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Edição de 30-06-2022
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    Arquivo: Edição de 15-09-2006

    SECÇÃO: Crónicas


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    Duas semanas na Hungria

    A Hungria é um daqueles países que, não fazendo parte do “circo turístico”, oferece ao visitante um variado e surpreendente conjunto de atracções. Pena é que não existam ainda bases sólidas que cativem mais do que os turistas que “não vão em modas”. Quem chega encontra uma variedade inesgotável de motivos para satisfação dos seus desejos: belezas naturais, praias esplêndidas, termas, cultura, boas vias de comunicação. Falta, claramente, um significativo empenho oficial que leve os húngaros a ter outra disponibilidade para receber.

    Keszthely, uma cidadezinha de 24 000 habitantes a sul do lago Balaton, é o retrato alegórico dessa Hungria por realizar. Julgar-se-ia apenas um pacato burgo de província, mas é muito mais do que isso. O seu porta-estandarte é o Castelo Festetics, actualmente museu, com mais de cem amplas salas ocupadas com variadas exposições, permanentes ou periódicas. Entre as primeiras são de realçar a que se refere a caça e caçadores célebres, a que mostra a formação do lago Balaton, a sua fauna e flora, a história da pesca e dos barcos assim como dos banhos no lago de acordo com as mais recentes escavações arqueológicas, a história da introdução e desenvolvimento da viticultura na região durante o último século, o equipamento e maquinaria da mansão ao longo das décadas, desde que, em 1745, Gyorgy Festetics fundou a primeira Escola Superior de Agricultura da Europa.

    Outra realização sua foi a extraordinária biblioteca ali criada pouco depois com alguns milhares de volumes, entre eles primeiras edições de obras famosas dos “iluministas”, em particular dos franceses (Voltaire, Montesquieu, Diderot e outros) de quem se tornou amigo pessoal. Hoje essa biblioteca dispõe de um número de volumes superior a cem mil e “invadiu” salas contíguas. Num extenso balcão à entrada encontra-se o resumo da instituição, do seu desenvolvimento desde o século dezoito e das principais atracções ali existentes, em folhas plastificadas, vertido nos mais importantes idiomas do mundo nos quais se inclui o Português. De todos os lugares onde estivemos este foi o único onde vimos ou ouvimos a nossa formosa língua. São célebres, igualmente, os concertos de música clássica que, durante o Verão têm lugar no magnífico parque do palácio. No dia a dia, enquanto os visitantes apreciam os objectos expostos são presenteados com música ao vivo executada por pianistas numa sala-auditório onde também podem permanecer pelo tempo que desejarem. Para concluir, devo dizer que o palácio está edificado em estilo neo-barroco, felizmente preservado durante a 2ª Grande Guerra, e que, em conjunto com o parque de estilo inglês, ocupa uma área de 7,2 hectares. Pena é não haver guias que ajudem a compreender mais e melhor o que têm ao seu dispor. As funcionárias limitam--se a cobrar as entradas e a fornecer chinelos que devem ser usados durante a visita.

    Esta família Festetics desempenhou papel significativo durante dois séculos, não só a nível local mas também no todo nacional. Emprestaram o seu nome e prestígio aos imperadores Habsburgos e, em 1920, perante um forte movimento migratório, distribuíram terras para manter no país os que desejavam partir. Construíram escolas, hospitais, farmácias e outros equipamentos sociais. O já referido Gyorgy Festetics casou com uma princesa Vitória da Escócia avó do Príncipe Rainier do Mónaco.

    Nada mais sugestivo, ao entrar no Museu das Bonecas, do que as funcionárias de serviço, estáticas, ausentes, emitindo alguns sons incompreensíveis mas pouco interessadas em dar apoio a quem chega de fora. Cumprida a obrigação, desaparecem como por encanto deixando o visitante desarmado em frente a estantes onde estão alinhadas milhares de bonecas nos mais diversos trajes nacionais e regionais da Hungria inclusive de parcelas do território que lhe foram amputadas desde a primeira Grande Guerra até aos nossos dias. Em muitos dos países limítrofes existem grandes comunidades húngaras que usam o idioma magiar e cultivam as milenares tradições da sua origem. Além das figuras humanas, há igualmente uma exposição de habitações segundo as zonas e o tempo histórico em que foram abrigo e aconchego dos grupos étnicos que compõem esta sociedade. Adstrito ao museu, existe ainda um Museu de Cera de que não tivemos informação e de cuja existência tomámos conhecimento através de folheto que, posteriormente, nos foi facultado.

    A região do Lago Balaton é de natureza vulcânica. Muito próximo encontram-se as conhecidas termas de Hévíz, especialmente aconselhadas a quem sofrer de desordens locomotoras. Trata--se de um grande lago termal com uma superfície de 50000 m2 e um débito de 80 milhões de litros por dia. São águas sulfurosas e minero-medicinais cujas fontes se situam 20 metros abaixo da superfície e toda a sua água é renovada de 28 em 28 horas. Quem quiser pode nadar no extenso lago; os que optarem por seguir um tratamento podem fazê-lo em instalações apropriadas e sob orientação médica. A temperatura da água oscila entre os 33 a 35 graus centígrados no Verão e em torno de 22 graus no Inverno.

    É tão impossível referir os dados e as emoções sentidas neste pequeno paraíso como conseguir visitá-lo em pouco mais de uma semana. Espraiar a vista sobre o lago Balaton, do alto da colina de S.Michael, é um deslumbramento. No topo da montanha, que se ergue a 134 metros de altitude, encontra-se uma capela construída em 1739 por um grupo de 40 pescadores que, deste modo, cumpriram uma promessa feita em momento de extrema aflição ao verem-se envolvidos numa terrível tempestade quando exerciam a sua faina no lago. Como se fora o verdadeiro Gólgota, ali se levantaram três gigantescas cruzes de madeira representando o martírio de Jesus entre os dois ladrões. Na base da cruz de Cristo vêem-se três figuras femininas, as Santas Mulheres.

    Sensivelmente a meio do lago encontra-se uma ilha incompleta, a península de Tihany que separa a parte norte, de paisagem mediterrânica e assente em duas grandes crateras vulcânicas, da parte sul mais baixa. Só esta península merece um dia de visita pela sua Abadia Beneditina, pelo Calvário, pelo Eco, pela Casa de Ouro, pelo Calvário, pelo Palácio de Verão do arquiduque José Habsburgo, pela aldeia de pescadores e uma infinidade de outras atracções. A abadia beneditina, mandada construir em 1055 pelo rei André I com o respectivo mosteiro deveria ser o local de sepultura da família real húngara. Aí repousam os seus restos mortais. Após muitas vicissitudes, ocorridas ao longo dos séculos, foi reconstruída em estilo barroco no século XVIII e foi há poucos anos reocupada por monges de S. Bento. Cada um dos monumentos citados e ainda outros mereciam descrição pormenorizada mas a crónica já vai muito longa e tenho que dar-lhe um fim.

    Por: Nuno Afonso

     

     

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