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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 15-06-2006

    SECÇÃO: Crónicas


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    Utilizar com sucesso o novo QCA

    As projecções do crescimento da economia portuguesa continuam a não serem de molde a deixar sossegado qualquer português que tenha como horizonte, crescer e viver decentemente em Portugal. Recorrentemente, os economistas brindam-nos com os seus já demasiado conhecidos exercícios que passam, se são governo, primeiro por expectativas entusiasmantes para, no momento seguinte, corrigirem em baixa as suas projecções; se são especialistas da área da oposição, a sua tendência é para serem preferencialmente menos optimistas e mais realistas. No final, lá surgem os indicadores da União Europeia, da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE), do Fundo Monetário Internacional e do Banco de Portugal a declararem, e a demonstrarem, que a produção cresceu a níveis inferiores à média europeia, que a produtividade continua a não acompanhar os sucessos de outras economias e que a dívida do Estado se agravou em preocupantes pontos percentuais. Portugal e os portugueses, não conseguem sair do círculo vicioso em que os meteram.

    Contemporaneamente a este tipo de notícias, lá surgem os iluminados economistas a ditarem as suas receitas: mais precariedade no emprego, salários mais baixos, pensões mais raquíticas, menor carga fiscal para as empresas, mais incentivos aos gestores públicos, tudo a bem do relançamento da economia nacional, da redução do défice e do fortalecimento do tecido empresarial, com especial enfoque nas pequenas e médias empresas (PME). Recordando que esta terapêutica tem sido seguida pelos diversos governos e que a situação do país não evidencia sinais de ganhar posições no ranking das economias europeias ou mundiais, bem pelo contrário, é altura de perguntar: as receitas dos nossos doutos economistas deverão continuar a merecer algum crédito? A sua aplicação tem conduzido aos resultados que as impuseram? A realidade é tão flagrantemente desanimadora que continuar a ouvi-los, e mais perigoso ainda, escutá-los, será um autêntico suicídio colectivo.

    Imprensa da especialidade, relatava há dias duas experiências de sucesso empresarial que valerá a pena sobre elas reflectir alguns momentos: a recuperação da Mabor e o ressuscitamento da Fisipe. Esta última, depois de em 2005 ter “balançado à beira do abismo”, sufocada por um pesado passivo, conseguiu dar a volta por cima com a colaboração empenhada de uma equipa liderada pelo gestor João Dotti que interpretou os tempos da Investigação e Desenvolvimento (I&D), avançando para novos produtos baseados em soluções tecnológicas adaptadas às necessidades dos clientes e, com isso, manter 265 postos de trabalho, sendo 15% deles quadros da empresa. E, ao que parece, não precisou de esperar pelo “choque tecnológico”. Terá resolvido o problema com a “prata” da casa.

    UM CASO

    DE SUCESSO

    A Mabor, uma outra “empresa doente, sem grandes perspectivas de futuro no final da década de 80”, é hoje uma unidade de referência do grupo alemão Continental, acumulando o melhor índice de produtividade e o menor de absentismo do referido grupo, tendo-se transformado na sala de visitas de eleição da multinacional quando esta quer mostrar como se fazem pneumáticos. Da leitura da referida notícia, colhe-se, entre outras importantes informações, que o sucesso de diariamente se produzirem 63 mil pneus em Lousado, se deve à gestão do Engº. António Seabra, que desde o ano de 2000 insiste em vencer a batalha da eficiência, produtividade e qualidade, adoptando para o efeito, a acertada terapêutica que está nos antípodas dos “gurus” da nossa praça.

    António Seabra, talvez por que seja engenheiro e não economista, percebeu que o sucesso da sua gestão passaria por dispor de uma equipa motivada e não por um conjunto de trabalhadores que diariamente passam o tempo a perguntar se terão trabalho no dia seguinte e a contar os magros euros, para verem como, com a retribuição auferida praticamente inalterada, quando não, mesmo reduzida pela via dos impostos, poderão fazer face aos encargos familiares em crescendo. Este gestor, talvez rindo-se da “sabedoria” dos nossos opinion makers aplicou com sucesso a receita contrária: apostou na formação contínua; retribuições atractivas (os salários pagos chegam a ultrapassar em 80% os valores previstos no contrato colectivo de trabalho); faz os trabalhadores participarem nos lucros da empresa; premeia as sugestões apresentadas para melhorar a performance empresarial e, como cereja no cimo do bolo, está no topo das dez empresas que pagam mais impostos em Portugal.

    Estando às portas de um novo Quadro Comunitário de Apoio (QCA) que carreará para Portugal ajudas que ultrapassarão os vinte e dois milhões de euros no período de 2007/2013, será de recear que ao “ferrolho” já se perfilem os mesmos que, nos três QCA anteriores, beneficiaram dos milhões de euros que recebemos da UE para reconversão das empresas e formação dos trabalhadores, sem quaisquer benefícios palpáveis: continuamos a ouvir que as nossas empresas não têm condições de competir com as suas congéneres, europeias ou outras; que o nível de formação dos nossos trabalhadores é baixa; que a produtividade é escassa, que o “made in Portugal” não vende, etc. Apenas se incrementou o fosso entre os mais ricos e os mais pobres e se contribuiu para o sucesso da venda de automóveis topo de gama. Perante esta triste realidade, será bom que os decisores políticos tenham aprendido alguma coisa, ainda que meros rudimentos, do que não devemos repetir e, em vez de continuarem a deitar dinheiro à rua, apoiando projectos dos mesmos, privilegiem gente que tenha dado provas de empreendorismo com sucesso e jovens universitários que pelo seu curriculum académico, revelem características de empresários e não de “patos bravos” que nada arriscam e tudo sugam ao erário público.

    Seria certamente interessante, que os gestores dos fundos europeus prestassem atenção ao que foi dito recentemente em Aveiro, em mais um jantar no âmbito dos jantares-debate “Desafios da Economia”, durante o qual foram colocadas, por empresários de sucesso, algumas interrogações ao Plano Tecnológico apresentado pelo seu coordenador Carlos Zorrinho, e onde Mira Amaral mais uma vez se confessou preocupadíssimo com o país, não hesitando em afirmar que a economia portuguesa só crescerá pela via das exportações. Aproveitemos, pois, as ajudas comunitárias para modernizar os equipamentos industriais de modo a passarmos a ser competitivos e a vender produtos no estrangeiro, promovendo campanhas inteligentes e eficazes, de valorização das marcas portuguesas. Se desta vez os políticos forem competentes, politicamente sérios e corajosos, e os empresários dignos desse nome, talvez que em 2013 possamos dizer a Jack Welch que os empresários portugueses aprenderam com a vergonha que passaram ao ouvi-lo no Hotel Ritz, tendo finalmente contribuído, decisivamente, para eliminar o que aquele gestor (talvez o mais venerado no mundo) considerou de “humilhante para os portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, que é a de uma contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos”.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

     

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