em contrapartida, uma figueira multicentenária ergue-se no centro da cidade de Florianópolis, Estado de Santa Catarina, e constitui motivo de atracção turística para quem ali se desloca.

    Damo-nos bem conta da sua falta quando já não podemos usufruir de tudo quanto elas nos proporcionam: os frutos essenciais para o nosso equilíbrio orgânico; a sombra refrescante quando o sol abrasa e o ar parece insuficiente para respirarmos; as folhas e revestimento que reforçam a dieta alimentar de certas espécies animais e possuem virtudes terapêuticas para combater diversas maleitas humanas; ramos e gravetos que, durante milénios, foram imprescindíveis para aquecer corpos e cozinhar alimentos; a madeira que nos sustém e resguarda desde o berço à sepultura. Quantos de nós não as ferimos para proclamar ao mundo em torno, por desenhos e palavras, a exaltação amorosa que nos domina? São elas que encantam os nossos olhos e acordam a nossa emoção, seja isoladas, numa paisagem a que emprestam beleza, seja em largas manchas verdes, bordejando vales e trepando montanhas acima.

    A magia da árvore faz vibrar a corda poética do ser humano. Lembro-me de um soneto de Afonso Lopes Vieira, do livro de 4ª classe, cuja primeira quadra era assim: “Ouve, meu filho, cheio de carinho/ Ama as árvores, ama e, se puderes,/ E poderás, tu podes quanto queres,/ Vai-as plantando à beira do caminho.” Destacam-se as palavras “carinho” e “ama”, esta repetida, que sobrelevam o aspecto apenas utilitário de outros vocábulos nela utilizados.

    Na Antiga Grécia, toda a sabedoria estava reunida em narrativas a que deram o nome de mitos. O mito de Filémon e Báucis revela a ternura que os gregos dedicavam às árvores, ligando-as, intimamente, ao destino dos homens.Aqueles nomes pertenciam a um casal muito pobre que vivia numa casinha humilde, fora da cidade.

    Um dia, Zeus e Hermes (respectivamente Júpiter e Mercúrio no panteão romano) combinaram descer do Olimpo e percorrer as zonas onde habitavam os humanos mais necessitados, para averiguarem as suas condições de vida e melhor os conhecerem. Depois de muito caminho percorrido, cansados e cheios de fome, bateram à porta daqueles idosos que trabalhavam na sua pequena horta.Foram recebidos com toda a amabilidade pelos donos da casa que lhes limparam as sandálias e lhes lavaram os pés, convidando-os, em seguida, para comerem alguma coisa. Desculparam-se por só possuírem pão e um pouco de leite, que os deuses compreenderam e aceitaram. Mas, quando, de propósito, quiseram repetir, Báucis deu-se conta de que o leite tinha acabado e, mais uma vez, pediu desculpa de não poder servi-los como desejavam. Zeus, no entanto, insistiu que pegasse na jarra e a inclinasse sobre os copos. Báucis assim fez e, para sua enorme surpresa, os copos encheram-se e ainda sobrou bastante leite. Reconheceram, então, que se encontravam na presença de deuses e prostraram-se diante deles. Zeus deu-lhes a mão e fê-los levantar. Disse-lhes que, pelo carinho e hospitalidade revelados, poderiam satisfazer o seu maior desejo. Eles responderam que gostariam de morrer, juntos como tinham vivido, e na mesma hora, pois nenhum deles queria sobreviver ao outro. Zeus concedeu-lhes essa graça. E, quando os dois pressentiram que chegara o seu fim, deixaram a habitação, vieram para a horta em frente e abraçaram-se, transformando-se, então, em duas árvores, de copas tão unidas que dir-se-ia estarem abraçadas para todo o sempre.

    A árvore é de tal forma importante para a vida do homem que, desde cedo, se revestiu de extraordinário e rico simbolismo. Não é meu intento escrever um ensaio acerca da árvore, que não seria adequado, aqui e agora. Mas vale a pena referir alguns aspectos interessantes ligados à nossa cultura, fundada na tradição judaico-cristã, para a qual a árvore simboliza, principalmente, a vida do espírito. Assim, a Bíblia fala da Árvore da Vida, quer dizer, da vida eterna e da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal cuja interdição garantia a Adão e Eva e seus descendentes a ventura suprema, mas tornar-se-ia uma condenação caso comessem os seus frutos. Segundo Jean Chevalier e Alain Ghéerbrant no seu Dictionnaire des Symboles, “Cristo é, ao mesmo tempo, sol e árvore. Orígenes compara-O a uma árvore. Árvore e cruz erguem-se no centro da terra, sustentando o universo. A árvore da vida é a árvore da cruz, e inversamente, isto é, a cruz é a árvore da morte, a morte do Messias, mas ela torna-se árvore da vida pela redenção.” Segundo Mircea Eliade, romancista e pensador romeno, todas as considerações acerca da árvore articulam-se em torno da ideia do Cosmos Vivo em completa regenerescência. É o símbolo da vida em permanente e contínua evolução, em ascensão para o céu e serve também para simbolizar o carácter cíclico do movimento universal: morte e regeneração. Todas as grandes religiões encontram na árvore o maior dos símbolos, que abrange, ao mesmo tempo, as dimensões do sagrado e do profano. Sendo o homem rei da criação, tem na árvore, sem dúvida, a sua maior amiga

    Por: Nuno Afonso

     

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