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    Arquivo: Edição de 30-06-2005

    SECÇÃO: Arte Nona


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    A nona arte

    “A Voz de Ermesinde” inicia neste número um espaço permanente dedicado à Banda Desenhada. Será um espaço crítico e de divulgação e, ao mesmo tempo um espaço que fica ao dispor dos criadores. Assim, é com muito orgulho que damos hoje início à publicação de várias historietas curtas de Paulo Pinto, orgulho não apenas por trazermos ao público de Ermesinde uma obra com a qualidade e maturidade que este autor já revela (algumas pranchas suas já foram publicadas no “Expresso”), como pelo facto de ser um autor agora radicado em Ermesinde. Sorte nossa!

    A Banda Desenhada tem sido olhada ao longo da sua história sobretudo como indústria de entretenimento, e só muito tardiamente ganhou estatuto de arte não menor.

    Foi uma conquista arrancada a ferros, muito por culpa de se ter tornado impossível não reconhecer nela todas as complexidades de uma arte sequencial. Uma arte em tudo muito menos leviana e superficial que a imagem que lhe puderam colar as grandes indústrias do entretenimento em série.

    E se precisou de sangue para ser respeitada (o argentino Hector Osterheld – cenarista, por exemplo, de Mort Cinder, um herói de variados tempos históricos – foi um dos “desaparecidos” da ditadura de Videla, se precisou de um Prémio Pulitzer de Literatura, atribuído a Art Spiegelman pelo seu “Maus” (Ratos), uma história do holocausto em que as figuras humanas (e mesmo as desumanas, diríamos) são animalizadas – e em que, saborosamente o pai do autor, de ascendência judia é retratado como sovina sem que isso represente um qualquer anti-semitismo (há uma história de Muñoz e Sampaio sobre um norte-americano de visita ao México que aquela faz lembrar – uma espécie de chauvinismo voltado ao contrário), se as pranchas de autores consagrados, como Hergé, se podem hoje vender a preço de ouro – como em qualquer deriva mercantilista da fruição da arte –, é já ao tempo dos primórdios da própria BD que remontam algumas das suas obras-primas mais revolucionárias e visionárias, como “Little Nemo...”, de Winsor MCay – uma obra que antecipou artifícios da arte narrativa que só mais tarde vieram a ser conhecidos no Cinema.

    UMA INFINIDADE

    DE TRADIÇÕES

    E ESCOLAS GRÁFICAS

    E NARRATIVAS

    Conhecida por uma infinidade de nomes, que atestam, por sua vez tradições e escolas gráficas e narrativas diversas – quadradinhos (Portugal), tebeos (Espanha), comics (Estados Unidos), manga (Japão), gibi (Brasil), fumetti (Itália), para só citar alguns, a Banda Desenhada emancipou-se mais cedo na Europa (do que nos Estados Unidos), onde nos anos 60 conseguiu crescer para um público adulto (sem que a palavra tenha aqui qualquer sentido eufemístico), ao contrário do infantilismo em que permaneceu ainda por uns bons largos anos do outro lado do Atlântico.

    O surgimento de várias editoras alternativas e a criatividade de alguns autores que conseguiram subverter por completo (como Alan Moore) o tradicionalismo das histórias estereotipadas dos super-heróis, o triunfo do video (e mais tarde do formato DVD), da net e a falência das mais importantes experiências editoriais, como a da prestigiada revista “À Suivre”, que por longos anos foi uma referência incontornável da BD europeia, ou dos próprios “Cahiers de la Bande Dessinée”, uma espécie de “Cahiers du Cinéma” de idêntica relevância para o estudo da arte, tudo isto originou, mais recentemente, um movimento contrário de reforço da importância da Banda Desenhada norte-americana.

    O caso particular da Banda Desenhada portuguesa é um manancial de estudo sobre o espartilho ideológico imposto a uma forma de arte que nunca se emancipou, senão após o 25 de Abril, de estereotipos traçados à medida da estética de António Ferro e do seu peculiar sentido da arte ao serviço do Estado e da sua perspectiva de uma missão colonial.

    Também não é de estranhar a ausência de uma Banda Desenhada emancipada (arte degenerada?) nos países do chamado socialismo real, pois a capacidade desconstrutiva desta forma de comunicação artística, se a torna propícia à simplificação da propaganda ideológica – vejam-se os exemplos da China de Mao – não a qualifica para abordagens em que a aventura humana possa ser confrontada com o recurso à poesia, à dúvida, à revolta, aos transportes amorosos, e por fim (?) a uma recriação e reinvenção formal e identitária (redentora) de nós próprios.

    Por: LC

     

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