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Edição de 30-11-2021
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    Arquivo: Edição de 15-05-2006

    SECÇÃO: Destaque


    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ

    A voz dos que mais sofrem com todo este drama social

    São, sem margem para dúvidas, aqueles que mais sofrem com toda a situação. Expressavam rostos de angústia, de revolta, de incerteza, de resistência, e até mesmo de algum conformismo perante este drama social. Falamos, obviamente, dos principais intervenientes em toda esta situação, os trabalhadores da Lear. Para muitos deles não foi uma surpresa a decisão da administração da empresa em dispensar os mais de 280 trabalhadores, visto que a queda de produção evidenciada de há um ano para cá era já um forte indício de que a situação iria, mais cedo ou mais tarde, acabar por acontecer. Já outros foram apanhados desprevenidos, deitam agora mãos à cabeça e fazem contas à vida. Aliás, este é um ponto comum a todos eles, ou seja, o que o futuro lhes irá reservar depois do mais que provável fecho da empresa. Com uma média de idades a rondar os 40 anos, a maior parte destes trabalhadores exerce funções na Lear de Valongo há já 15, 16, ou 17 anos, ou seja, praticamente desde o momento em que esta multinacional se fixou na sede do concelho. Oriundos de vários concelhos da Área Metropolitana do Porto, desde Valongo (a freguesia de Campo é a mais representada deste concelho em número de trabalhadores), passando por Gondomar, ou Paredes, alguns deles começaram aqui as suas carreiras profissionais, não conheceram outra profissão que não esta, expressando por isso sinais de pânico em relação ao futuro, uma vez que paira no ar a ameaça de que, antes de 2010, este sector das cablagens de automóveis poderá ser extinto no nosso país. Reconhecem também que é muito difícil aprenderam uma nova profissão, pois o factor idade pesa muito quando se fala em arranjar um novo emprego numa outra área que não aquela à qual dedicaram uma vida inteira. São por isso tempos de muito sofrimento aqueles que estão a ser vividos pelos mais de 800 funcionários da empresa. Com o desemprego como cenário mais do que provável estas pessoas começam a dar voltas à cabeça para descobrir como irão viver daqui para a frente. Como irão pagar as suas contas? Como irão sustentar a sua família? Para muitos a situação é alarmante, pois convém sublinhar que existem casos de marido e mulher a trabalhar na empresa e que agora vivem na iminência de irem ambos para o desemprego. A situação é deveras dramática. Em todos a ideia geral é de que a empresa vai mesmo fechar portas mais dia menos dia. E embora muitos estejam já conformados com esta ideia e queiram agora negociar com a administração da empresa o máximo de regalias possíveis a inserir nas indemnizações, já outros prometem lutar pelo seu posto de trabalho até às últimas consequências. É assim que pensa, por exemplo, Luís Ventura, de 42 anos, delegado sindical do STIEN, e funcionário da Lear há 17 anos. «Não estou aqui para vender o meu posto de trabalho. Vou lutar por ele até ao fim. Até porque a empresa tem condições para ficar a aqui em Valongo, pois tem trabalho até 2008». Opinião idêntica tem Ana Paula, de 40 anos, e que igualmente há 17 anos se encontra a trabalhar na Lear de Valongo, que afirma convictamente que não quer indemnização mas sim o seu posto de trabalho e que está disposta a lutar por ele custe o que custar. Há quem apresente, no entanto, sinais de algum conformismo com a situação, não acreditando na manutenção dos postos de trabalho. É o caso de Fernanda Baltarejo, de 40 anos de idade, que prontamente afirmou: «Não vejo um bom futuro em toda esta situação. É aliás, com grande tristeza e amargura que estamos a viver todo este problema. Eu trabalho aqui há 17 anos e não está a ser fácil lidar com a ideia de que vou perder o meu posto de trabalho. É uma situação difícil, mas a que, na minha opinião, não há volta a dar. Estou convencida que a empresa vai acabar por fechar. Agora, vão para a rua 285 trabalhadores, e daqui por algum tempo vão os restantes. Custa dizer isto, mas é o que vai acabar por acontecer». Manuela Rodrigues também partilha da opinião da sua colega de trabalho. Para esta operária de 38 anos o futuro é negro. «Como é que nós, com a idade que temos, quase todas acima dos 35 anos de idade, vamos agora arranjar trabalho numa outra área? É certo que ninguém nos vai dar emprego com as habilitações profissionais e com a idade que temos. Não sei o que vou fazer daqui para a frente. Gostava de manter o meu posto de trabalho, mas vai ser muito difícil de conseguir».

    A TEMIDA LISTA DE DISPENSAS

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    Ao longo de todo o tempo em que “A Voz de Ermesinde” acompanhou de perto todo este drama social vivido na comunidade operária da Lear de Valongo, um dos assuntos mais abordados em todo este processo foi o da lista dos 285 dispensados a apresentar pela administração da empresa. De facto, a expressão «será que o meu nome está na lista de dispensas, será que não está?...» foi ouvida vezes sem conta da boca dos trabalhadores. Uma dúvida que continua, no entanto, por desfazer, já que à hora do encerramento desta edição não se conheciam avanços quanto a nomes que irão integrar a temível lista dos 285 operários dispensados. Critérios de dispensa dos 285 trabalhadores continuam a ser discutidos pormenorizadamente entre os sindicatos e a administração da empresa. Neste aspecto, diga-se que os responsáveis da empresa apresentam como critérios para elaboração da lista a gestão e a eficiência dos trabalhadores, ao passo que os sindicatos contrapõem com argumentos como os factores idade e antiguidade na empresa. Neste momento ainda não existe um consenso quanto a este ponto. Certo é que a administração da Lear já fez saber que pretende começar a proceder ao despedimento dos 285 funcionários já no início de Junho.

    Por: MB

     

     

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