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Edição de 30-06-2022
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    Arquivo: Edição de 30-07-2005

    SECÇÃO: Crónicas


    Mário Soares - exemplo de tenacidade e patriotismo

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    O Dr. Mário Soares acaba de produzir declarações interpretáveis como sinais de que se prepara para anunciar a sua candidatura às próximas eleições presidenciais. Se tal se vier a concretizar, Portugal e os portugueses ficarão a dever-lhe mais um inestimável serviço prestado ao país. Serão, então, muitas as leituras que a sua reconhecida resistência política proporcionará, algumas das quais assumimos neste despretensioso escrito.

    Uma das leituras possíveis é o seu patriotismo e a sua paixão pela democracia pluralista, uma e outra das suas indisfarçáveis características, que fazem com que recuse “calçar as pantufas”, mantendo-se atento a tudo quanto se passa à sua volta. Uma outra das leituras admissíveis, é a sua indomável preocupação de não ser “carta fora do baralho” na discussão das grandes questões do seu país, sendo compreensível, por isso, que não se resigne a assistir à degradação da vida política nacional e ao avolumar dos problemas que põem em causa o futuro de Portugal, refugiando-se em desculpas esfarrapadas, ainda que politicamente correctas.

    Poderemos ainda descortinar que o “animal” político, que desde tenra idade nele se manifesta, continue a alimentar os seus ímpetos de homem de acção, atirando-o para as frentes de combate onde lhe pareça que a sua experiência e coragem políticas são úteis para o almejado desfecho. Há, porém, dois ensinamentos ínsitos na decisão do Dr. Mário Soares que se nos afiguram de elevado relevo: o não virar a cara à luta e a idade com que enfrentará esta nova e dura batalha política, caso o adversário, por outros desejado e acicatado, não fuja ao combate.

    Portugal atravessa uma fase muito difícil da sua existência como país independente. Os portugueses andam tristes e deveras preocupados com a incerteza do seu futuro. A economia é cada vez mais débil. O desemprego sobe sustentadamente, consequência de empresas que encerram, enquanto a venda de veículos topo de gama conhece incrementos inusitados. O estado social é ameaçado diariamente com anúncio de medidas governamentais que reduzem as prestações e aumentam o custo dos serviços cobrados aos utentes. Há cada vez mais e maiores ricos, enquanto os pobres voltam a conhecer os dias negros que viveram há décadas atrás, sendo disso sinal preocupante a prática do comércio retomar o uso de vender produtos à unidade em vez de embalagem, por o preço desta ter deixado de estar ao alcance da bolsa de milhares de portugueses. O apertar do cinto imposto pelo governo tem como, a outra face da moeda, os esquemas gizados e praticados impunemente por gestores públicos e autarcas para aumentarem despudoradamente os seus proventos e mordomias. O governo teima em afectar somas astronómicas a obras faraónicas e desnecessárias, comprometendo as finanças públicas durante muitos e longos anos, sacrificando ministros das finanças que as não subscrevem. O país é permanentemente bombardeado com alertas e soluções dos economistas que, não obstante serem tidos como reputados técnicos, as suas “receitas” conduziram Portugal ao pântano em que nos encontramos. Mário Soares não é economista, requisito supérfluo a um excelente presidente da república, de quem se espera que seja um bom observador, um bom estratega, que saiba escolher os seus conselheiros e assessores, e que utilize os conhecimentos da sua larga experiência no uso da sua magistratura de influência.

    ATOLEIRO

    DE POLÍTICOS

    CALCULISTAS

    E INTERESSEIROS

    Ao contrário do que defende Marcelo Rebelo de Sousa (tendenciosamente), a circunstância de Mário Soares não ser economista será uma mais-valia para o sucesso do desempenho do cargo, isto em consonância com o que atrás se deixa dito, como resultado da sapiência dos nossos magníficos analistas e comentadores economistas.

    Como lição, é nossa firme convicção que a coragem do octogenário de se predispor a assumir novamente o cargo de presidente da república, sendo um cidadão que claramente o não faz por razões de ordem económica, procura de prestígio pessoal, interno ou internacionalmente, só poderá ter uma compreensível leitura: perante a incapacidade de tantos em devolver aos portugueses a auto-estima que precisam para vencerem as dificuldades do presente e projectarem o sucesso no futuro, eis que um político de rara têmpera se disponibiliza para ensaiar um discurso político diferente, mobilizador das energias dos portugueses, para vencerem a tormenta e conhecerem de novo a bonança.

    Neste atoleiro de políticos calculistas e interesseiros que assaltaram as instituições da nossa jovem democracia para dela se aproveitarem, buscando notoriedade pública e enriquecimento sem causa, do gesto de Mário Soares poder-se-á retirar a seguinte leitura, sem corrermos grande risco de errar: um sincero e perceptível desejo de devolver aos portugueses um sentimento de fundada esperança, incitando-os a levantarem a cabeça na procura de soluções para os seus problemas, lembrando que a lamúria, e o desrespeito pelos empregadores dos seus deveres sociais, não são bons conselheiros.

    Uma segunda lição que da manifestação do Dr. Mário Soares se deverá extrair é o facto de, num país onde as pessoas são afastadas das suas ocupações laborais com argumentos de que aos cinquenta anos já não possuem condições anímicas nem aptidões para adaptações a novas tecnologias para continuarem a exercer profissões em que se especializaram pelo trabalho, o fundador do partido socialista vem dizer-nos que aos oitenta e um anos continua com o necessário vigor para tomar em mãos a representação de um Estado que está demasiado gordo e que, em matéria de corrupção, não pode dar lições a nenhum outro país, revelando-se determinado para, com a sua extraordinária experiência política, introduzir no “sistema” uma deriva que volte a situá-lo donde nunca deveria ter saído: nos trilhos do serviço público a benefício dos cidadãos.

    Quando os empregadores e os “gurus” da gestão perceberem que a experiência obtida nas empresas aumenta na razão directa dos anos de “casa” e que ela não é menos importante que a proveniente das “sebentas” universitárias, certamente que a competitividade da nossa economia conhecerá dias mais auspiciosos e desaparecerá do vocabulário dos nossos “opinion makers” o discurso de mão-de-obra pouco qualificada, aliás desmentido pelo director-geral da Volkswagen quando afirma que “a mão-de-obra em Portugal é muito boa” “que veste a camisola” empresarial. A idade e a experiência política de Mário Soares adquirida ao longo de decénios, aí estão, também, para confirmar isso mesmo. A esperada decisão de pôr ao serviço de Portugal e dos portugueses o seu acervo de conhecimentos, faz com que a ele se ajuste o inesquecível slogan “Soares é Fixe”. Aguardemos, pois, a declaração final de Mário Soares e confiemos na sábia intuição dos portugueses, nas próximas eleições presidenciais.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

     

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