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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 15-07-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    A qualidade do ensino em Portugal

    É de tempos imemoriais a referência de que a qualidade do ensino em Portugal é preocupantemente deficitária, sendo recorrentemente apresentada como uma das causas, a mais determinante, para o atraso do país em todos os domínios em que não gostaríamos de estar. Já todos teremos ouvido e escutado que, quando se fala do país ser pouco competitivo, seja no que for, a razão é sempre a mesma: o nosso problema reside na fraca qualidade do ensino, o que, para nosso azar, raramente poderá ser desmentido com seriedade, como agora acontece com os resultados publicitados dos exames a que os alunos do 9º ano escolaridade foram submetidos, ao arrepio de todo o esforço dos professores, que até uma greve fizeram (embora o tenham desmentido) para que o fraco nível de conhecimentos dos alunos não fosse sindicado.

    Extrai-se dos referidos resultados que 70% dos alunos tiveram nota negativa a matemática (menos de 3 numa escala de 1 a 5), e que a português as coisas correram melhor. Se ficássemos pela simples análise dos números, seríamos levados a concluir que onde tínhamos dois problemas (alunos fracos a português e a matemática) eliminamos um. Haveria, pois, motivo para nos regozijarmos pelo avanço conseguido. Infelizmente, depois de escutar num fórum radiofónico uma professora do ensino secundário, haverá poucas razões para triunfalismos. Dizia a professora que o grau de exigência da prova de português era tão diminuto que ela, docente desta disciplina, se sentiu envergonhada com a simplicidade da prova, salientando haver perguntas que seriam facilmente respondidas por alunos do segundo, terceiro ou quarto ano de escolaridade. Assim sendo, percebe-se que cerca de 80% dos examinados tenham obtido nota positiva, caso contrário, o desastre de matemática talvez se repetisse na disciplina de português.

    No que a matemática concerne, as coisas continuam como sempre o têm sido. Todos apontam o reduzido domínio desta área de conhecimento como causa determinante de muitos dos nossos insucessos mas, ninguém até hoje encontrou fórmula sustentada de inverter a tendência das coisas. E quando nos detemos um pouco na reflexão das causas, estas emergem imediatamente como sendo o resultado da falta de exigência de rigor que pomos nos nossos objectivos, contentando-nos, regra geral, em maquilhar os problemas enroupando-os com vestes aparentemente novas, mas que não passam disso mesmo: de puras maquilhagens.

    UMA PROPOSTA PARA O ENSINO

    Alinhando com todos aqueles que defendem a necessidade de voltar a impor ao ensino exigências de rentabilidade aos recursos afectos, de profissionalismo aos professores e de rigor na análise dos conhecimentos adquiridos pelos alunos, é nossa firme convicção de que o panorama do nosso ensino encontrará a sua linha de horizonte quando nele introduzirmos modificações que assegurem, de forma duradoura, os seguintes desideratos:

    I) Os curricula dos cursos orientados para as necessidades do mercado do trabalho e para o desenvolvimento da economia e das ciências aplicadas;

    II) As cargas horárias em conformidade com exigências dos alunos terem espaço temporal para meditarem e inculcarem os conhecimentos debitados nas aulas;

    III) Professores preparados, permanentemente reciclados sobre as matérias que lhes cabe ensinar, com garantias de permanecerem na mesma escola enquanto o seu trabalho for positivamente avaliado;

    IV) Testes periódicos (no mínimo um por período escolar) elaborados e avaliados a nível nacional, sendo a nota final o resultado dos diversos testes realizados, os quais servirão para medir o conhecimento dos alunos e o resultado do trabalho dos professores, uns e outros com consequências: os alunos poderem ou não ingressar no ano seguinte e os professores manterem ou perderem o direito a trabalhar na escola.

    Esta proposta poderá chocar alguns dos leitores, a quem sugiro as seguintes reflexões:

    a) A prática de culpar o ministério da educação por alegadamente não saber orientar o ensino tem servido para alguma coisa?

    b) O sistema de isentar os alunos de se submeterem a testes e a exames, tem aumentado o seu grau de conhecimento e a prepará-los melhor para enfrentarem as exigências do mercado do trabalho? Os estudantes saem hoje melhor preparados das escolas primárias, secundárias, institutos ou faculdades do que saíram no passado, quando tiveram de enfrentar testes e exames ao longo da sua carreira estudantil? O problema estará na qualidade do ensino público vs ensino privado, ou de escolas do interior vs estabelecimentos de ensino do litoral ou ainda de turmas com muitos alunos vs turmas de poucos alunos? Naturalmente que não, como o comprovam os resultados obtidos no estudo da autoria do presidente do Instituto Nacional de Administração, Valadares Tavares, em colaboração com o docente da Universidade Católica Portuguesa, André Corrêa d’Almeida.

    Parece, pois, que a solução para o nosso problema de ensino andará por reduzirmos as disciplinas de cada ano lectivo, de modo a que se elimine situações actuais de haver anos com 15; de fixarmos os professores às escolas, desde que o resultado do seu trabalho, medido através de provas nacionais, não aconselhe a sua remoção; assegurar que disciplinas como a matemática e a física, sejam asseguradas por professores credenciado, privilegiando-se o máximo de número de horas semanais, de modo a que jamais aconteça que numa escola a “matéria” tenha sido dada em 25 horas anuais como acontece ou aconteceu em Portugal; sensibilizar os pais dos alunos para a necessidade de incutirem nos filhos o respeito pelo trabalho e autoridade dos professores, percebendo e aceitando algumas atitudes tomadas por eles para estimularem o gosto pelo estudo e salvaguardarem a existência de ambiente de estudo nas respectivas salas.

    As soluções tomadas até hoje conduziram aos resultados conhecidos, que a todos preocupam e a nível nacional envergonham. Face a isto, a palavra de ordem deve ser de varrer as soluções adoptadas e suas adaptações; de dispensar os autores das experiências; de procurar novos actores com ideias completamente diferentes e, no limite, contratar quem no estrangeiro tenha feito melhor.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

     

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